jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Maio 17, 2004

Capítulo Onze - A primeira noite de Suellen

(Queridas leitoras,
Excepcionalmente, neste capítulo decidi fazer um mimo para as pessoas que ainda não leram os capítulos antigos, que têm a memória ruim ou que não lêem o Jamais com paixão suficiente para lembrar de todos os detalhes. As palavras em hyperlink levam pros capítulos em que aparecem as cenas mencionadas, nos casos em que eu achei que era bom indicar.
Com muito amor, e aproveitem o capítulo, Samanta)


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No que o contratante se apresentou, o peito de Dagmar se encheu de um estranho frisson. O Bispo. Então aquele homem repentinamente surgido, que acabara de salvá-la da morte, era quem ficava do outro lado da linha de telefone? O aspecto tirano do Bispo não deixava dúvidas de que sim — de que, qualquer que fosse o esquema que estavam armando para cima de Marisa, o chefe de tudo era ele e só ele. Porém mal o homem se apresentou, e a porta do quarto se abriu novamente.

“Eu também sou o seu contratante. E também pode me chamar de Bispo”, disse então uma outra voz, assustadora e irrefutável como a primeira, mas de um timbre bastante diferente. E um outro homem baixo entrou pela porta do quarto.

Dagmar sobressaltou-se ao ver a figura do segundo Bispo: era exatamente da mesma altura do que o homem que matara o piloto Davi, e no entanto evidentemente os dois não eram irmãos. Os dois eram tão diferentes que se completavam e respondiam em masculinidade, eram ciclicamente um mais macho do que o outro. E não só que fossem absolutamente gregos e germânicos nos traços do rosto: eram viris, brutos como o sonho de toda mulher, e alguma coisa neles atraía irresistivelmente a impressionada Dagmar.

Os dois combinavam tão bem que se confundiam os traços: por exemplo, não dava pra discernir bem qual deles era loiro com suaves mechas pretas e qual era o moreno com reflexos dourados. Mas Dagmar tinha certeza, e um inaudito afã lhe vinha à alma: eram os mais irresistivelmente deliciosos cortes de cabelo que ela jamais tinha visto, eram cabelos cuja visão condenava a pessoa à tortura de com eles querer se deitar, com eles querer acordar. Dagmar tinha medo de que estaria apaixonada pra sempre se um sequer daqueles fios encostasse nela. E, além de tudo, os dois deuses não pareciam ter nenhum pudor em degustar visualmente os saradíssimos peitos da morena, que mais uma vez, como já tantas naquele dia, saltavam assustados do robe de chambre do Hotel Ipanema Savalla e empinavam-se em vista aberta.

“Eu adoro quando você faz isso”, o Bispo que matara Davi disse ao recém-chegado. “Aposto que a mocinha não está entendendo nada...”

E então os dois chefes fizeram uma das coisas mais excitantes que Dagmar já viu: um Bispo puxou o outro, agarrando-lhe docemente pela bunda máscula e firme, e os dois encetaram um beijo duro e violento, de músculos cerrados e fortes. Um Bispo ainda empunhava a pistola que matara Davi; o outro tinha as mãos livres, e aureolava com os dedos o mamilo do um, desfazendo-lhe os botões marotos da camisa. Quando os dois se soltaram, Dagmar estava perdida de amor.

“É bom você se vestir, guarde os seus peitinhos para a sobremesa”, decidiu o Bispo recém-chegado. O outro Bispo foi falar com o piloto:

“Antônio, você tira o Davi daí, pode fazer o que você quiser com o corpo dele, nós pagamos o enterro.”

Dito isso, o Bispo tirou 150 reais do bolso da camisa e deixou as notinhas marrons caírem sobre a figura do piloto Antônio, que se transcendia em prantos agarrado à figura do seu amante morto. À figura parcamente reconhecível do seu amante morto.

Dagmar, ainda cambaleando um pouco por causa da experiência de encontro com a morte, e apesar disso excitada pela presença magnética dos Bispos, apanhou um vestido limpo e entrou no banheiro da suíte.


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“Chamando doutor Hans Schukrutt. Chamando doutor Hans Schukrutt. Doutor Hans Schukrutt!”, repetia a voz de mulher no alto-falante. “Doutor Hans Schukrutt na cirurgia, doutor Hans Schukrutt.”

O alto-falante fez uma pausa e depois continuou:

“Chamando Suellen. Suellen, volta aqui pra recepção, Suellen.”

Mas Suellen, a safada mais recente enfermeira noturna do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, não podia ir para a recepção agora. Estava sendo enrabada por um delicioso médico, de um jeito que a moça não atentava mais a nada. A recém-formada Suellen esbanjava-se de contentamento: finalmente fora contratada para o turno da noite, que sabia ser o reino das mas intensas lascívias hospitalares, e em sua primeira noite estava sendo ‘congratulada’ de maneira muito auspiciosa pelo dr. Hans Schukrutt, um alemão moreno e peitudo que não poupava esforços para que a nova enfermeira se sentisse o mais confortável possível ao redor do seu pau. Era realmente um arranjo muito feliz, Suellen era uma garota de sorte: nem bem se formara enfermeira, já era funcionária pública concursada e contratada, e confortada sob as estocadas daquele cirurgião de primeiríssima linha. Realmente, Suellen tinha muito rabo.

“Suellen! Ô Suellen, vem aqui!”, o alto-falante ainda insistiu por uns cinco minutos, entre chamadas pelo doutor Hans Schukrutt e anúncios de óbito. Suellen, revigorada pelo prazer do exercício do seu metier, finalmente apareceu cavalgante na recepção, montada no corcel da sua alegria profissional. Estava pronta para dar tudo de si, seria a mais enfermeira das enfermeiras, naquela primeira noite e em todas as vindouras.

Chegando detrás do balcão de atendimento, a enfermeira sorriu amplamente para Telma, a colega da recepção, que prontamente lhe repreendeu:

“Faz dez minutos que eu estou te chamando, Suellen! Como é que você me deixa aqui sozinha no atendimento, eu preciso tanto ir no banheiro...”

“Telma...”, desculpou-se Suellen. Mas a outra nem ouviu, já tinha ido passar um fax pra Boston.

Mal a colega voltou do toalete, a enfermeira Suellen já estava às voltas com seu primeiro caso de recepção hospitalar:

“Telma!”, disse a novata. “Esse moço aqui está dizendo que é filho daquela mulher que está com a cabeça quebrada na UTI, aquela da tentativa de assassinato, foi você que me disse...”

E indicou o garoto grandão de uns vinte anos que, com a chave do carro na mão, se apoiava com uma cara de nervoso no balcão de atendimento.

“Filho da Jimena Jimenez???”, a enfermeira Telma perguntou muito descrente, olhando fixamente para o rapaz, que era tão parecido com a suposta ‘mãe’ quanto um jumento com uma piranha.

O rapaz, que obviamente era Matias Ameiro, respondeu com muito pouca resolução:

“Pois é... eu queria saber sobre o estado de saúde dela, eu espero que ela não tenha morrido...”, ele disse, tentando parecer delicado. Depois tentou fingir que chorava. “A minha mãe...”

Mas Matias ainda não era muito bom de fingir. Já era tímido normalmente, e numa situação daquelas o garoto travava tanto que quase mijava nas calças. Matias, que há poucos minutos deixara Marisa na porta da Escola de Aeromoças. Estava indo desligar os aparelhos que mantinham viva a chefe da Marisa, estava indo matar!!! Sua bexiga tremia só de pensar nisso, ele controlava o pensamento pensando que a mulher era uma bruxa infeliz e já estava quase morta mesmo, mas mesmo assim ele nunca tinha feito nada parecido. O pai, com orgulho, lhe enviara ao hospital com dois tapinhas nas costas, achando que finalmente o filho entendera que a vida dos outros a princípio não vale nada e que não há motivo pra você não matar. “Esse menino precisa se descabaçar”, dizia sempre o pai sobre o menino, em vários âmbitos.

Mal sabia o mafioso dr. Ameiro que naquele mesmo dia o jovem Matias perdera o maior de todos os seus cabaços: um amor verdadeiro, o amor de uma mulher, finalmente penetrara a vagina espiritual que o menino agora descobria em si, e seu hímen lésbico se rompia e abria como a flor da chave mágica do seu eu. O garoto, que por tantos anos lutara contra a verdade, agora via claramente que só no amor entre mulheres ele poderia encontrar o prazer. Matias sentia-se revigorado e esclarecido por essa descoberta. A enorme árvore de sua força feminina, que por tantos anos crescera em segredo e à sua revelia, agora mostrava-se frondosa e madura para a contemplação espantada do menino. Essa força feminina, que lhe permitia amar o verdadeiro amor, também permitia fingir e mentir além de sua antiga timidez de garoto, e agora lhe permitiria matar, matar!

“MATAR?!!”, repetiram em voz alta Suellen e Telma. Matias tinha pensando alto, que merda.

“Eu quis dizer ‘amar’!”, corrigiu o garoto que, do fundo de sua recém-descoberta feminilidade, lançou às funcionárias hospitalares um olhar entre mulheres, o olhar de quem realmente sabe o sentido da palavra ‘amar’.

“Ah, amar!”, a enfermeira Suellen repetiu sorrindo, aliviada e satisfeita, aprovando com a cabeça. “Amar... A sua mãe já acordou, ela está acordada agora! É claro que é bem possível que ela morra muito em breve, provavelmente ainda hoje, mas se você quiser se despedir dela é uma boa hora...”

Telma, que não estava comprando a história de o garoto ser filho da Jimena, cutucou a colega pra que calasse a boca.

“Acordou?!”, Matias perguntou surpreso e muito preocupado. A velha teria falado o nome de Marisa, teria feito a acusação definitiva?

“Acordou”, confirmou a enfermeira Suellen, sem dar atenção às suspeitas de Telma. “E inclusive está lúcida, ela já identificou quem foi a autora das lesões, é meio impossível que ela passe de hoje à noite... mas pelo menos não vai morrer impunemente. É claro que existe uma pequeníssima chance de que ela sobreviva e leve uma vida terrível e deprimente presa a uma cadeira de rodas... mas pelo menos não vai ser impunemente!”

E sorriu. Suellen ficava feliz de poder reconfortar os outros. Mas o garoto ainda parecia muito tenso. A enfermeira disse, solícita:

“Aguarde um pouquinho aí, eu vou anunciar você pra sua mãe, ela está conversando com uma policial...”

Anunciar? Policial?? Matias não tinha contado com essa. Achava que a mulher estaria lá como um verdadeiro legume, cujos aparelhos era só desligar. O rapaz bambeou nas pernas enquanto a enfermeira Suellen se afastava em direção à UTI para ‘anunciá-lo’, anunciá-lo para a polícia provavelmente! Sem nem mais nada explicar e sem discrição nenhuma, Matias foi se distanciado do balcão de atendimento com uma resolução a custo adquirida, andando em direção à saída do Pronto Socorro. A enfermeira Telma não entendeu, não sabia se devia detê-lo ou não...

E não deteve. Mal ganhou a rua, Matias zarpou para o estacionamento da esquina. Dois minutos depois uma policial fardada irrompia correndo na sala de recepção, de arma em punho, à procura do suspeitíssimo sujeito que tivera a idéia errada de mentir que era filho de uma mulher que tinha acabado de sofrer uma tentativa de assassinato.

“Onde é que ele foi?”, a gloriosa soldado Michele perguntou arfando à recepcionista.

“Ele entrou num carro ali!”, Telma apontou prontamente para o estacionamento, ainda sem entender o que estava acontecendo, enquanto Michele desaparecia pela porta de saída. E logo chega Suellen esbaforida, vindo do mesmo corredor por onde entrara a soldado.

“Telma! Telma!”, Suellen mal conseguia se conter. “A mulher da cabeça quebrada não tem filho! É um impostor!!!”

Suellen sempre quisera usar a palavra ‘impostor’. Essa vida de plantão era realmente muito excitante.

“Ele deve ser o assassino!”, Suellen concluiu, emocionada.

“Assassino?”, Telma perguntou. “Mas quem tentou matar a Jimena Jimenez foi uma mulher, foi ela mesma que falou! A paciente contou pra polícia que foi espancada por uma mulher do trabalho dela, ela foi espancada com um candelabro!”

“Um candelabro?”, Suellen não entendeu.

“Candelabro é um pênis de ferro e borracha, Suellen!”

“Nossa!”, Suellen não estava acreditando.

“A polícia até me deu uma foto da mulher fugitiva, pro caso de ela aparecer aqui...”, e Telma mostrou a Suellen a folha de computador com a foto de uma bela ruiva balzaquiana. Abaixo da figura, o nome: Marisa Rangel.

“Que máximo, vamos prender essa foto no mural!”, se empolgou Suellen, indo pegar um durex. “Vamos escrever em cima: procura-se desesperadamente!!!”

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“Vai logo, meu amor”, e um Bispo deu um chute muito forte na porta do banheiro. Dagmar, perdida debaixo do chuveiro, tentava lavar as traumatizantes experiências do dia, e a atração irresistível subitamente sentida por aqueles dois másculos sacerdotes do mal. Temendo pelo que ainda lhe pudesse acontecer, e desejando mais do que nunca que já estivesse com o resto dos dólares na mão, Dagmar queria prolongar para sempre aquele banho. Mas os canalhas pareciam estar com pressa.

“Se você não sair logo nós vamos entrar pra tomar banho com você...”, um Bispo disse sedutoramente junto à porta.

Tentando não atentar às provocações daquela voz, Dagmar terminou o banho, vestiu-se e saiu do quarto acompanhada pelos Bispos, que a escoltavam de cada um dos lados para fora do quarto. Antônio e o corpo de Davi já tinham saído, este último arrastado pelo corredor provavelmente, dada a longa marca que Dagmar via no assoalho enquanto andava pelo saguão do último andar do hotel. As demais pessoas que passavam ali — um casal de executivos, umas três ou quatro aeromoças japonesas — pareciam não dar atenção à gritante trilha de sangue que o morto Davi deixara em seu caminho, e cumprimentavam os Bispos com respeito e um aceno curto de cabeça.

Assim Dagmar foi conduzida até uma grande porta de madeira na ala posterior do hotel. Entrando, a moça assomou-se com o tamanho e a elegância do salão: era muito maior do que ela já tinha visto em filme, e ricamente decorado com um bom-gosto preciso e masculino. Os Bispos conduziram-na até uma grande escrivaninha de mogno — à qual, de um lado, Dagmar aconchegou-se numa envolvente poltrona, e do outro os Bispos aninharam-se, coxas docemente juntas, numa nababesca chaise longue giratória estofada com o mais macio dos veludos negros.

Ali os belos heresiarcas realizaram com Dagmar uma longa e profunda entrevista, em que perguntavam tudo o que ela tinha descoberto sobre Marisa nos últimos dois meses. Uma luz forte iluminava o rosto de Dagmar, e uma câmera nem um pouco escondida registrava e intimidava a moça. Os Bispos queriam saber de vários tipos de coisa sobre a ruiva seduzida, inclusive uns detalhes muito íntimos, sexual e afetivamente falando. Queriam saber as palavras que Marisa dizia quando se excitava, os secretos pedidos de amor que ela confiava ao ouvido de Dagmar, regozijavam-se com a angústia de Marisa cada vez que Dagmar contava ter se recusado, por fúteis pretextos, a dormir com ela. Ensombreciam-se e irritavam-se quando Dagmar contava as delícias que as duas passavam no banheiro da Escola, quase diariamente.

E Dagmar, conforme narrava para eles e a câmera tudo o que acontecera, ia achando cada vez mais estranhas as perguntas que os dois Bispos inventavam. Parecia que eles não sabiam nada sobre Marisa, que achavam que ela era mulher rica e tal, eles faziam umas perguntas que não tinham muito sentido, foram ficando mais irritados quanto mais Dagmar falava — e a moça não estava mentindo em absolutamente nenhum detalhe.
Além de tudo, Dagmar notou, tinha alguma coisa muito estranha no jeito como eles falavam o nome da Marisa. Parece que eles diziam “Marila”, “Marília”, “Amarila”?

“De quem é que nós estamos falando?”, um Bispo bruscamente perguntou, levantando-se da chaise longue num pulo.

Ele tirou da gaveta um envelope cheio e, irritado, deixou seu conteúdo cair no colo de Dagmar.

Um punhado de fotos se espalhou pelas coxas da morena. Fotos tiradas dentro da Escola de Aeromoças, e mostravam Marisa dando aula, Marisa se arrumando no espelho, Marisa — oh! — no banheiro com Dagmar, fazendo o que melhor faziam. Era uma imagem pouco nítida, tirada de um ângulo bizarro, mas dava pra ver claramente que eram duas moças com as calçolas arriadas e os peitos colados em arfante amor. Dagmar ficou constrangidíssima ao ver a foto, passou rápido para as próximas, que mostravam Marisa na secretaria e na cantina da escola.

“De quem é que nós estamos falando, hein?”, o Bispo perguntou, colérico, metendo o dedo nas fotos.

“Da Marisa...”, a morena respondeu, hesitante e irresoluta. “Nós... estamos falando da Marisa Rangel...”

“O NOME DELA É AMARÍLIS!”, o Bispo inflamou-se e deu uma porrada vertical na mesa. “Se ela disse que era Marisa, ela mentiu pra você!”

“Mentirosa!”, disse o outro Bispo, olhando pra Dagmar.

A morena não entendeu se o “mentirosa!” se referia a ela ou à Amarílis-Marisa, e aliás não estava entendendo absolutamente nada. Já tinha ouvido falar de uma Amarílis que mandava e desmandava na Escola de Aeromoças, mas as fotos que os Bispos mostraram eram incontestavelmente de Marisa. Será que aquelas criaturas tinham uma piração com a Marisa, ou talvez com as duas? Aliás, Dagmar bem ouvira falar de uma fofoca muito suja e muito braba envolvendo Marisa, um caso da época em que a ruiva ainda não dava aula na Escola da Aeromoças, trabalhava como aeromoça na Transbrasil.

O babado dizia que Marisa tinha sido demitida da companhia aérea por causa de um suposto envolvimento num triângulo amoroso bastante bizarro: ela “servia” dois pilotos nos banheiros do aeroporto nos horários de descanso, e em estilo liberal: os dois ao mesmo tempo, sim senhor. Um dia alguém pegou o três formas de amar em plena ação, e foi todo mundo demitido. Dagmar achava essa história dificílima de acreditar, afinal conhecia muito bem os impulsos sexuais ginófilos e misantropos de Marisa, não conseguia de maneira alguma imaginar aquela deliciosa bolacha servindo de queijo e presunto num sanduíche de homem. Além disso, sabia muito bem do nível de putaria que rolava nas empresas aéreas, envolvendo todos os escalões de funcionários e passageiros, e duvidava muito que alguém pudesse ter sido demitido por justa causa de luxúria. Mesmo assim, o boato ia mais longe: dizia que os dois pilotos tinham se apaixonado por ela, que queriam casar com ela no exterior, e que Marisa tinha abandonado os dois, deixado os tarados chupando dedo. Eles inclusive teriam ido procurá-la uma vez bem de manhã na Escola, ficaram fazendo perguntas pra todo mundo, mas diz que eles não sabiam nem o nome da mulher que eles estavam procurando.

Por mais improvável que fosse, aquele antigo rumor tinha um enredo muito inquietante: dois homens perseguiam Marisa, dois tarados, e podiam muito bem ser esses dois loucos que diziam os dois se chamarem ‘o Bispo’. Se não fossem loucos, o que é que dois semideuses poderosos do mal podiam querer com a tontinha da Marisa, que, apesar de muito gostosa, era pobre e professora? Aliás, que história era aquela de eles confundirem a Marisa e a tal Amarílis, por que eles insistiam tanto nesse nome? Dagmar achava impossível que Marisa lhe tivesse mentido o nome. Mas então, será que Dagmar seduzira a mulher errada?

Muitos nomes, muitas perguntas. O mundo era mais estranho do que Dagmar pensava.

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PROCURA-SE DESESPERADAMENTE!

Era o que se lia, em letras enormes, sobre a foto 3x4 da nossa ruiva Marisa. No imenso mural da recepção do Pronto Socorro, a pequena foto impressa perdia-se em meio a anúncios, memorandos, cartazes de campanha. Do balcão, a enfermeira Suellen contemplava com ardor o anúncio de procura-se, mas não esperava que a perigosa e tresloucada assassina do candelabro aparecesse por ali ainda hoje.
Suellen achava que já tinha visto o bastante pra uma noite.

Além do caso do menino que queria se passar por filho da mulher espancada, além de alguns esfaqueamentos convencionais, um sujeito que tinha espetado um garfo no próprio olho etc., a enfermeira Suellen também recebera as agradáveis ‘boas-vindas’ dos maqueiros Guilherme e José, da doutora Fátima e de uns três ou quatro pacientes. Às onze horas da noite a enfermeira estava completa, exausta e satisfeita. A vida de plantão noturno era exatamente o que Suellen imaginara quando adolescente: emoções eletrizantes entre a vida e a morte, sexo pornográfico com uniforme, e a fruição de uma estética da violência. Mas a garota não podia prever a bela cena que ainda hoje se encenaria na recepção. Às onze e vinte daquele sábado, três ambulâncias baixaram juntas na porta do Pronto Socorro.

A enfermeira Telma, cujo turno faltava só quinze minutos pra terminar, ficou puta com a idéia de fazer hora extra:

“Puta! Logo agora que eu ia sair!”, Telma disse.

“O que será que aconteceu??!”, Suellen não se agüentava de curiosidade. Espiando para fora, via as ambulâncias se abrirem como presentes de aventurosos segredos, como depositárias do verdadeiro charme de uma metrópole.

“Deve ter sido outro acidente de ônibus, puta que o pariu”, a enfermeira Telma resmungou, parando de arrumar a bolsa.

Mas logo uma mulher peituda e esbaforida de uns quarenta anos, muito bem vestida, chorando e tentando manter a calma, atravessou o saguão e veio logo falar com as recepcionistas:

“Olha, olha...”, a mulher não conseguia falar muito bem. “Tem oito meninas acidentadas...”

A mulher peituda — que era ninguém mais ninguém menos que Amarílis Conceição, fundadora e única proprietária da Escola das Aeromoças — parecia traumatizada, como se tivesse visto a desverdade sobre a Terra. Compadecida, Suellen ofereceu-lhe um copo d’água com maracugina. Amarílis tomou, mas não conseguia parar de chorar.

“Elas precisam de atendimento...”, ela murmurou entre as lágrimas.

“Elas quem?”, Suellen perguntou, mas Amarílis não precisou responder. Oito raparigas vestidas com gala e luxo, com vestidos de noite e cabelos laqueados, entraram pelas portas do Pronto Socorro, todas com profundos ferimentos de corte. Algumas vinham deitadas em macas, outras carregadas em braços, nem todas pareciam estar conscientes. As que estavam sofriam, e traziam na face, além dos diversos cortes, também as marcas pretas ou azuis de suas lágrimas de dor. Telma anunciou no alto-falante:

“Maqueiros, emergência, maqueiros e enfermeiros na recepção. Maqueiros na recepção! Enfermeiros na recepção!”

E um pequeno time três de funcionários públicos veio receber as moças mutiladas. Enquanto Suellen olhava, vidrada, o que parecia o mais impressionantemente estético momento de sua vida, Amarílis explicava a Telma o que tinha acontecido no batismo das aeromoças.

“... e de repente o globo de espelho explodiu!”, dizia ela, parando às vezes para chorar. “Tinha uma bomba dentro do globo de espelho!”

“Meu Deus do céu!...”, a enfermeira Telma não tinha o que dizer. Sabia bem que o terror e a violência estavam por toda parte, e que hoje em dia as atrocidades aconteciam de maneira completamente gratuita e aleatória, mas nunca tinha ouvido um exemplo tão realista deste pensamento.

Conforme a última das batizandas foi levada para dentro, a mulher peituda pediu com-licença e foi entrando na sala de atendimento de emergência também, junto com todo um bando de professoras da Escola de Aeromoças, amigos e parentes das meninas.

“Onde é que vocês vão?”, a enfermeira Telma interrogou emputecida pelo alto-falante, quando viu que a galera estava entrando junto. “Só os pacientes podem entrar no pronto-socorro, por favor voltem!!!”.

A pequena multidão traumatizada continuava se enfiando pra dentro do hospital, parecia não ouvir os apelos cada vez mais altos da enfermeira Telma.

“Por favor voltem!!!”, o alto-falante esgoelava-se. “Suellen, faz alguma coisa!”
Mas o que é que Suellen podia fazer? O que a pobre e recém-contratada enfermeira Suellen podia fazer contra uma manada de tresloucados que nunca viram acidente na vida? A multidão de acompanhantes, liderada por Amarílis Conceição, foi entrando longe no corredor, seguindo as acidentadas, passando pelas grandes portas da sala de atendimento.

“Peraí, peraí!”, Suellen foi gritando atrás, abrindo caminho pra dentro da sala. Subindo nas pontas dos pés, a enfermeira procurava entre as pessoas a tal Amarílis, que afinal era a única que talvez pudesse convencer a galera a sair pacificamente da sala. Só que, para seu espanto, Suellen constatou que Amarílis não estava mais com o grupo!

Como assim?

“Amarílis! Amarílis!”, Suellen gritou sem pudor, perplexa de a mulher ter repentinamente desaparecido. A sala de atendimento de emergência obviamente estava uma feira livre, juntando os gritos das feridas e dos parentes, os pedidos putos de ‘calma!’ e ‘um por vez!’ dos enfermeiros e funcionários, e os gritos por ‘Amarílis!’ da enfermeira Suellen.

Era isso mesmo: a mulher tinha sumido. Perplexa, Suellen atravessou a multidão da sala, atravessou a porta que dava para as alas internas do hospital, e percorreu aflita um ou dois corredores, em busca de sinal da escorregadia Amarílis Conceição, que parecia ter se embrenhado em outra área restrita do hospital. E, quase perdendo as esperanças e o fôlego, Suellen ia voltando à recepção por dentro da sala 3 da UTI, quando uma voz familiar lhe chamou a atenção.

“...doeu, mas você vai ficar tudo bem, eu vou falar com o médico...”, aquela era a voz de Amarílis, e vinha de trás do biombo que separava um leito do resto da sala. “Você não imagina o que fizeram hoje no batismo, Jimena...”

Jimena, Jimena Jimenez! Ao ouvir o nome da espancada dito por Amarílis, Suellen foi se encaminhando furtivamente, sem fazer barulho, para mais perto do biombo, tomada de extrema curiosidade, tal que seu peito arfava. Amarílis continuava a falar:

“... eles botaram uma bomba! Você não viu o que é que foi aquilo... ainda bem que você não viu, meu amor...”

Ouvindo essas palavras, o coração de Suellen cada vez se sobressaltava mais. A enfermeira colou-se ao biombo, e pôde ouvir também as palavras de Jimena, que soavam fracas e interrompidas:

“... quem sabe alguma... coisa da... Marisa. Eu já mandei a polícia... ir na casa dela...”

“Maldita!”, Amarílis disse alto. “Ela não sabe o que ela fez com você... meu amor...”

E, por um instante, as duas ficaram em silêncio. E foi então que Suellen, incapaz de conter sua curiosidade novelesca, arriscou uma olhada discreta por um dos lados do biombo. Olhando, viu a visitante sentada no leito da paciente. O corpo de Amarílis apoiava-se suavemente sobre o de Jimena e, entre os aparelhos de soro e respiração, as duas uniam suas almas num profundo beijo.

Amarílis comprimia de leve o seio da paciente, e Jimena respondia parcamente com um movimento da mão, que agarrava com carência os dedos de sua amante. As bocas das duas mulheres deslizavam devagar, preenchiam uma a outra.

Suellen delirou de excitação, e mal conseguia se esconder atrás do biombo. Se as duas quarentonas não estivessem amorosamente se atracando, teriam com certeza visto a enfermeira que, com os olhos e a imaginação, participava do emocionante encontro. Quem seriam aquelas mulheres, que força levava as duas a tanto se amarem? Suellen extraviou-se em suas inquisições sobre a vida.

Mas foi resgatada pela insistência de Telma, que mais uma vez anunciava o seu nome:

“Suellen! SUELLEN! Você tem um minuto pra vir aqui, um minuto!!!”

Chegando à recepção, ainda com o pensamento na cena que por muita sorte espiara, Suellen correu pra contar tudo à enfermeira Telma. Mas esta lhe interrompeu, indicando o outro lado do balcão de atendimento. Ali, três belas mulheres de novelesco aspecto pareciam ter passado por um estranho perrengue.

Uma policial fardada e uma grande ruiva bem-vestida tinham as mãos algemadas uma à outra. Sobre uma maca — que esperava o transporte até o atendimento, estava deitada outra policial, gemendo que nem uma cadela — com um grande rombo no flanco direito. Foi a PM algemada que falou:

“Atendimento muito rápido pra minha colega aqui, ela foi ferida em serviço, eu quero que ela seja atendida agora, entendeu?”

A gambé, uma loira fenomenal com um considerável sotaque gaúcho, parecia estar deixando claro que suas palavras eram ordens. A ruiva algemada a ela não falava nada, só olhava sobressaltada. E a colega ferida, provavelmente por causa da dor, falava os maiores impropérios:

“Filha-da-puta! Daniella, sua filha-da-puta!”

“Qual é o nome da paciente?”, Telma perguntou com eficiência, instada pela autoridade da policial loira.

“O nome dela é soldado Michele Azevedo, e ela vai ser levada agora pro atendimento”, declarou a soldado Daniella.

“Cuzona!”, Michele ainda adicionou. “Sua pilantra!”

“SUA... SUA ASSASSINA!”

Quem adicionou isso foi a enfermeira Suellen, apontando o indicador detetivescamente para o rosto de Marisa, que era a ruiva algemada à bela soldado Daniella. “VOCÊ É A MARISA RANGEL!’, e Suellen dizia isto não tanto com ira e julgamento moral, mas principalmente com a ansiedade de alguém que descobriu, no meio da multidão, uma celebridade disfarçada de pessoa comum. Com uma mão apontava Marisa, e com a outra o procura-se desesperadamente.

Telma olhou para ela com cara de brava, mas Suellen continuou espantada, agora em voz mais baixa:

“...Eu nunca tinha visto uma assassina...”

“Suellen, se manca...”, Telma devolveu, murmurando com medo da soldado Daniella, que agora olhava muito feio para as duas. “Olha a policial aí do lado dela, tá tudo bem, além de tudo a paciente ainda não está morta, não é mesmo...”, e sorriu.

“Exatamente, está tudo bem”, a soldado Daniella garantiu, incontestável. “A polícia está trabalhando...”

“Não deixe ela fugir! Não deixe ela fugir”, a soldado Michele ainda gritou ao passar ao lado de Suellen, quando a levavam na maca corredor adentro.

Mas Suellen não entendeu o que Michele queria dizer. Afinal, a prisioneira já estava algemada com a polícia, como é que ela poderia fugir? Daniella, concisa e circunspecta, não tinha no aspecto nada que indicasse que, menos de uma hora atrás, ela tocara o pânico no batismo das aeromoças para ajudar Marisa a escapar.

Surpreendida do lado de fora pela soldado Michele, que interceptara e rendera as duas na tentativa de fuga, Daniella fizera uso do seu sangue-frio para reverter subitamente a situação. Enquanto Michele, satisfeita por haver dominado a colega, algemava as mãos das duas prisioneiras, Daniella conseguira sacar a arma de Michele com a mão livre, e disparara-lhe certeira uma azeitona no flanco, para ela cair sem morrer.

“SUA DOIDA FILHA-DA-PUTA!”, Michele ainda gritara ao cair, entre urros intensos de dor.

“Cadê a chave da algema, Michele?”, Daniella prontamente perguntara.

“Filha-da-puta... sua nojenta...”, Michele continuara ainda, antes de revelar, com o coturno de Daniella apertando-lhe o rosto, que a chave da algema ela tinha deixado no distrito.

“Filha-da-puta”, Daniella devolvera. “Agora a gente vai ficar assim? Marisa, você vai ter que me ajudar”

E as duas juntas tinham carregado Michele para dentro do carro, de onde seguiram para o Hospital das Clínicas, a soldado Daniella guiando heroicamente com uma mão só. Marisa, acatando as instruções de Daniella — que mandara ela não abrir a boca em momento algum — assustou-se em silêncio ao lembrar-se que era justamente no Hospital das Clínicas que Matias dissera terem internado Jimena. Queria ir logo embora dali, estava apreensiva, e percebia que as pessoas a olhavam sem pudor, por causa das algemas e pelo escândalo que aquela enfermeira popozuda vulgar tinha feito.

Daniella, no entanto, agia com calma e como se estivesse em pleno exercício da função de autoridade.

“Agora ela já está entregue”, a soldado Daniella disse à enfermeira Telma. Depois voltou-se para Suellen, falando com certa irritação na voz: “E você pode rasgar essa fotinho aí! Pode rasgar agora”, e apontava para o procura-se desesperadamente.

Daniella esperou que Suellen, obediente, arrancasse o anúncio do mural e o rasgasse em pequenos pedaços. Depois, ainda mandando nas enfermeiras um ar de “tremam sob o meu poder”, a soldado virou-se junto com Marisa para que fossem embora, rapidinho inclusive.
Mas o par algemado foi interrompido por uns gritos que vinham do corredor:

“Sua piranha! Assassina, piranha!”

As duas se viraram e viram: da sala da UTI vinha uma mulher correndo e esbaforida, com um cigarro aceso na mão. Marisa levou um susto — era a sua patroa Amarílis Conceição, de rosto todo borrado e muito puta.

“Sua piraaaaanha...”, disse Amarílis chegando mais perto, e fazendo um gesto de ódio com o cigarro. “O que você fez com a Jimena...”

“Amarílis, mas foi ela que tentou me violentar!”, respondeu Marisa conforme a Amarílis se aproximava, indignada que a amável patroa — que sempre a apoiara e guiara desde o início de sua carreira como professora, que a acolhera com tanta ternura e que era a ‘mãe de todas as aeromoças’ — tivesse se voltado contra ela com uma fúria flamejante daquelas. “Você não viu o que a Jimena fez comigo, Amarílis, ela tentou...”

“Você já viu como ficou a cara dela?!”, Amarílis interrompeu acusando, apontando o cigarro aceso pro caminho da UTI. “Jamais. Jamais ela vai sair de uma cadeira de rodas! Marisa, Marisa, sua assassina!”

Dito isso, Amarílis teve um sobressalto de raiva, e esticou a mão com rapidez para cravar as unhas no belo rosto da professora Marisa.
Mas o golpe foi interceptado pela mão firme da soldado Daniella, que reteve no ar a mão de Amarílis antes que esta atingisse o golpe. Com sua força gaúcha fenomenal, a soldado empurrou Amarílis para longe de sua protegida.

“O elemento já está sob custódia”, a policial afirmou ríspida. “E além disso, não pode fumar em hospital.”

E, com a mão livre, Daniella deu um tapão na zoreba de Amarílis, que fez o seu cigarro voar longe.

Amarílis sossegou imediatamente. Ela e as enfermeiras observaram, intimidadas, enquanto a autoridade docemente escoltava Marisa até a porta, e dali à viatura. A enfermeira Suellen, perplexa e apaixonada, ficou se perguntando se algum dia aquela loiraça gambé, e a perigosa espancadora do candelabro, iriam visitá-la novamente em seu excitante plantão noturno.

“Tchau, enfermeira Telma! Até amanhã!”, Suellen disse sorridente, conforme Telma fechava o zíper da bolsa. Mas é claro que Telma não ia sair sem dar à nova enfermeira as famosas ‘boas vindas’ do Pronto Socorro.

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“Você pode dormir aqui, eu vou dormir num colchão, amanhã cedo a gente vê o que a gente vai fazer”

E Daniella apontou a Marisa sua cama de solteira, severamente arrumada, encostada na parede úmida do quarto. O apartamento da soldado Daniella, pequeno e em péssimo estado de conservação, era onde as duas estavam agora.

A gambé, que rebentara a algema barbaramente com um martelo e um estacão de ferro, agora fazia um curativo no pulso delicado de Marisa. Daniella mal conseguia acreditar que Marisa — a mulher que reinara soberana no seu coração ao longo de todos os anos 90, a mulher que tinha sumido e levado o melhor de sua juventude — estava finalmente sentada em sua cama.

Não era nada como imaginara. Daniella sonhava com Marisa aparecendo viva no Triângulo das Bermudas e coisas do gênero, nunca podia imaginar que a encontraria no carro de um pleiba, depois a perderia de novo e a salvaria de ser presa por tentativa de assassinato. Pensando bem, era uma bela história de amor... e Daniella a fruía com toda a profundidade de seu imaginário. Dentro do coração da gaúcha, uma vitrola apaixonada ia tocando “I am the man / who will fight / for your honor”...

Pela primeira vez em dez anos, Daniella sentiu-se realmente em casa. O mundo estava presente nela. Ao terminar o caprichado curativo, Daniella fez menção de reconfortar Marisa com um abraço.

A outra, esgotada e confusa, acabou deixando-se reconfortar. Aquela era a sua segunda noite nômade, depois que tresloucada e seminua abandonara o apartamento em Osasco. Em questão de alguns dias perdera o seu amor e o seu lar, tornara-se uma fugitiva, mal-amada e dependente da bondade de uma mulher que irrompera repentinamente do passado. Marisa revisou mentalmente os eventos que a levaram a sumir perstidigitadoramente da vida de Daniella, já fazia tanto tempo, Marisa ainda era moça e aeromoça... e agora estavam as duas novamente juntas, naquele apartamentinho tão pobre do Centro, se pelo menos Dagmar soubesse como ela estava na pior, quem sabe sentiria pena.

Quando ela pensava em Dagmar, como sempre pensava, o nome Cidade Maravilhosa brilhava na alma de Marisa como em néon, iluminando as delícias imaginárias em que a sua amada estaria envolvida. Dagmar que a deixara tão cruelmente, com um bilhetinho lacônico e um presente de mau-gosto, Dagmar estava tão longe agora, tão longe... Naquela mesma noite, por exemplo, devia estar passeando num conversível à beira da praia de Copacabana, ou bebendo longas caipirinhas numa cabine privada sabe-se lá com qual ricaça carioca ou atriz fancha de novela no topo do Cristo Redentor, passando gloriosa sob o Arco da Lapa, que soltava fogos de artifício e iluminava a amplidão da noite, ou então descalça sobre a areia noturna com uma linda e excêntrica produtora/designer, as duas abraçadas junto ao mar, alimentando peixes e golfinhos...

Foi assim que, perdida no exercício triste da sua imaginação, e exausta pelos sobressaltos da noite, Marisa deixou-se embalar nos braços de Daniella. Ali, adormeceu profundamente.