jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Setembro 30, 2003

Capítulo Dois - Anjo Caído

Muitas vezes nos lançamos com toda energia e fervor a um intento, sem saber que, desde o primeiro instante, está além de nossas forças alcançá-lo.

Assim é que, mesmo antes de Marisa deixar a Escola de Aeromoças e precipitar-se pela Teodoro Sampaio afora, sem sequer se preocupar em garantir que não daria com a Jimena, ou a D. Neusa, ou com qualquer uma a quem teria que explicar sua presença ali ainda naquele horário - se há muito que supostamente se ausentara para ir ao ginecologista -, mesmo antes que Marisa pudesse começar a correr para buscar, cega de paixão, a sua Dagmar, aquela que era seu anjo nesta terra voava docemente em direção à outra, com asas que não eram suas.

"Senhoras e senhores, dentro de instantes estaremos sobrevoando o Aeroporto Santos Dumont. A temperatura local é de 27 graus centígrados. Esperamos que tenham tido uma boa viagem. Gratos pela preferência.”

O comandante da ponte aérea fazia, como fizera já tantas e tantas vezes, os anúncios de praxe. No entanto, vendo o céu tão límpido naquele princípio de noite de verão, achou por bem acrescentar, numa ligeira quebra de protocolo:

“Recomendo às senhoras e aos senhores que desfrutem da paisagem – enjoy the beautiful view of Rio de Janeiro.”

De fato, o Pão-de-Acúcar e a Baía de Guanabara viam-se nítidos sob o céu límpido. Dagmar, sentada à janela, mantinha-a, contudo, fechada. Um senhor ao seu lado impacientou-se:

“Ei menina, não vai abrir a janela? Deve estar lindo lá fora!”

Dagmar trocou de lugar com o agradecido passageiro, sem uma palavra. Ela não se importava. Achava horrível viajar de avião, depois de tanto conviver com pilotos e comissários. Detestava ser servida, sentia-se mal – ainda mais quando reconhecia, como era freqüente acontecer, a má vontade, o desprezo por trás da máscara de solicitude forçada dos profissionais de vôo.

E como poderia sequer suportar a visão serena e bela do Rio de Janeiro à distância, se encontrava-se perdida em sua atormentada, desoladora paisagem interior? E se cada instante de vôo a aproximava mais de novos tormentos e humilhações?

Não queria chegar. Tampouco desejava ter ficado em São Paulo. Num impulso, rogou aos céus que o avião caísse.

Pensava em Marisa. Em como cada vez mais a pena que sentia por ela se transformava em repulsa. “Não devia ter ligado”, recriminou-se. Estivera a ponto de jogar tudo para o alto, todos os meses de sedução, de incitação ao desejo ardente e ao coração romântico daquela moça carente e ingênua que – e Dagmar cerrou os olhos com força ao fazer essa constatação – que a amava.

Sim, não havia dúvidas de que Marisa amava-a loucamente. Seu êxito não poderia ter sido mais completo – mas isso não aliviava nem um pouco a alma de Dagmar. Ao contrário, apenas acentuava sua culpa, e a raiva que sentia de si mesma, e até da inocente Marisa, cuja ânsia por mais freqüentes e íntimos carinhos causava náuseas à Dagmar.

Sabia que, cedo ou tarde, teria de ceder aos caprichos da outra, para não pôr a perder todo o trabalho empenhado até então em sua conquista. As mentiras que inventara a seu próprio respeito, a suposta insaciabilidade sexual, a promiscuidade, voltavam-se agora contra ela, na medida em que tornavam mais urgente a excitação, o desejo imperioso por seu corpo que dominava a apaixonada Marisa.

Acuada, pensara em desistir de tudo, desaparecer sem rastro ou explicação. Por pena ou remorso, deixara o odioso “presente de despedida” na gaveta da namorada. E iria partir.

Mas, no último instante, fraquejou – já fora tão longe, afinal! Telefonou do aeroporto, quase perdeu o vôo e, não encontrando Marisa – onde estaria ela? – pôde apenas balbuciar qualquer desculpa à Jimena. Será que a velha vaca ao menos transmitiria o recado? Esperava que sim, e que a outra se contentasse com aquilo. E que não se ofendesse com o “presente”. Sabia que haveria perguntas, pressões, súplicas. Já repudiava antecipadamente a cena que podia antever: Marisa transtornada, lágrimas no rosto inchado, cobrando, exigindo explicações, e depois, exigindo seu corpo, sua boca, seu sexo.

Mas tinha de submeter-se. Esforçava-se para manter a mente fixa em seu objetivo maior. Estaria ela disposta a fazer qualquer sacrifício? Sim, estava. Por mais que vivesse um inferno ainda por muitos meses, não podia desistir. Chegava ao Rio e continuaria obediente a quem lhe ordenava toda aquela humilhante farsa que ela mal compreendia. Porque nada era mais importante do que seu objetivo. Nada.

“Senhores passageiros, preparem-se para a aterrissagem”, anunciou a voz da cabine.

E novamente o coração de Dagmar oprimiu-se. Não importa onde chegasse, sabia que somente mais sofrimentos a aguardavam.

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