Capítulo Um - "Não tem namorado porque é uma grande piranha!"
"Amamos a vida, não porque estejamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados a amar."
Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra
...
“Dagmar, Dagmar!”, pensava pela janela o olhar desesperado de Marisa, esquadrinhando a calçada em frente à Escola de Aeromoças numa busca nervosa pela figura da mulher amada. Já eram seis horas da tarde, Marisa começava a sentir falta de ar com a idéia de que Dagmar não viria. Elas não se veriam por três dias, e essa idéia era como um abismo de lágrimas que se abria, aos pés de Marisa, entre o agora e o resto de sua vida.
E se Dagmar viesse depois das seis e quinze seria talvez pior ainda: Marisa havia dito à Jumenta (nome que professoras e alunas davam por trás das costas à asquerosa dona Jimena, diretora da escola) que sairia às seis e quinze para ir ao ginecologista, não poderia estar ali quando a velha descesse do escritório, seria obrigada a ir embora sem ter a conversa, que tanto precisava ter, com sua amante — a conversa onde se desmentiriam as tristes suspeitas de Marisa sobre a fidelidade e as intenções de Dagmar. Suspeitas, acrescidas cotidianamente de detalhes cada vez mais dolorosos, de que Dagmar a estava traindo e estava muito prestes a abandoná-la. Daquela conversa todas as suas alegrias futuras dependeriam. Marisa tinha as garras, tão fortes, de sua esperança presas à idéia de que hoje, sexta-feira, as duas acabassem dormindo juntas, e um renascimento explícito do amor fizesse com que Dagmar lhe jurasse fidelidade eterna.
Nunca tinham dormido juntas. Dagmar, nos dias em que vinha trabalhar na escola (ela ficava atendendo o telefone no turno noturno), saía muito tarde e tinha medo de ir de ônibus a Osasco, que era onde Marisa morava. Apesar das súplicas desta última para que dormissem juntas — coisa que Marisa desejava com toda a sua pulsão de amor — Dagmar insistia em que as duas se encontrassem sempre de dia, e escondidas no banheiro das secretárias. Ali as duas se envolviam em deliciosas carícias, mas nunca tinham trocado as juras de amor que para Marisa eram tão necessárias. Nos breves momentos de prazer que experimentavam no banheiro, a ausência das juras românticas ocupava o espírito de Marisa de tal forma que ela cada vez menos e menos se entregava aos deleites da carne e ao exercício do prazer. E essa recusa, involuntária, fazia com que a cada dia Dagmar perdesse, irrecuperavelmente, o desejo que sentia pela amante. Sobre esse desejo — que apenas um mês atrás tinha sido deliciosamente indomável — agora pesava a triste sombra do hábito e da indiferença. Marisa sabia que iria perdê-la. No entanto, uma esperança selvagem, desvairada e autônoma prometia à apaixonada que hoje, finalmente e como coroa de todos os seus sofrimentos, Dagmar completamente nua lhe diria “Marisa, é só você a mulher que eu amo.” Acreditava tanto nisso que quase chegava a ver Dagmar em sua caminha quente em Osasco.
Olhou mais uma vez pela janela. Parecia-lhe terrível a idéia de ir embora, mas também torturante engolir justamente agora os insultos cruéis da odiosa dona Jimena, que apareceria a qualquer momento e perguntaria, com uma ironia superficial e burra: "Você não ia examinar aquele seu probleminha venéreo, querida?!". Por isso arrumou sua mesa de trabalho, de modo a parecer que já tivesse ido, e correu para dentro do banheiro que já tantas vezes fora o ninho dos mais insuspeitos prazeres. Marisa sabia que Dagmar procurá-la-ia no seu tão sagrado banheiro quando chegasse. Ou pelo menos Marisa ouviria Dagmar chegando. E ela tinha que chegar! Afinal, daqui a pouco a secretária que ficava na recepção iria embora, os clientes iam telefonar à noite e Dagmar tinha que estar lá pra atender. Tinha que!
Marisa acomodou-se na última cabine de privada e, sem poder fumar, arrancava grandes pedaços das unhas com os dentes. Cada minuto de espera era mais um dedo que apertava a sua goela. “Que ódio!”, já pensava, ao prever que a qualquer momento a dona Jumenta desceria do seu escritório e passaria o resto da noite naquela secretaria, falando de supermercado, de absorvente, de fofocas que ela leu na revista Época — assuntos idiotas que pareceriam uma irritante afronta ao transtorno amoroso de Marisa. E Marisa foi surpreendida, em seu ódio antecipado, pelo barulho da porta de cima abrindo.
Ouviu passos de quatro pés: era a Jumenta que descia. Acompanhada pela dona Neusa, a copeira, com quem falava bem alto.
“... me cobrou vinte e cinco reais, dona Neusa. E depilou até o meu ânus, sem eu pedir. Uma maravilha.”
“Ah, é, dona Jimena?”, respondia a sonsa da copeira.
“Agora quero ver esses piolinhos me pegarem de novo, dona Neusa. Quero ver. Eu tive que aplicar Kwell na minha parte íntima, a senhora acredita?”
“Ah, é?...”
Marisa aquela hora tinha ganas de esmurrar a diretora para fazê-la calar a boca. Era como se as besteiras que dizia aquela voz odiosa enchessem de uma areinha fina os olhos da alma de Marisa, que, agustiados, choravam. Marisa olhava, por baixo da portinha da cabine, para um lugar do chão onde esperava ver a sombra da porta do banheiro que, ela desejava com o resto de sua fraca esperança, em breve se abriria trazendo Dagmar. Mas enquanto isso Jimena continuava:
“... essa aí tá ridícula de achar que vai casar com o gringo, dona Neusa. Olha bem: que gringo é que ia querer uma menina inútil que nem ela, uma menina de espinha torta que nem consegue carregar bandeja, uma menina que foi reprovada em ‘Postura e Etiqueta I’, dona Neusa! ‘Postura e Etiqueta I’, tenha dó... a Maria Clara vai ficar pra titia mais titia que a própria Marisa.”
“Coitada da dona Marisa, essa nem nunca namorado teve... tão feinha...”
“É... Mas essa não tem namorado porque é uma grande piranha. Os outros é que fingem que não vêem. Eu sou macaca velha e vejo muito bem: lembra aqueles dois pilotos que vieram aqui procurando uma moça que eles não sabiam o nome, ficaram olhando as alunas, pediram pra entrar na secretaria? Pois é, a senhora fique sabendo que é da Marisa que eles estavam atrás. Me contaram que ela namorava os dois ao mesmo tempo ... ao mesmo tempo MESMO, dona Neusa! Quem me contou viu muito bem, no banheiro masculino da tripulação do aeroporto, em pleno dia de semana, a piranha e o par de cornos, ela espremida no meio. Isso na época que ela estava na Transbrasil. Foi por isso que ela foi demitida. Disseram que os dois tarados sem ela não vivem, que querem casar com ela e tudo ... Na Europa pode, dona Neusa ... É..., a senhora acha que o mundo tá aonde? Essa gente quando chegar no inferno não vai ter lugar pra eles. Aí é que eu quero ver...”
“Coitada dela, dona Jimena...”
“Coitada o meu caralho. Ela finge de sonsa! Mas eu já falei pra mim mesma: no ano que vem essa piranha não trabalha mais aqui não, exatamente no mês que acabar o curso eu boto ela bem no olhinho da rua, sem choro nem nada. Quanto a senhora quer apostar que ela rouba dinheiro da secretaria? Todas elas roubam! Aposta?”
“Que é isso, dona Jimena!?...”
“Aposta? Piranha assim eu já conheço de família, dona Neusa. Ela passa a vida inteira tentando saciar os prazeres, nasce com um diabinho em vez do juízo. Por que que a senhora acha que ela vai toda semana no ginecologista? Os cornos malditos da cidade inteira já conheceram essa mulher, dona Neusa... E depois vêm as drogas, cirurgia plástica... é, tá pensando o quê? Piranha assim precisa de dinheiro... quer ver como ela rouba, quer ver?”
E apesar dos protestos, tímidos, de dona Neusa, ouviu-se um barulho brusco de gavetas sendo abertas. Marisa, que já estava vermelha e estupefata ao ouvir os insultos e as calúnias da diretora, aquelas histórias nojentas com os dois pilotos, agora deu um chute doído com o calcanhar na privada, tamanha raiva ela sentia. Então além de distorcer fofocas do passado a Jumenta vasculhava a mesa dela na frente da copeira...
“É... dinheiro não tem, dona Neusa. Mas vê se tem cabimento deixar uma faca suja de requeijão dentro da gaveta, dona Neusa. Tem cabimento? É uma porca, mesmo ... e o que que... dona Neusa, o que que é isso aqui?!”
E então reinou um silêncio de mais de um minuto. Marisa apertava com força a cabeça entre as mãos tentando imaginar o que a Jumenta pudesse ter encontrado na gaveta, mas era um esforço inútil. Aquele transtorno acumulado impedia nela qualquer pensamento ativo, ela era inteira paixão. Ouvia um barulho de papel de seda, nenhuma palavra das duas mulheres, alguma coisa se desdobrando...
“Meu Deus, dona Jimena...”, ainda escutou a voz contida da copeira uma última vez. Depois os quatros pés de passos que subiam de volta, dessa vez apressados, ao mezanino, e uma porta lá em cima que fechava. Marisa tentava se recompor antes de sair do cubículo: iria com muito silêncio até sua mesa para ver a tal gaveta, sua inquietude era tanta que não conseguiria mais ficar trancada ali dentro. Já estava abrindo a tranca da portinha quando ouviu a porta do banheiro que se abria, e um par de passos de salto alto que batiam devagar no azulejo.
“Dagmar!”, pensou Marisa, “Dagmar...”. Eis que sua esperança finalmente revelava as belas cartas da vitória. Aquele som de saltos era como um banho de alívio na secura nervosa do coração de Marisa. Ela levantou da privada, ia sair logo da cabininha mas, por segurança, preferiu esperar que Dagmar a encontrasse. E enfiou os pés pra fora por baixo da portinha, pra que a outra lhe reconhecesse os sapatos.
Mas ouviu o som de outra cabine que se fechava. Era a segunda depois da sua, e Marisa abaixou-se para tentar ver os pés de quem entrara. Via, muito mal, as pontas e os saltos de dois sapatos azuis. Marisa instintivamente concentrou todos os seus sentidos na observação daqueles detalhes de sapato: era um sapato azul "de aeroporto", pontudo e aveludado e que, mesmo parecido com os que Dagmar usava, parecia a Marisa ser grande demais para os pés cinderelos da sua amante. Não. Aquele pé, cujo tamanho avantajado a elegância do sapato não conseguia esconder, não poderia ser de Dagmar.
E essa constatação não aquietou, em nada, o espírito de Marisa. Ela, com a percepção aguçada pelo transtorno, notou algo muito estranho: a dona dos pés grandes, apesar de sentada na privada havia já alguns minutos, não estava mijando. Ela estava esperando alguém e, é claro, Marisa sabia que era Dagmar. Dagmar, cuja sede sexual era impossível de conter, agora procurava prazeres de outras mulheres. “Como ela pode?! No nosso banheiro!?...”. E mal essa idéia se formou na mente de Marisa, a porta do banheiro se abriu e o som de outro par de saltos altos veio confirmar suas desesperadoras suspeitas. Marisa chegou a reconhecer o andar da amada enquanto esta se dirigia à cabine onde a outra esperava, a cabine se abriu e os pés recém-chegados juntaram-se aos outros, apertando-se no pouco espaço do cubículo. E Marisa ouviu um risinho abafado.
A idéia de que Dagmar estava ali, a menos de dois metros dela e com outra mulher, bombeava jorros de sangue nas veias de Marisa, fez com que quase ela tentasse botar abaixo, com unhadas, as divisórias que separavam as cabines. Mas agora não podia sair dali, não sem ter certeza — e sua fúria pedia esta certeza — de que Dagmar estava com outra. Seu amor e seu ciúme, já acostumados à dor, exigiam, mais que tudo na vida, que Marisa testemunhasse sensorialmente a cena real da traição, para que sua fúria fosse tão real quanto a cena. Abaixando-se para olhar por baixo das divisórias, Marisa foi vendo, muda de dor, as meias-calças que roçavam fazendo ruído, foi ouvindo os gemidos abafados, até ver finalmente, e isso pareceu lhe dilacerar uma vez por todas o coração, uma calcinha que deslizava para baixo das canelas e tocava, macia e solta, o chão de azulejo.
Marisa pôs a mão na boca para não gritar, mordeu os dedos com força, deixando marca. Depois cravou suas longas e pintadas unhas na carne da própria bochecha, num ato que simulava a pulsão violenta que sentia em relação à infiel. Mas, apesar dos soçobros que Marisa não conseguia se impedir de emitir, as duas não pararam o que estavam fazendo. Nem mesmo tinham percebido que ela estava ali. Ou pior: tinham e faziam de propósito, as putas. Precisava retomar o fôlego antes de levantar dali e se atirar com dentes e unhas sobre as duas, mas os gemidos destas lhe enchiam de tanto ódio que ela perdia, cada vez mais, a respiração. E, como se o nervoso da situação não fosse suficientemente angustiante, o telefone da secretaria começou a tocar. Não tinha ninguém para atender.
O movimento frenético dos pezinhos no cubículo, acompanhado de ruídos de língua, não parou nem por um segundo, parecendo ignorar o interminável toque do telefone. “Que ódio!”, pensou Marisa, que sentia que agora poderia, literalmente, morrer de raiva. Falhavam-lhe o juízo, o coração e as gostosas pernas. Quando conseguiu levantar, ouviu os passos apressados da Jumenta que descia as escadas correndo, esbarrando em alguma coisa.
“Alô?”, Marisa ouviu a voz da Jumenta. Que cumprimentou, com a voz odiosa: “Oi. ... Olha, ela já foi embora ... Foi, foi embora mais cedo hoje, disse que ia no ginecologista ... Não, não sei ... Acho que não, por quê? ... Ah, é?!!”. E mais uma vez um longo silêncio de dona Jumenta fez Marisa tremer na privada. “Tá bom, eu deixo anotado, mas ela só vai ver na segunda-feira ... Tchau, DAGMAR.”
E o nome de sua princesa intocável preencheu, de supetão, todo o espaço daquele cubículo de privada. Como sempre ocorre quando se ouve o nome da pessoa que se ama mencionado por um terceiro, e na ausência da pessoa em si, o nome dito pela Jumenta deu a Marisa um súbito alívio a seu sufoco quase insuperável. Marisa entendeu rapidamente que, das putinhas que se roçavam no outro cubículo, nenhuma era Dagmar.
O alívio de Marisa foi intenso, mas durou muito pouco. Seguindo a alegria de descobrir que Dagmar era inocente, e que mesmo tinha tentado se comunicar com ela, veio a idéia, agora prática, de que Dagmar tinha ligado e não tinha conseguido falar com ela. Marisa acabara de perder uma chance — e que preciosa! — de travar contato com o único ser que poderia salvá-la da tristeza suicidante que seria, sem amor, o longo fim-de-semana que mal estava começando.
Com todas as suas determinações pensou: “Eu preciso falar com ela, eu preciso!”, a necessidade desse pensamento lhe atravessava a alma inteira. Abriu a porta sem discrição nenhuma, fazendo barulho, sem nenhuma preocupação com as garotas que se roçavam na privada, nem nenhum medo de a Jumenta ouvir. E disparou secretaria adentro, correndo para sua mesa.
Ali tinha um post-it roxo, com a letra da Jumenta (propositalmente garranchuda, por má-vontade e por ruindade). Dizia:
Olha, Marisa. Dagmar ligou. Queria falar com você. Falou que vai viajar hoje, pediu desculpa de não se despedir. Desejou natal e ano novo.
assinado: Jimena.
Outra coisa, Marisa. Vou ter uma conversa séria com você. Muito séria.
A leitura — tão ávida — do bilhete afogou o coração de Marisa, como se este pressentisse agora o início do mais insuportável dos sofrimentos futuros, e batesse mais forte em desespero antes de aceitar o que aquele post-it sinistro anunciava: não só uma triste ausência da mulher que ela amava, mas principalmente um penoso adiamento do dia feliz em que, finalmente, seriam desmentidas as dúvidas de Marisa sobre o amor necessário de Dagmar. Ela ia viajar!!! A moça sentiu tremerem as pernas, apoiou-se na mesa com uma das mãos, a outra lhe segurando o rosto, onde uma expressão de desolação acabara de desabar como desaba uma tempestade de lágrimas, de lágrimas de amor, amor imortal.
Por um longo minuto ela, imóvel, deixou assentar em si todo o peso (pesava tanto quanto a sua vida inteira) daquele desespero anunciado. Depois fez um movimento enérgico na alma, apanhou a bolsa e correu em direção à saída do prédio. Aquela era a única mulher de sua vida, e Marisa precisava amá-la, de encontrá-la hoje dependia a sua vida. Desceu as escadas com pressa, quase com desespero, e abriu caminho às cotoveladas no tumulto de transeuntes da rua Teodoro Sampaio, o rosto inteiro sujo de lágrimas e pedacinhos de maquiagem. Apertava contra o peito o pacote que, no meio do seu desespero, tinha encontrado na sua gaveta. Mas agora era tarde demais para ver o que era, ela tinha que correr, correr, encontrar aquele anjo necessário que na Terra se chamava Dagmar.
Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra
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“Dagmar, Dagmar!”, pensava pela janela o olhar desesperado de Marisa, esquadrinhando a calçada em frente à Escola de Aeromoças numa busca nervosa pela figura da mulher amada. Já eram seis horas da tarde, Marisa começava a sentir falta de ar com a idéia de que Dagmar não viria. Elas não se veriam por três dias, e essa idéia era como um abismo de lágrimas que se abria, aos pés de Marisa, entre o agora e o resto de sua vida.
E se Dagmar viesse depois das seis e quinze seria talvez pior ainda: Marisa havia dito à Jumenta (nome que professoras e alunas davam por trás das costas à asquerosa dona Jimena, diretora da escola) que sairia às seis e quinze para ir ao ginecologista, não poderia estar ali quando a velha descesse do escritório, seria obrigada a ir embora sem ter a conversa, que tanto precisava ter, com sua amante — a conversa onde se desmentiriam as tristes suspeitas de Marisa sobre a fidelidade e as intenções de Dagmar. Suspeitas, acrescidas cotidianamente de detalhes cada vez mais dolorosos, de que Dagmar a estava traindo e estava muito prestes a abandoná-la. Daquela conversa todas as suas alegrias futuras dependeriam. Marisa tinha as garras, tão fortes, de sua esperança presas à idéia de que hoje, sexta-feira, as duas acabassem dormindo juntas, e um renascimento explícito do amor fizesse com que Dagmar lhe jurasse fidelidade eterna.
Nunca tinham dormido juntas. Dagmar, nos dias em que vinha trabalhar na escola (ela ficava atendendo o telefone no turno noturno), saía muito tarde e tinha medo de ir de ônibus a Osasco, que era onde Marisa morava. Apesar das súplicas desta última para que dormissem juntas — coisa que Marisa desejava com toda a sua pulsão de amor — Dagmar insistia em que as duas se encontrassem sempre de dia, e escondidas no banheiro das secretárias. Ali as duas se envolviam em deliciosas carícias, mas nunca tinham trocado as juras de amor que para Marisa eram tão necessárias. Nos breves momentos de prazer que experimentavam no banheiro, a ausência das juras românticas ocupava o espírito de Marisa de tal forma que ela cada vez menos e menos se entregava aos deleites da carne e ao exercício do prazer. E essa recusa, involuntária, fazia com que a cada dia Dagmar perdesse, irrecuperavelmente, o desejo que sentia pela amante. Sobre esse desejo — que apenas um mês atrás tinha sido deliciosamente indomável — agora pesava a triste sombra do hábito e da indiferença. Marisa sabia que iria perdê-la. No entanto, uma esperança selvagem, desvairada e autônoma prometia à apaixonada que hoje, finalmente e como coroa de todos os seus sofrimentos, Dagmar completamente nua lhe diria “Marisa, é só você a mulher que eu amo.” Acreditava tanto nisso que quase chegava a ver Dagmar em sua caminha quente em Osasco.
Olhou mais uma vez pela janela. Parecia-lhe terrível a idéia de ir embora, mas também torturante engolir justamente agora os insultos cruéis da odiosa dona Jimena, que apareceria a qualquer momento e perguntaria, com uma ironia superficial e burra: "Você não ia examinar aquele seu probleminha venéreo, querida?!". Por isso arrumou sua mesa de trabalho, de modo a parecer que já tivesse ido, e correu para dentro do banheiro que já tantas vezes fora o ninho dos mais insuspeitos prazeres. Marisa sabia que Dagmar procurá-la-ia no seu tão sagrado banheiro quando chegasse. Ou pelo menos Marisa ouviria Dagmar chegando. E ela tinha que chegar! Afinal, daqui a pouco a secretária que ficava na recepção iria embora, os clientes iam telefonar à noite e Dagmar tinha que estar lá pra atender. Tinha que!
Marisa acomodou-se na última cabine de privada e, sem poder fumar, arrancava grandes pedaços das unhas com os dentes. Cada minuto de espera era mais um dedo que apertava a sua goela. “Que ódio!”, já pensava, ao prever que a qualquer momento a dona Jumenta desceria do seu escritório e passaria o resto da noite naquela secretaria, falando de supermercado, de absorvente, de fofocas que ela leu na revista Época — assuntos idiotas que pareceriam uma irritante afronta ao transtorno amoroso de Marisa. E Marisa foi surpreendida, em seu ódio antecipado, pelo barulho da porta de cima abrindo.
Ouviu passos de quatro pés: era a Jumenta que descia. Acompanhada pela dona Neusa, a copeira, com quem falava bem alto.
“... me cobrou vinte e cinco reais, dona Neusa. E depilou até o meu ânus, sem eu pedir. Uma maravilha.”
“Ah, é, dona Jimena?”, respondia a sonsa da copeira.
“Agora quero ver esses piolinhos me pegarem de novo, dona Neusa. Quero ver. Eu tive que aplicar Kwell na minha parte íntima, a senhora acredita?”
“Ah, é?...”
Marisa aquela hora tinha ganas de esmurrar a diretora para fazê-la calar a boca. Era como se as besteiras que dizia aquela voz odiosa enchessem de uma areinha fina os olhos da alma de Marisa, que, agustiados, choravam. Marisa olhava, por baixo da portinha da cabine, para um lugar do chão onde esperava ver a sombra da porta do banheiro que, ela desejava com o resto de sua fraca esperança, em breve se abriria trazendo Dagmar. Mas enquanto isso Jimena continuava:
“... essa aí tá ridícula de achar que vai casar com o gringo, dona Neusa. Olha bem: que gringo é que ia querer uma menina inútil que nem ela, uma menina de espinha torta que nem consegue carregar bandeja, uma menina que foi reprovada em ‘Postura e Etiqueta I’, dona Neusa! ‘Postura e Etiqueta I’, tenha dó... a Maria Clara vai ficar pra titia mais titia que a própria Marisa.”
“Coitada da dona Marisa, essa nem nunca namorado teve... tão feinha...”
“É... Mas essa não tem namorado porque é uma grande piranha. Os outros é que fingem que não vêem. Eu sou macaca velha e vejo muito bem: lembra aqueles dois pilotos que vieram aqui procurando uma moça que eles não sabiam o nome, ficaram olhando as alunas, pediram pra entrar na secretaria? Pois é, a senhora fique sabendo que é da Marisa que eles estavam atrás. Me contaram que ela namorava os dois ao mesmo tempo ... ao mesmo tempo MESMO, dona Neusa! Quem me contou viu muito bem, no banheiro masculino da tripulação do aeroporto, em pleno dia de semana, a piranha e o par de cornos, ela espremida no meio. Isso na época que ela estava na Transbrasil. Foi por isso que ela foi demitida. Disseram que os dois tarados sem ela não vivem, que querem casar com ela e tudo ... Na Europa pode, dona Neusa ... É..., a senhora acha que o mundo tá aonde? Essa gente quando chegar no inferno não vai ter lugar pra eles. Aí é que eu quero ver...”
“Coitada dela, dona Jimena...”
“Coitada o meu caralho. Ela finge de sonsa! Mas eu já falei pra mim mesma: no ano que vem essa piranha não trabalha mais aqui não, exatamente no mês que acabar o curso eu boto ela bem no olhinho da rua, sem choro nem nada. Quanto a senhora quer apostar que ela rouba dinheiro da secretaria? Todas elas roubam! Aposta?”
“Que é isso, dona Jimena!?...”
“Aposta? Piranha assim eu já conheço de família, dona Neusa. Ela passa a vida inteira tentando saciar os prazeres, nasce com um diabinho em vez do juízo. Por que que a senhora acha que ela vai toda semana no ginecologista? Os cornos malditos da cidade inteira já conheceram essa mulher, dona Neusa... E depois vêm as drogas, cirurgia plástica... é, tá pensando o quê? Piranha assim precisa de dinheiro... quer ver como ela rouba, quer ver?”
E apesar dos protestos, tímidos, de dona Neusa, ouviu-se um barulho brusco de gavetas sendo abertas. Marisa, que já estava vermelha e estupefata ao ouvir os insultos e as calúnias da diretora, aquelas histórias nojentas com os dois pilotos, agora deu um chute doído com o calcanhar na privada, tamanha raiva ela sentia. Então além de distorcer fofocas do passado a Jumenta vasculhava a mesa dela na frente da copeira...
“É... dinheiro não tem, dona Neusa. Mas vê se tem cabimento deixar uma faca suja de requeijão dentro da gaveta, dona Neusa. Tem cabimento? É uma porca, mesmo ... e o que que... dona Neusa, o que que é isso aqui?!”
E então reinou um silêncio de mais de um minuto. Marisa apertava com força a cabeça entre as mãos tentando imaginar o que a Jumenta pudesse ter encontrado na gaveta, mas era um esforço inútil. Aquele transtorno acumulado impedia nela qualquer pensamento ativo, ela era inteira paixão. Ouvia um barulho de papel de seda, nenhuma palavra das duas mulheres, alguma coisa se desdobrando...
“Meu Deus, dona Jimena...”, ainda escutou a voz contida da copeira uma última vez. Depois os quatros pés de passos que subiam de volta, dessa vez apressados, ao mezanino, e uma porta lá em cima que fechava. Marisa tentava se recompor antes de sair do cubículo: iria com muito silêncio até sua mesa para ver a tal gaveta, sua inquietude era tanta que não conseguiria mais ficar trancada ali dentro. Já estava abrindo a tranca da portinha quando ouviu a porta do banheiro que se abria, e um par de passos de salto alto que batiam devagar no azulejo.
“Dagmar!”, pensou Marisa, “Dagmar...”. Eis que sua esperança finalmente revelava as belas cartas da vitória. Aquele som de saltos era como um banho de alívio na secura nervosa do coração de Marisa. Ela levantou da privada, ia sair logo da cabininha mas, por segurança, preferiu esperar que Dagmar a encontrasse. E enfiou os pés pra fora por baixo da portinha, pra que a outra lhe reconhecesse os sapatos.
Mas ouviu o som de outra cabine que se fechava. Era a segunda depois da sua, e Marisa abaixou-se para tentar ver os pés de quem entrara. Via, muito mal, as pontas e os saltos de dois sapatos azuis. Marisa instintivamente concentrou todos os seus sentidos na observação daqueles detalhes de sapato: era um sapato azul "de aeroporto", pontudo e aveludado e que, mesmo parecido com os que Dagmar usava, parecia a Marisa ser grande demais para os pés cinderelos da sua amante. Não. Aquele pé, cujo tamanho avantajado a elegância do sapato não conseguia esconder, não poderia ser de Dagmar.
E essa constatação não aquietou, em nada, o espírito de Marisa. Ela, com a percepção aguçada pelo transtorno, notou algo muito estranho: a dona dos pés grandes, apesar de sentada na privada havia já alguns minutos, não estava mijando. Ela estava esperando alguém e, é claro, Marisa sabia que era Dagmar. Dagmar, cuja sede sexual era impossível de conter, agora procurava prazeres de outras mulheres. “Como ela pode?! No nosso banheiro!?...”. E mal essa idéia se formou na mente de Marisa, a porta do banheiro se abriu e o som de outro par de saltos altos veio confirmar suas desesperadoras suspeitas. Marisa chegou a reconhecer o andar da amada enquanto esta se dirigia à cabine onde a outra esperava, a cabine se abriu e os pés recém-chegados juntaram-se aos outros, apertando-se no pouco espaço do cubículo. E Marisa ouviu um risinho abafado.
A idéia de que Dagmar estava ali, a menos de dois metros dela e com outra mulher, bombeava jorros de sangue nas veias de Marisa, fez com que quase ela tentasse botar abaixo, com unhadas, as divisórias que separavam as cabines. Mas agora não podia sair dali, não sem ter certeza — e sua fúria pedia esta certeza — de que Dagmar estava com outra. Seu amor e seu ciúme, já acostumados à dor, exigiam, mais que tudo na vida, que Marisa testemunhasse sensorialmente a cena real da traição, para que sua fúria fosse tão real quanto a cena. Abaixando-se para olhar por baixo das divisórias, Marisa foi vendo, muda de dor, as meias-calças que roçavam fazendo ruído, foi ouvindo os gemidos abafados, até ver finalmente, e isso pareceu lhe dilacerar uma vez por todas o coração, uma calcinha que deslizava para baixo das canelas e tocava, macia e solta, o chão de azulejo.
Marisa pôs a mão na boca para não gritar, mordeu os dedos com força, deixando marca. Depois cravou suas longas e pintadas unhas na carne da própria bochecha, num ato que simulava a pulsão violenta que sentia em relação à infiel. Mas, apesar dos soçobros que Marisa não conseguia se impedir de emitir, as duas não pararam o que estavam fazendo. Nem mesmo tinham percebido que ela estava ali. Ou pior: tinham e faziam de propósito, as putas. Precisava retomar o fôlego antes de levantar dali e se atirar com dentes e unhas sobre as duas, mas os gemidos destas lhe enchiam de tanto ódio que ela perdia, cada vez mais, a respiração. E, como se o nervoso da situação não fosse suficientemente angustiante, o telefone da secretaria começou a tocar. Não tinha ninguém para atender.
O movimento frenético dos pezinhos no cubículo, acompanhado de ruídos de língua, não parou nem por um segundo, parecendo ignorar o interminável toque do telefone. “Que ódio!”, pensou Marisa, que sentia que agora poderia, literalmente, morrer de raiva. Falhavam-lhe o juízo, o coração e as gostosas pernas. Quando conseguiu levantar, ouviu os passos apressados da Jumenta que descia as escadas correndo, esbarrando em alguma coisa.
“Alô?”, Marisa ouviu a voz da Jumenta. Que cumprimentou, com a voz odiosa: “Oi. ... Olha, ela já foi embora ... Foi, foi embora mais cedo hoje, disse que ia no ginecologista ... Não, não sei ... Acho que não, por quê? ... Ah, é?!!”. E mais uma vez um longo silêncio de dona Jumenta fez Marisa tremer na privada. “Tá bom, eu deixo anotado, mas ela só vai ver na segunda-feira ... Tchau, DAGMAR.”
E o nome de sua princesa intocável preencheu, de supetão, todo o espaço daquele cubículo de privada. Como sempre ocorre quando se ouve o nome da pessoa que se ama mencionado por um terceiro, e na ausência da pessoa em si, o nome dito pela Jumenta deu a Marisa um súbito alívio a seu sufoco quase insuperável. Marisa entendeu rapidamente que, das putinhas que se roçavam no outro cubículo, nenhuma era Dagmar.
O alívio de Marisa foi intenso, mas durou muito pouco. Seguindo a alegria de descobrir que Dagmar era inocente, e que mesmo tinha tentado se comunicar com ela, veio a idéia, agora prática, de que Dagmar tinha ligado e não tinha conseguido falar com ela. Marisa acabara de perder uma chance — e que preciosa! — de travar contato com o único ser que poderia salvá-la da tristeza suicidante que seria, sem amor, o longo fim-de-semana que mal estava começando.
Com todas as suas determinações pensou: “Eu preciso falar com ela, eu preciso!”, a necessidade desse pensamento lhe atravessava a alma inteira. Abriu a porta sem discrição nenhuma, fazendo barulho, sem nenhuma preocupação com as garotas que se roçavam na privada, nem nenhum medo de a Jumenta ouvir. E disparou secretaria adentro, correndo para sua mesa.
Ali tinha um post-it roxo, com a letra da Jumenta (propositalmente garranchuda, por má-vontade e por ruindade). Dizia:
Olha, Marisa. Dagmar ligou. Queria falar com você. Falou que vai viajar hoje, pediu desculpa de não se despedir. Desejou natal e ano novo.
assinado: Jimena.
Outra coisa, Marisa. Vou ter uma conversa séria com você. Muito séria.
A leitura — tão ávida — do bilhete afogou o coração de Marisa, como se este pressentisse agora o início do mais insuportável dos sofrimentos futuros, e batesse mais forte em desespero antes de aceitar o que aquele post-it sinistro anunciava: não só uma triste ausência da mulher que ela amava, mas principalmente um penoso adiamento do dia feliz em que, finalmente, seriam desmentidas as dúvidas de Marisa sobre o amor necessário de Dagmar. Ela ia viajar!!! A moça sentiu tremerem as pernas, apoiou-se na mesa com uma das mãos, a outra lhe segurando o rosto, onde uma expressão de desolação acabara de desabar como desaba uma tempestade de lágrimas, de lágrimas de amor, amor imortal.
Por um longo minuto ela, imóvel, deixou assentar em si todo o peso (pesava tanto quanto a sua vida inteira) daquele desespero anunciado. Depois fez um movimento enérgico na alma, apanhou a bolsa e correu em direção à saída do prédio. Aquela era a única mulher de sua vida, e Marisa precisava amá-la, de encontrá-la hoje dependia a sua vida. Desceu as escadas com pressa, quase com desespero, e abriu caminho às cotoveladas no tumulto de transeuntes da rua Teodoro Sampaio, o rosto inteiro sujo de lágrimas e pedacinhos de maquiagem. Apertava contra o peito o pacote que, no meio do seu desespero, tinha encontrado na sua gaveta. Mas agora era tarde demais para ver o que era, ela tinha que correr, correr, encontrar aquele anjo necessário que na Terra se chamava Dagmar.

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