jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Outubro 28, 2003

Capítulo Quatro - Tresloucada e Seminua

“Parecia uma tocha humana
Rolando pela ribanceira
A pobre infeliz
Teve vergonha de ser mãe solteira...”

Marisa ainda ia a meio na subida das escadas do predinho em que morava, em Osasco, e já ouvia ecoar mais uma das bizarras músicas que seus vizinhos tocavam no último volume do aparelho.

“Merda de universitários” – pensou Marisa, arfante da subida – “não têm que acordar cedo pra trabalhar e ficam fazendo barulho a noite inteira. Já que vou ficar sozinha, pelo menos podia ter um pouco de paz!”

Antes de entrar em casa pensou em esmurrar a porta dos estudantes, descarregar neles toda a frustração de sua busca inútil, de seu ardor não saciado, de sua humilhação e tristeza. Mas estava extenuada demais e o ruído das risadas do outro lado da porta a fez desistir de vez do intento.

Girou a fechadura e entrou em casa. Enquanto despia-se maquinalmente, ia atirando as coisas a esmo, conservando consigo apenas o pacote que tinha encontrado em sua gaveta: uma caixa embrulhada em celofane, e um estranho bilhete de Dagmar.

“Para que não sinta a minha falta. Nunca. D.” – dizia, simplesmente.

Marisa achara aquilo de muito mau gosto. O grande embrulho continha apenas aquela linha lacônica, seca, escrita com uma caligrafia de pressa, ou desdém. Ou os dois.

E no entanto ela apertou o papel contra o corpo, contra os seios semi-cobertos pelo sutiã, arrastou-o pela barriga até perto do ventre.

Suspirando, foi até a cozinha e, tendo servido um copo de coca light, tentou mais uma vez enxergar lógica nas ações tão estranhas de sua querida, desejada Dagmar. Por que ela era às vezes tão carinhosa, e noutras tão distante? Por que partira às pressas daquela forma? Marisa não entendia e isso só acentuava a dor que a ausência da outra lhe provocava.

Marisa não entendia as ambições, a altivez agressiva com que Dagmar tratava colegas e empregados menos graduados da companhia. De onde vinha aquele rancor contra a pobreza? Por que se importar com o que os outros faziam ou pensavam? Por que gastar quase todo o salário num aluguel e contas caras, para morar num prédio velho na Vila Mariana com a nojenta da Nathane?

Para Marisa bastava estarem juntas, bastava sentir o odor da cálida respiração de Dagmar, inalar bem junto à sua boca e vê-la olhar para os lados numa espécie de constrangimento que Marisa sempre julgara ser timidez ou excitação, mas que agora lhe parecia ser desconforto, incômodo.

Afastou aqueles pensamentos e, vestindo o robe que largara de manhã sobre o sofá da sala – robe que lhe fora dado por Dagmar –, dirigiu-se, conformada, para o quarto, para tentar esquecer do barulho, da frustração, do desejo pulsante por sexo, e dormir sozinha.

Ao entrar no quarto deu um grito e deixou cair a carta que ainda trazia nas mãos.

“Lendo o bilhete da namoradinha, sua vadia?”

- Marisa não estava sozinha.

****

O ambiente de luxo cafona e amplitude opressiva do templo causaram talvez mais mal-estar a Dagmar que a visão da pocilga de lascívia e devassidão do outro lado da rua. Ela pressentia que a perversão vulgar dos mercadores de sexo não poderia rivalizar com aquela fria e estudada dos que traficavam a fé.

Pela primeira vez em muito tempo passou-lhe pela mente a idéia de arrependimento. Não da desistência por medo, mas por escrúpulos. A visão dos fiéis em frenesi durante a “sessão de descarrego” que se realizava ali, suas mentes embotadas e sua pobreza tão concreta causaram engulhos mesmo à Dagmar, que se supunha ambiciosa e insensível ao sofrimento alheio.

Nesse momento assaltou-lhe a memória a lembrança de Marisa. Longe como estava da exigente volúpia da outra, e do nojo que aquilo lhe provocava, Dagmar constatou pela primeira vez que não conseguira manter seu coração totalmente indiferente às atenções desveladas que a outra lhe dispensava, ao carinho sincero com que correspondia à sua farsa mesquinha, à alegria infantil com que a incauta recebia qualquer migalha de carícia ou cuidado que Dagmar lhe dirigisse, sempre apenas o suficiente para mantê-la apaixonadamente submissa.

“Anda logo, garota!” – instou-a um de seus acompanhantes, empurrando-a na direção da parede oposta – “você não veio aqui para ficar assistindo esses coitados se descabelarem.”

“É verdade” – pensou Dagmar, recobrando um pouco de seu sangue-frio – “Vim aqui para conhecer aquele que me contratou. Aquele cujas ordens venho há meses seguindo cegamente – mas que na verdade está servindo aos meus planos. Eu estou no controle. Seria ridículo desistir agora.”

Avançou decidida, querendo aparentar desprezo e segurança aos rudes pilotos-capangas que a escoltavam. Mas não pôde evitar um estremecimento de medo ao alcançarem uma portinha nos fundos da igreja, e ouvir a ordem seca do piloto Davi:

“Daqui você segue sozinha.”

****

Marisa não estava sozinha. Estacou no meio do quarto, encarando estupefata uma visão que não compreendia.

“Vou repetir a pergunta: estava lendo o bilhete da sua queridinha, vadia imunda?”

Instintivamente, Marisa apertou o cordão do robe semi-aberto, que mesmo assim lhe revelava as formas sinuosas e pouco escondia de suas grossas e firmes coxas, ou de seu colo proeminente.

“Vai ter pudores agora, é, Marisa? Sua cínica!”

Finalmente recobrando-se do susto, Marisa pôde articular alguma reação àquela invasão de seu lar:

“Dona Jimena! O que a senhora está fazendo aqui?! Que direito tem... como a senhora entrou na minha casa?!”

A velha sorriu num esgar sórdido e respondeu de pronto:

“Ora, ora vocês realmente acham que eu sou idiota. Acham que eu não vasculho as mesas de vocês vadiazinhas ladras, que vão deixar lá o que quiserem, o que furtam do escritório, seus presentinhos indecentes, suas chaves de casa, e eu não vou saber ...”

Mesmo naquela situação, a violência da chefe e a humildade instintiva de Marisa levaram-na a balbuciar desculpas:

“Dona Jimena... eu nunca roubei nada... esse bilhete é do Denisson, meu primo... veja, está assinado D....”

“Calaboca Marisa. Eu sei muito bem das porcariadas que vocês fazem lá no banheiro, você e a sua amiguinha Dona-Piranha-Metida-A-Dona-Do-Mundo.”

Se a invasão de sua casa e os insultos da Jimena não enfureceram Marisa, a ofensa a Dagmar teve efeito imediato. Marisa investiu contra a velha disposta a enxotá-la para fora dali.

“Olhe aqui Dona Jimena a senhora não pode falar essas coisas! Não podia ter copiado a minha chave, invadido meu quarto! Eu sei muito bem que a senhora futuca as coisas da gente! Eu nunca roubei nada e não lhe devo explicação. Agora vá embora e me deixe em paz!”

Mas a Jimena não se abalou. Recuou apenas para o centro do quarto, junto da cama, e disse, insidiosa:

“É claro que você sabe. Você sabe porque estava lá trancada no banheiro, enquanto eu inventava coisas para a sonsa da Neusa, para ter certeza de que ela não acobertava suas indecências. Não posso confiar em ninguém. Em ninguém!”

“Saia, dona Jimena!”

“Você estava lá, enfurnada por horas, esperando a sua Dagmarzinha. Só que ela não foi, né, Marisa, ela nunca chegou. Ela te deixou lá sentadinha na privada, sozinha. Tá chorando, tá? Não chora, Marisinha, ela deixou um presentinho.”

Marisa de fato não conseguia conter as lágrimas. A espera no banheiro, a partida súbita de Dagmar, cada vez mais distante e estranha, a ida infrutífera à Vila Mariana, e agora aquela invasão, era demais pra ela.

Prostrada pela dor, murmurou com ar alheio:

“Deixou só um bilhetinho...”

Nisso os olhos da Jimena refulgiram de malícia.

“Ah não, Marisinha, não foi só isso o que ela deixou” – abriu a bolsa que carregava e retirou um objeto que brandiu na direção da atônita Marisa – “Veja que lindo brinquedinho ela te deu, vadia!”

Na mão da velha víbora Marisa viu um enorme consolo liso e escuro.

“Para que não sinta a minha falta...” – ainda lembrou Marisa. Mas não pôde deter-se muito nesse pensamento; de súbito, a Jimena lançou-se sobre ela e arremessou-a na cama – aquela cama onde ela tantas vezes sonhara em vão deitar-se com Dagmar.

A velha horrenda jogou-a na cama e, com uma força inaudita, ajoelhou-se por cima dela, mantendo-a imóvel.

“Agora, putinha” – rosnou – “Agora você vai me mostrar como usa o presente da sua amiguinha!”

Marisa gelou até a espinha de puro terror. Compreendeu que a outra estava fora de si, e que esse estado lhe conferira a força física anormal dos dementes. Impossibilitada de se erguer, sentiu aterrada a outra lhe abrir o robe, e forçá-la a empunhar o consolo, conduzindo-o na direção de seu sexo.

“Assim, vadia! Mostre pra mim!”

Marisa tentava libertar-se, mas era inútil. Chorava convulsivamente, gritava, mas sabia que o volume da música no apartamento ao lado encobriria seus gritos.

“Por favor, Dona Jimena...” – implorou entre soluços de pavor.

“JUMENTA! Por que não me chama pelo nome que usam pelas minhas costas? Pensam que eu sou idiota. Pensam que não sei o que acontece. Grita Jumenta, sua putinha, GRITA!”

Marisa sentiu as mãos de sua ensandecida atacante afastarem sua calcinha. Nesse instante o desespero irracional deu também a ela força sobre-humana e, aproveitando-se da momentânea soltura de uma das mãos, empurrou a patroa para longe e rolou de lado na cama, indo cair no carpete.

Mal se levantava, porém, e viu que Jimena investia contra ela, como que possuída.

Fora de si de tanto medo e repulsa, Marisa antecipou-se à velha e golpeou-a no rosto com o enorme aparelho sexual que ainda trazia nas mãos. Mas isso apenas atordoou a outra por um instante, e a fez retomar a carga com redobrada fúria.

Marisa então a golpeou novamente e novamente, a esmo. Cerrou os olhos e sentia o duro objeto de plástico e metal chocar-se contra carne, contra ossos, estraçalhando-se em suas mãos. Até que ouviu um baque surdo e úmido, e o ataque brutal finalmente cessou.

Abriu os olhos e viu, horrorizada, o corpo de Jimena estirado no chão do quarto. Havia várias marcas por todo ele e, do lado esquerdo do crânio, um filete púrpura estendia-se sinuosamente sobre o carpete.

“Estará morta?” – Apavorou-se Marisa.

Não teve coragem de conferir.

“Nunca acreditarão que eu me defendia. Ela é muito mais velha. A porta não foi arrombada. Ninguém ouviu nada! Ai meu Deus, o que eu faço?!”

Olhou em volta e seu desespero apenas aumentava. De súbito percebeu que só lhe restava fugir, sair dali depressa. Agarrou atabalhoadamente a bolsa, na qual enfiou alguns objetos e roupas, e correu para fora da casa, chorando em desespero.

“Sangue
Sangue
Sangue

Sangue
Sangue
Sangue”

A música dos estudantes ecoava sinistramente enquanto Marisa se lançava escada abaixo.

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