jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Outubro 09, 2003

Capítulo Três - Deus não castiga quem ama

Dagmar olhava apreensiva os rostos estranhos no saguão. Sabia que viriam buscá-la no aeroporto, mas quem seria desta vez? “Provavelmente algum filho da puta”, pensou. Prestava atenção nas entradas e nas portas de elevador, queria identificar de antemão a pessoa que viera buscá-la, o que lhe dava uma fraca ilusão de liberdade. Fingia para si mesma que teria coragem de fugir. Imóvel, com o olhar vivo varrendo o saguão de canto a canto, notou um casal de jovens que se aproximava dela, que definitivamente vinha falar com ela.

“Você tira uma foto pra gente?”

Seria alguma espécie de código? É claro que não. Dagmar olhou bem para o casal, e percebeu que não eram aquelas criaturas que ela devia encontrar: um rapaz de cabelo empastado e camisa barata e de mau gosto, a mulher (se é que se podia chamar de “mulher” uma criatura tão insossa e sem atrativos) vestindo um vestido branco de uma pobreza evidente. Essa pobreza dava aflição a Dagmar. Dagmar nascera em favela, trabalhara de empregada doméstica desde os onze anos. Fazendo o técnico de “Secretária em empreendimento educacional” graças aos serviços sexuais que sua irmã caçula prestava para o diretor do técnico, conseguira aquele emprego razoável na Escola de Aeromoças, assim “mudando de classe” e passando a ter aflição de pobre, de tudo o que se referisse a pobre. Tinha nojo de roupa de pobre, de tapete na casa de pobre, de supermercado de pobre, de nome de pobre. Ela odiava o cabelo e a voz mesma da gente pobre. Não que tivesse verdadeira raiva ou ódio, mas no inconfessável de sua alma sentia uma compaixão tão grande e maternal pelo povo fodido e malpago com quem sempre convivera, que sua psique disfarçava essa compaixão — para que ela não transbordasse em uma angústia intolerável — na forma de uma “repulsa aflitiva”. Dagmar torceu o rosto à vista daquele casal de jecas comuns que a interpelava, pedindo que ela batesse uma foto deles bem em frente ao logotipo gigante da Varig.

“Vão pro inferno!” era o que ela tinha vontade de dizer ao casal de toscos, mas pegou a câmera com má vontade e esperou eles tomarem distância. “Como é que alguém pode ser caipira a esse ponto?”, ela pensava, enquanto segurava nas mãos, quase com nojo, aquela máquina fotográfica de pobre. Além da aflição da pobreza, Dagmar secretamente invejava aquele casal de gente tão simples e que, no entanto, parecia ser muito feliz na merda em que vivia. Perguntava-se por que, dentre todas as vidas possíveis, o Destino escolhera para ela essa vida de mulher ambiciosa, ávida de felicidades intensas e completas. Dagmar nunca se contentaria com pouco, precisava dos seus sonhos de “grande vida” como outros precisam de promessas de glória ou juras de amor eterno. Enquanto olhava pelo visorzinho da máquina o sorriso sincero daqueles pobres, imaginava com ódio e com inveja a vida sem graça que eles viviam, e que preenchia seus corações.

Mas o coração de Dagmar era vasto, não seria preenchido nunca. Ocupada com esses grandes sentimentos a moça demorava a tirar a foto, esperava que os passantes terminassem de passar na frente, uma executiva gorda puxando uma malinha... até que, bem no canto do visor, uma aparição súbita e monstruosa fez Dagmar estremecer, trançando as pernas enquanto recuava para trás com pavor. Dois pilotos fortes e morenos vinham se aproximando de maneira viril em direção a ela. Aqueles dois pilotos, que seus traumas do passado identificaram de longe, eram para ela a expressão mais musculosa da violência e do medo. Como sabiam que ela chegaria hoje ao Rio? Quem tinha avisado a eles? Num impulso instintivo, Dagmar saiu correndo torpemente (devido ao seu enorme salto) na direção oposta, largando no ar a câmera dos pobres, que ao se esborrachar no chão emitiu um pobre flash.

“A câmera!”, gritou a moça pobre, perplexa e desesperada, enquanto Dagmar não menos desesperada tentava fugir dos pilotos. Mas era difícil correr, dado o tamanho do salto, e logo Dagmar sentiu no antebraço a mão enorme de Davi, o mais moreno dos pilotos, o que causava mais pânico em Dagmar.

“Me larga, seu filho da puta! Eu tenho o que fazer aqui! Quem foi que mandou vocês aqui?!”, ela protestou. Foi Antônio, o outro piloto, quem respondeu:

“Agora você está na nossa custódia, querida. E vai ficar quietinha. De agora em diante quem manda em você somos nós, pessoalmente, pra garantir que tudo vai dar certo. Você é muito burra pra fazer as coisas sozinha. Vem!”, e puxou-a pelo braço sem nenhuma delicadeza.

Dagmar sabia que era inútil tentar fugir: o Destino a jogara nas mãos daqueles canalhas, ela toleraria as mais humilhantes provações pensando na aura feliz de seu objetivo final satisfeito, chegava a ver parte do brilho que essa felicidade tão difícil — mas que, por trás daquela grossa cortina de sofrimentos, revelava-se possível e alcançável — emitia do futuro próximo. “Quando chegará, finalmente, o momento de ser feliz?” era o que o coração oprimido de Dagmar se perguntava, como se perguntam todos os corações oprimidos e expectantes. Dagmar fez calar seu coração, segurou a bolsa e deixou-se guiar por Antônio, em raiva muda e medo, interpretando aquela bruta recepção como um terrível presságio que marcava o início da “fase dois” da diabólica sacanagem em que Dagmar tivera o infortúnio de se enredar como uma pobre sardinha.

“Eu sou um indefeso peão num embate sórdido de torres e bispos, só um milagre da sorte pode me coroar rainha”, teria pensado Dagmar, se soubesse jogar xadrez e se conhecesse as palavras “sórdido” e “embate”. A “fase um”, que consistia da ridícula e cruel encenação em São Paulo, da conquista e manipulação da inocente Marisa, já enchera Dagmar de um remorso que prenunciava os tormentos do inferno. A “fase dois” só poderia ser pior, e aqueles brutos, que agora a empurravam para o banco de trás de um carrão, seriam o tipo de gente com quem ela teria de lidar dali em diante.

Durante o longo caminho do aeroporto à Lapa, os pilotos mal falaram com Dagmar (“graças a Deus, que ódio”). Falavam entre si e em francês, pra ela não entender, e riam uma risada muito cuzona. “Ouais, vraiment! Hehehehehe!”. De vez em quando, palavras e expressões soltas flutuavam sobre o entendimento romanofônico de Marisa, coisas que ela quase podia compreender, mas que não chegavam a fazer sentido totalmente... “...du fer chaud pour toutes ces saloppes... ...chaque fois il se mêle dans nos affaires, c’est vraiment emmerdant... ...là, on a des achats à faire... ...quand on lui rend la saloppe...” (Dagmar não sabia direito o que queria dizer “la saloppe”, mas sabia que era feio que estava se referindo a ela. Cuzões.) “...non, non, le grand truc c’est moi que te le vais montrer plus tard, hehehe, mon gros taureau...”, Antônio dizia pra Davi, e os dois viados riam... Dagmar imaginava que eles estariam tramando as mais cruéis das torturas, tinha vontade e medo de morrer, queria chegar logo onde quer que fosse. Numa rua movimentada da Lapa os dois estacionaram, saíram do carro e mandaram que ela saísse também. Dagmar não acreditou quando viu o lugar onde estavam: em frente a um cabaré decadente, com enormes dizeres escritos e pregados de forma caótica em verde e rosa fosforescente: “BEST GIRLS FROM RIO”, “DISCOVER THE POWER OF MULATA”, “SAVAGE BRAZILIAN HOT”. “Meu Deus!”, pensou Dagmar, “e além de tudo eles vão me levar pra um puteiro!”.

Um coração que se propõe guerreiro, que se quer preparado para a luta contra todo um futuro de reveses, muitas vezes fraqueja quando os olhos lhe apresentam a face real, desencantada, do sofrimento a ser sofrido. Assim é que a vista do puteiro nojento fez cair, do coração de Dagmar, a máscara da coragem, e encheu a pobre moça de um medo que ela simplesmente não podia enfrentar. Afinal, quando decidira participar da intriga e dispusera-se a tudo, Dagmar imaginava, como cenário de seus tormentos, pelo menos um lugar onde sofrer fosse profundo e estético, com travesseiros de seda para absorver suas lágrimas e com o silêncio marinho que convém à alma sofredora. Mas ali, de pé em frente àquele chiqueiro (e imaginou um antro de vadias gonorrentas, rebolando mole para gringos velhos e pisando um palco de cerveja e esperma) as pernas de Dagmar tremeram e ela precisou sentar-se torta no carro dos pilotos.

“Tira a bunda daí, sua piranha!”, Antônio a puxou pelo braço. “Que foi, agora?”

Dagmar sequer conseguiu responder: estava afogada em lágrimas, olhou sem disfarces nos olhos do homem que a apertava com força. Não tendo em quem confiar naquele momento tão crítico, passou por sua cabeça que o piloto pudesse ter pena dela, que expondo sua angústia ela pudesse arrancar o perdão daquele que, mesmo sendo um filho da puta, era humano que nem ela.

“Por favor, por favor”, foi só o que ela pôde murmurar. Agora, olhava confusamente, através das lágrimas, para a portinha preta que dava para dentro do puteiro. Que sujeiras e baixezas, que face indigna do humano aquele lugar podia abrigar? Quais humilhações se praticariam ali? A ingênua Dagmar, que contava nos seus planos já ter previsto o sofrimento que teria de enfrentar, subitamente se viu surpreendida por uma espécie de ameaça que ela não tinha antecipado. Pela primeira vez em sua vida, Dagmar teve medo do inferno. Novamente dirigiu a Antônio o mais sincero olhar de súplica que pode nascer em uma alma feminina. Mal sabia ela que suas lágrimas tinham, no monstro, justamente o outro efeito: diante da visão das lágrimas, Antônio sentiu completarem-se suas ganas de torturador, e dali em diante buscaria sempre extrair, daquela frágil criatura, tantas lágrimas quanto fosse possível. Apertou-a com mais força, agora para doer, e começou a arrastá-la para longe do carro. E a pobre não teve ânimo para opor resistência.

Respirou fundo e olhou a rua em volta, quase embriagada pelo choro, e de certa forma despediu-se do que há de nobre na vida. No momento em que ela entrasse naquele lugar sujo, nunca mais poderia haver uma cidade maravilhosa. A moça foi focando com os olhos a portinha preta do puteiro, foi se espantando ao perceber que a porta ia ficando mais longe... e subitamente entendeu, com um espanto carregado de alívio, que estava sendo arrastada não para dentro do puteiro mas para o outro lado da rua, onde havia um empreendimento de ordem muito diferente.

“Igreja Universal do Reino de Deus”, era a placa monstra em cima do portão de vidro. Dagmar achou que ia desmaiar, seu medo galopava no passo assombroso da confusão. Antônio ainda advertiu:

“Aqui você faz silêncio, piranha. Aqui é a casa de Deus.”

E entraram.


****


Mas Dagmar não era a única a ter medo naquela noite de sexta-feira. Marisa, no ônibus que já quase chegava em Osasco, era ameaçada pelo mais cruel dos pavores: o da solidão. Olhando pela janela, vendo as borracharias na avenida Corifeu, Marisa sabia que ia cada vez mais longe do ser que amava, e começava a aceitar a tortura que seria sua noite e — mas ela não queria acreditar... — certamente os próximos dias, as próximas semanas, a semana de Réveillon! Marisa só encontrava apoio na idéia absurda — que ela infantilmente amamentava — de que alguma força maior (acidente, chuva, morte de mãe) iria frustrar os planos de viagem de Dagmar e trazê-la de volta a São Paulo muito antes do Natal. “Eu só sei que ela foi pro Rio”, dissera por interfone a mal-humorada Nathane, que dividia um quarto com Dagmar na Vila Mariana. Quanto mais Marisa pensava na sua patética errância por São Paulo, que se desenrolara no trânsito das horas anteriores, mais ela contemplava a triste e necessária revelação que sempre chega ao verdadeiro amante jogado no mundo: a revelação de que o amor, com todas as suas forças sublimes que ao amante parecem a própria lei da vida, não chega a poder interferir nos rudes eventos do mundo e dos dias. Essa verdade luzia, para Marisa, junto com cada luz elétrica ao longo da avenida.

A triste apaixonada revia seu percurso desde que saíra com ímpeto da Escola de Aeromoças: revia o trajeto ansioso até a Vila Mariana, a chegada no prédio abençoado que abrigava sua amada e que Marisa tantas vezes tinha imaginado esforçadamente. Marisa usara o endereço que constava no cadastro da escola, copiado havia alguns dias, quando o sentimento de Marisa começara a tingir-se de apreensão e dúvida. Sabia que Dagmar odiaria ser interpelada em casa, sabia que este ato impulsivo seria um novo rebaixamento carente aos olhos da amada, mas ela — como alguém que está prestes a se afogar — não abriria mão de nada que pudesse salvá-la naquela noite tão urgente.

“Eu só sei que ela foi pro Rio”, a odiosa da Nathane nem mesmo a convidara para subir. Marisa se angustiava ao pensar que estava tão perto do quarto de sua amada — do travesseiro onde ela dormia, da gaveta de calcinhas dela — e sentir que ele pertencia ao mesmo espaço onde se situa o resto dos objetos reais. Aquele dormitório privilegiado, já tantas vezes visto em sonhos, especulações e delírios, pertencia ao prédio simples que estava bem à sua frente, era uma continuação do mundo real e cotidiano em que ela vivia. Essa constatação tocara Marisa de maneira misteriosa e intrigante, e fizera com que por quase quinze minutos ela ficasse ali em pé, completamente imóvel embaixo do interfone, Nathane já tendo desligado na cara dela. Ao fim de tal tempo de espanto — tempo em que Marisa inconscientemente reviu sua vida até aquele instante — abatera-se sobre Marisa o significado da frase de Nathane. Ela foi para o Rio. Ela foi para o Rio. Ela foi para o Rio. A frase lhe acompanhara enquanto deixava, devagar, o subdistrito da Vila Mariana; a frase lhe impregnava o cérebro um milhão de vezes, toda a tristeza de sua vida estava reunida naquela frase.

E agora, no começo do fim de noite, Marisa se afligia ao pensar que ia descer do ônibus no próximo ponto e que realmente entraria em casa sozinha, banharia sozinha seu corpo carente de outro corpo, e dormiria completamente sozinha. E, para acentuar ainda mais o cenário de tristeza urbana em que via a sua vida a bordo daquele ônibus, Marisa imaginava os inimagináveis prazeres e delícias que Dagmar estaria gozando, exatamente agora. Rodeada de champanhe, risadas felizes, palmeiras e tucanos, no exótico Rio de Janeiro.

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