Capítulo Cinco — Para sempre seremos a sua companhia aérea
“Eu morrerei em Osasco”, pensou. “Morrerei em Osasco por desespero e amor”. Olhando o abrupto barranco diante de si, malmente escondido por uns tufos altos de grama, um coração em frangalhos contemplava a morte como solução. Atrás deste coração, do outro lado da rua, o trágico edifício Irene emanava suas pulsões de luxúria e de morte. Era peso demais para um pobre coração iniciante. Olhando o abrupto barranco diante de si, Matias Ameiro decidiu morrer.
Para aquele tímido garoto, não havia nenhuma salvação. Naquele prédio funesto haviam ficado as raízes e os ramos de suas esperanças. Seu coração torcia-se de fome, não tendo colhido nenhum fruto. Flutuando na vasta tristeza e no efeito letárgico das cervejas, as cenas das horas recentes se imprimiam fortes no cinema mental de Matias: o inesperado encontro com Mariana; a esperança noturna do amor; a malícia intuída nos olhos do amigo Ronaldo; a doce boca de Mariana contra o pescoço de Ronaldo; Matias deixando o apartamento em lágrimas sem que os dois nem mesmo notassem... e agora aquele barranco, desdobrando na sua frente a pilha errada do suicídio.
Quando ouviu abrir-se o portão do prédio, por um instante esperou — e com que intensidade! — que fosse Mariana. “Ela veio me pedir desculpas”, pensava. “Ela me ama e saiu para me pedir desculpas!”. E no entanto, mesmo antes de virar para ver quem saíra do edifício Irene, o coração de Matias negou-lhe já aquela última esperança. “É claro que não é ela, é claro!” Matias quase não virou para ver, desiludido.
E quando finalmente virou, seu entendimento embriagado demorou a apreender o que via: tresloucada e seminua, uma mulher muito alta disparava prédio afora, apenas envolta em um robe vermelho que mal se decidia a esconder o volume de seus melões. “Não pode ser. Não é!”, Matias imaginou ser um delírio gerado no seio da tristeza e das cervejas.
E no entanto, não: a mulher transtornada no outro lado da rua — semi-correndo para cada lado e sem ir a parte alguma, como um indefeso inseto prestes a morrer — era uma mulher real, era muito real, e sua presença nervosa era um grito de desespero cortando a monótona noite de Osasco. Sem nem mais pensar, Matias atravessou a rua correndo ao encontro da mulher. Esta, que em seu transtorno não tinha notado a presença do garoto, à vista dele já tão perto deu um imenso grito de pavor. Depois explodiu em choro, caminhando para trás, Matias via tudo aquilo ainda sem bem acreditar, via na mão da mulher um estranho bastão escuro... “Por favor... por favor...”, era só o que ela conseguia dizer. “Por favor não me faça mal...”
E Matias Ameiro nunca lhe faria mal. Pois já a amava. Vendo aquela mulher que, além de ser muito gostosa, lhe expunha o fundo último de sua vulnerabilidade, de sua humana fraqueza, seu coração de menino decidira (e nessa resolução se salvara) empregar naquela criatura, que o destino lhe atirara como uma bóia de plástico, todo o amor sincero que ele tinha em si, e que as mundanas e perversas da burguesia universitária já haviam, uma a uma, recusado. “Amor, não precisa ter medo de mim. O que aconteceu com você?”
“Abusaram de mim...”, ela respondeu, já rompendo novamente em prantos.
E só então ele notou o instrumento ensangüentando que a moça retinha, com força, na mão. Não pôde acreditar que tanta crueldade houvesse no mundo. “Meu deus, abusaram de você nesse estado!...”, ele dizia, querendo segurá-la nos braços e para sempre defendê-la. Ele sabia que ela era o seu grande amor. Queria saber o seu nome. Queria, precisava saber o nome da mulher amada.
Diante da pergunta a moça olhou para ele perdida, e com o fundo da alma disse: “O meu nome é Dagmar”.
“Dagmar, Dagmar, Dagmar!” gritava o coração do moço, correndo menino pelos salões vazios de seu espírito. “Soem as trombetas e calem os sininhos de papel: Dagmar existe e pôs os pés na Terra. Meu coração chorou. Eu a amo, e o nome dela é Dagmar.”
Mas ela, é claro, mentia. Na pressa de inventar um nome, em seu desespero de assassina, Marisa pronunciara o nome feminino que em sua mente era sempre rei. Arrependeu-se logo após, “devia ter dito outro nome”, disse-se. Queria se livrar daquele menino bêbado o mais rápido possível, fugir para sempre de Osasco (meu Deus, mas para onde?!). Mas o tal Matias insistia, babão: “Eu posso te ajudar, meu amor, eu posso...”. E foi abrindo a porta de um puta carro estacionado em frente a um barranco, fez sinal para que ela entrasse.
“Vem, Dagmar. Vem.”
Não sem hesitar muito, e sem saber para onde ir, Marisa acabou entrando no carro de Matias, pensava pelo menos pegar uma carona até (meu Deus, até onde?!). “Se ele encostar em mim eu porro ele também!”, pensava, vendo o olhar faminto que o garoto derramava sobre as felpas de seu robe. E segurava o consolo com todas as suas forças de mulher. Ter nas mãos aquele objeto duro dava-lhe agora uma certa segurança, um desconhecido poder.
O amor de Dagmar era esse poder. O presente da amada era o cassetete com que Marisa lutaria por sua vida, sua felicidade. E assim uma inaudita força brotou no coração da amante: não mais esperaria triste a chegada messiânica de Dagmar. Agora ela lutaria, ativa, pela única coisa que lhe importava na existência. Enquanto o carro ia rápido pela fedida marginal Pinheiros, o amor enchia de esperanças todo o longo futuro daquela mulher.
Uma visão enojante interrompeu seus pensamentos: no colo do garoto bêbado, postava-se agora uma poderosa e desbragada ereção. Matias não podia controlá-la, sentia que seu pau ia explodir, nunca tinha visto na vida uma mulher tão gostosa. “Deixa eu passar para o banco de trás, eu queria me trocar”, a moça pediu. E foi feito.
Nem nos seus anseios mais gozosos Matias pôde imaginar que algum dia, e numa situação tão inesperada, uma mulher daquele nível ficaria nua em seu carro. Mas desviava com penar os olhos do retrovisor: em seu amor paladino, não queria vê-la nua antes que ela de bom grado se lhe oferecesse. Não podia vê-la: era essa a condição de seu amor.
E no entanto, como homem já pronto para espalhar pelo mundo seu sêmen, Matias não resistiu a olhar. Balançando suavemente com o andar do carro, brilhando como duas estrelas de carne macia, os seios de Marisa convocavam o garoto à orgia celestial. Apenas aqueles peitos, só eles existiam no mundo. Eles eram a expressão da beleza, do amor correspondido, do significado dos dias. Matias não via mais o céu noturno, não via a marginal Pinheiros, não via a viatura de polícia estacionada no meio da pista, contra a qual o carro do garoto projetou-se com força, rumo à colisão.
*****
Dagmar fechou a porta atrás de si. “Daqui você segue sozinha”, ainda lhe ecoava na mente a ordem do piloto, carregada de sotaque de gringo. Na via-crúcis da moça, acompanhava-a somente a solidão. E, no vasto recinto em que entrara, de fato estava sozinha.
Tratava-se de um cômodo de estranha disposição: uma cadeira e uma mesa, postadas exatamente no meio da sala, faziam ali a única mobília. Os saltos de Dagmar ecoavam secos no recinto. A pequenina mesa, por seu contraste com o vazio e como que velando o silêncio, tomava o aspecto sinistro que envolve certos objetos nos momentos cruciais da vida, os de que a vida depende. Sobre a mesa espreitava um antigo telefone branco, um telefone de discar, em assombrosa mudez. E nada de branco no entanto havia nas paredes: suas vastas larguras preenchiam-se de quadros de pano e pôsteres maldiagramados, numa profusão de imagens e letras de computador que exasperava Dagmar, que parecia ameaçá-la. Fotos de mulheres rezando, de estádios de mulheres rezando, retratos malpintados de Cristo, repetidos à exaustão, aquilo dava uma agonia...
Dagmar não agüentava ver. Dezenas de olhos de Cristo olhavam-na em off-set, de todos os lados da sala. E cada boca nazarena a acusava de um diferente pecado: “Traidora!”, “Prostituta!”, “Sapatão!”. A moça teve ganas de sair, entregar-se aos pilotos, que a matassem! Mas não suportaria ficar ali. Olhava fixamente a porta, esperando que alguém entrasse, que ele entrasse afinal. Ele, que bem ou mal (e seria mal, sabia!) conduziria Dagmar em direção ao seu destino. Não conhecia o rosto deste homem, mas sua vida inteira lhe estava nas mãos. E ele iria entrar pela porta no próximo minuto.
Mas ninguém entrou. Os vários minutos de espera penetravam cada vez mais fundo em Dagmar, a ponto de ela imaginar que ia desfalecer. Não ocupou a cadeira que, obviamente, fora disposta para ela: não agüentaria sentar-se, desmaiaria. Evitando sempre o olhar dos pôsteres, procurava fixar sua visão no retângulo da porta, na maçaneta da porta, esperando um ruído de passos que viesse do corredor...
E foi então que viu. E a visão a fez recuar, no mais assombroso dos sustos, depois aproximar-se para olhar melhor. Num dos cantos da sala, entre uma imagem de pombas e uma tábua dos mandamentos, um pôster esmaecido, amassado nas pontas, mostrava a elegante figura de uma aeromoça.
“Para sempre seremos a sua companhia aérea”, dizia o prolixo slogan, pairando em laranja sobre a cabeça da mulher. Esta, tinha o estranho aspecto de décadas passadas: a maquiagem forte, realçada nos lábios, os cabelos ondulados que caíam por sob o quepe, e curvas avantajadas em seus peitos e cintura. Sob os pés da moça o imenso logotipo: PANAM.
Dagmar nem teve muito tempo de se espantar. O telefone tocava, tocava insistentemente, e Dagmar sabia que era para ela. E ela tinha medo de atender: aquele pôster do passado anunciava-lhe uma conspiração terrível, tanto mais terrível porque misteriosa, preparada no seio de sabe-se lá quais maldades ainda desconhecidas. Dagmar correu para a porta, mas esta estava trancada.
“Me deixa sair daqui!”, gritava, entre lágrimas, mas só o telefone branco respondia os seus gritos. Sem um minuto parar. Ela sabia que teria de atender. Devagar foi chegando à mesa, levantou o fone com ímpeto, “Alô! Alô!”, queria parecer corajosa, para que ele não a intimidasse. “Alô!”
E no entanto, quase um minuto passou até que alguém falasse.
***
Quando recobrou os sentidos, Marisa encontrou-se largada no banco de trás do carro. Demorou a entender o que acontecia: tinha arranhões nos braços, um profundo corte no peito nu, levantando a cabeça viu a terrível cena do pára-brisas quebrado, os estilhaços de vidro que gotejavam sangue. Em volta do carro via outros veículos parados, algumas pessoas de pé, sem que Matias estivesse entre elas. Exasperou-se: duas figuras em uniforme cinza, quepezinho e cassetete, se aproximavam do carro.
Marisa mal teve tempo de jogar para baixo do banco o consolo do crime. Uma das gambés já abria resolutamente a porta e, vendo seu seio magoado, perguntava docemente se Marisa estava bem, abraçava-a para ajudá-la a sair do carro. Marisa se deixava ir, “vou ser presa, presa!”, não tinha forças para reagir...
“Deixa eu ajudar você, como é o seu nome?”, dizia a soldado Michele, segurando sem pudores a criminosa ferida. Tratava-se de uma mulatona extraordinária, que muito bem amparava a acidentada, envolvendo-lhe a cintura. “Como é o seu nome?”, repetiu.
E Marisa nem teve tempo de responder “Dagmar”.
“Marisa! Meu Deus, é Marisa!”, gritava, com fantasmagórico espanto, a memorável loira que patrulhava ao lado da soldado Michele. Marisa tremeu, perdeu o pé, ao ouvir aquela voz que chamava seu nome.
Pois parecia chamá-lo das mais obscuras profundezas do passado.
Para aquele tímido garoto, não havia nenhuma salvação. Naquele prédio funesto haviam ficado as raízes e os ramos de suas esperanças. Seu coração torcia-se de fome, não tendo colhido nenhum fruto. Flutuando na vasta tristeza e no efeito letárgico das cervejas, as cenas das horas recentes se imprimiam fortes no cinema mental de Matias: o inesperado encontro com Mariana; a esperança noturna do amor; a malícia intuída nos olhos do amigo Ronaldo; a doce boca de Mariana contra o pescoço de Ronaldo; Matias deixando o apartamento em lágrimas sem que os dois nem mesmo notassem... e agora aquele barranco, desdobrando na sua frente a pilha errada do suicídio.
Quando ouviu abrir-se o portão do prédio, por um instante esperou — e com que intensidade! — que fosse Mariana. “Ela veio me pedir desculpas”, pensava. “Ela me ama e saiu para me pedir desculpas!”. E no entanto, mesmo antes de virar para ver quem saíra do edifício Irene, o coração de Matias negou-lhe já aquela última esperança. “É claro que não é ela, é claro!” Matias quase não virou para ver, desiludido.
E quando finalmente virou, seu entendimento embriagado demorou a apreender o que via: tresloucada e seminua, uma mulher muito alta disparava prédio afora, apenas envolta em um robe vermelho que mal se decidia a esconder o volume de seus melões. “Não pode ser. Não é!”, Matias imaginou ser um delírio gerado no seio da tristeza e das cervejas.
E no entanto, não: a mulher transtornada no outro lado da rua — semi-correndo para cada lado e sem ir a parte alguma, como um indefeso inseto prestes a morrer — era uma mulher real, era muito real, e sua presença nervosa era um grito de desespero cortando a monótona noite de Osasco. Sem nem mais pensar, Matias atravessou a rua correndo ao encontro da mulher. Esta, que em seu transtorno não tinha notado a presença do garoto, à vista dele já tão perto deu um imenso grito de pavor. Depois explodiu em choro, caminhando para trás, Matias via tudo aquilo ainda sem bem acreditar, via na mão da mulher um estranho bastão escuro... “Por favor... por favor...”, era só o que ela conseguia dizer. “Por favor não me faça mal...”
E Matias Ameiro nunca lhe faria mal. Pois já a amava. Vendo aquela mulher que, além de ser muito gostosa, lhe expunha o fundo último de sua vulnerabilidade, de sua humana fraqueza, seu coração de menino decidira (e nessa resolução se salvara) empregar naquela criatura, que o destino lhe atirara como uma bóia de plástico, todo o amor sincero que ele tinha em si, e que as mundanas e perversas da burguesia universitária já haviam, uma a uma, recusado. “Amor, não precisa ter medo de mim. O que aconteceu com você?”
“Abusaram de mim...”, ela respondeu, já rompendo novamente em prantos.
E só então ele notou o instrumento ensangüentando que a moça retinha, com força, na mão. Não pôde acreditar que tanta crueldade houvesse no mundo. “Meu deus, abusaram de você nesse estado!...”, ele dizia, querendo segurá-la nos braços e para sempre defendê-la. Ele sabia que ela era o seu grande amor. Queria saber o seu nome. Queria, precisava saber o nome da mulher amada.
Diante da pergunta a moça olhou para ele perdida, e com o fundo da alma disse: “O meu nome é Dagmar”.
“Dagmar, Dagmar, Dagmar!” gritava o coração do moço, correndo menino pelos salões vazios de seu espírito. “Soem as trombetas e calem os sininhos de papel: Dagmar existe e pôs os pés na Terra. Meu coração chorou. Eu a amo, e o nome dela é Dagmar.”
Mas ela, é claro, mentia. Na pressa de inventar um nome, em seu desespero de assassina, Marisa pronunciara o nome feminino que em sua mente era sempre rei. Arrependeu-se logo após, “devia ter dito outro nome”, disse-se. Queria se livrar daquele menino bêbado o mais rápido possível, fugir para sempre de Osasco (meu Deus, mas para onde?!). Mas o tal Matias insistia, babão: “Eu posso te ajudar, meu amor, eu posso...”. E foi abrindo a porta de um puta carro estacionado em frente a um barranco, fez sinal para que ela entrasse.
“Vem, Dagmar. Vem.”
Não sem hesitar muito, e sem saber para onde ir, Marisa acabou entrando no carro de Matias, pensava pelo menos pegar uma carona até (meu Deus, até onde?!). “Se ele encostar em mim eu porro ele também!”, pensava, vendo o olhar faminto que o garoto derramava sobre as felpas de seu robe. E segurava o consolo com todas as suas forças de mulher. Ter nas mãos aquele objeto duro dava-lhe agora uma certa segurança, um desconhecido poder.
O amor de Dagmar era esse poder. O presente da amada era o cassetete com que Marisa lutaria por sua vida, sua felicidade. E assim uma inaudita força brotou no coração da amante: não mais esperaria triste a chegada messiânica de Dagmar. Agora ela lutaria, ativa, pela única coisa que lhe importava na existência. Enquanto o carro ia rápido pela fedida marginal Pinheiros, o amor enchia de esperanças todo o longo futuro daquela mulher.
Uma visão enojante interrompeu seus pensamentos: no colo do garoto bêbado, postava-se agora uma poderosa e desbragada ereção. Matias não podia controlá-la, sentia que seu pau ia explodir, nunca tinha visto na vida uma mulher tão gostosa. “Deixa eu passar para o banco de trás, eu queria me trocar”, a moça pediu. E foi feito.
Nem nos seus anseios mais gozosos Matias pôde imaginar que algum dia, e numa situação tão inesperada, uma mulher daquele nível ficaria nua em seu carro. Mas desviava com penar os olhos do retrovisor: em seu amor paladino, não queria vê-la nua antes que ela de bom grado se lhe oferecesse. Não podia vê-la: era essa a condição de seu amor.
E no entanto, como homem já pronto para espalhar pelo mundo seu sêmen, Matias não resistiu a olhar. Balançando suavemente com o andar do carro, brilhando como duas estrelas de carne macia, os seios de Marisa convocavam o garoto à orgia celestial. Apenas aqueles peitos, só eles existiam no mundo. Eles eram a expressão da beleza, do amor correspondido, do significado dos dias. Matias não via mais o céu noturno, não via a marginal Pinheiros, não via a viatura de polícia estacionada no meio da pista, contra a qual o carro do garoto projetou-se com força, rumo à colisão.
*****
Dagmar fechou a porta atrás de si. “Daqui você segue sozinha”, ainda lhe ecoava na mente a ordem do piloto, carregada de sotaque de gringo. Na via-crúcis da moça, acompanhava-a somente a solidão. E, no vasto recinto em que entrara, de fato estava sozinha.
Tratava-se de um cômodo de estranha disposição: uma cadeira e uma mesa, postadas exatamente no meio da sala, faziam ali a única mobília. Os saltos de Dagmar ecoavam secos no recinto. A pequenina mesa, por seu contraste com o vazio e como que velando o silêncio, tomava o aspecto sinistro que envolve certos objetos nos momentos cruciais da vida, os de que a vida depende. Sobre a mesa espreitava um antigo telefone branco, um telefone de discar, em assombrosa mudez. E nada de branco no entanto havia nas paredes: suas vastas larguras preenchiam-se de quadros de pano e pôsteres maldiagramados, numa profusão de imagens e letras de computador que exasperava Dagmar, que parecia ameaçá-la. Fotos de mulheres rezando, de estádios de mulheres rezando, retratos malpintados de Cristo, repetidos à exaustão, aquilo dava uma agonia...
Dagmar não agüentava ver. Dezenas de olhos de Cristo olhavam-na em off-set, de todos os lados da sala. E cada boca nazarena a acusava de um diferente pecado: “Traidora!”, “Prostituta!”, “Sapatão!”. A moça teve ganas de sair, entregar-se aos pilotos, que a matassem! Mas não suportaria ficar ali. Olhava fixamente a porta, esperando que alguém entrasse, que ele entrasse afinal. Ele, que bem ou mal (e seria mal, sabia!) conduziria Dagmar em direção ao seu destino. Não conhecia o rosto deste homem, mas sua vida inteira lhe estava nas mãos. E ele iria entrar pela porta no próximo minuto.
Mas ninguém entrou. Os vários minutos de espera penetravam cada vez mais fundo em Dagmar, a ponto de ela imaginar que ia desfalecer. Não ocupou a cadeira que, obviamente, fora disposta para ela: não agüentaria sentar-se, desmaiaria. Evitando sempre o olhar dos pôsteres, procurava fixar sua visão no retângulo da porta, na maçaneta da porta, esperando um ruído de passos que viesse do corredor...
E foi então que viu. E a visão a fez recuar, no mais assombroso dos sustos, depois aproximar-se para olhar melhor. Num dos cantos da sala, entre uma imagem de pombas e uma tábua dos mandamentos, um pôster esmaecido, amassado nas pontas, mostrava a elegante figura de uma aeromoça.
“Para sempre seremos a sua companhia aérea”, dizia o prolixo slogan, pairando em laranja sobre a cabeça da mulher. Esta, tinha o estranho aspecto de décadas passadas: a maquiagem forte, realçada nos lábios, os cabelos ondulados que caíam por sob o quepe, e curvas avantajadas em seus peitos e cintura. Sob os pés da moça o imenso logotipo: PANAM.
Dagmar nem teve muito tempo de se espantar. O telefone tocava, tocava insistentemente, e Dagmar sabia que era para ela. E ela tinha medo de atender: aquele pôster do passado anunciava-lhe uma conspiração terrível, tanto mais terrível porque misteriosa, preparada no seio de sabe-se lá quais maldades ainda desconhecidas. Dagmar correu para a porta, mas esta estava trancada.
“Me deixa sair daqui!”, gritava, entre lágrimas, mas só o telefone branco respondia os seus gritos. Sem um minuto parar. Ela sabia que teria de atender. Devagar foi chegando à mesa, levantou o fone com ímpeto, “Alô! Alô!”, queria parecer corajosa, para que ele não a intimidasse. “Alô!”
E no entanto, quase um minuto passou até que alguém falasse.
***
Quando recobrou os sentidos, Marisa encontrou-se largada no banco de trás do carro. Demorou a entender o que acontecia: tinha arranhões nos braços, um profundo corte no peito nu, levantando a cabeça viu a terrível cena do pára-brisas quebrado, os estilhaços de vidro que gotejavam sangue. Em volta do carro via outros veículos parados, algumas pessoas de pé, sem que Matias estivesse entre elas. Exasperou-se: duas figuras em uniforme cinza, quepezinho e cassetete, se aproximavam do carro.
Marisa mal teve tempo de jogar para baixo do banco o consolo do crime. Uma das gambés já abria resolutamente a porta e, vendo seu seio magoado, perguntava docemente se Marisa estava bem, abraçava-a para ajudá-la a sair do carro. Marisa se deixava ir, “vou ser presa, presa!”, não tinha forças para reagir...
“Deixa eu ajudar você, como é o seu nome?”, dizia a soldado Michele, segurando sem pudores a criminosa ferida. Tratava-se de uma mulatona extraordinária, que muito bem amparava a acidentada, envolvendo-lhe a cintura. “Como é o seu nome?”, repetiu.
E Marisa nem teve tempo de responder “Dagmar”.
“Marisa! Meu Deus, é Marisa!”, gritava, com fantasmagórico espanto, a memorável loira que patrulhava ao lado da soldado Michele. Marisa tremeu, perdeu o pé, ao ouvir aquela voz que chamava seu nome.
Pois parecia chamá-lo das mais obscuras profundezas do passado.

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