jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Dezembro 30, 2003

Capítulo Oito - "Ah, se eu fosse homem!"

“É a Dagmar”, disse a voz no telefone.

Nenhuma resposta teria deixado Daniella mais confusa. Então existia uma Dagmar!

Até há pouco, a policial acreditava ser aquele um nome qualquer que ocorrera a Marisa na noite anterior quando – por motivos que Daniella também ignorava – sua antiga amante mentira sobre sua identidade.

Mas agora, tendo invadido a tiros e pontapés o apartamento de Marisa - apenas para encontrá-lo vazio –, Daniella via-se na estranha situação de atender ao telefonema da misteriosa Dagmar, subitamente tornada real – e ainda assim incorpórea, impalpável do outro lado da linha.

A loura ficou completamente aturdida; precisava ganhar tempo. Mas tempo era algo de que sua interlocutora não dispunha:

“Como assim, a Marisa não está? Ela mora sozinha! Quem é você, o que está fazendo no apartamento dela?”, disparou Dagmar.

E ainda, assaltada por uma hipótese terrível:

“O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELA?!”

Daniella suava frio. Não sabia o que responder. Nada conhecia da vida de Marisa, a quem supunha morta até havia menos de vinte e quatro horas! Nada sabia que pudesse lhe ajudar a inventar uma mentira convincente.

Vocês quem? Eu não fiz nada, eu sou... sou uma amiga de Marisa.”, gaguejou, “só uma velha amiga.”

Era indispensável manter a outra falando. Talvez fosse sua única chance de penetrar a vida secreta de sua ex-amante, e destrinchar um pouco do insólito imbroglio que levara Marisa a desaparecer por anos, para ressurgir seminua e mentirosa como possível assassina, além de nora do mais sinistro mafioso paulistano.

Por isso o coração de Daniella parou de bater enquanto aguardava o efeito que seu caô teria sobre a tal Dagmar.

Amiga!...”, tornou a outra, com a voz carregada de amargo sarcasmo.

“Amiga ou não, foda-se. Quero que todos se fodam! Mas diga à Marisa que eu mandei ela não vir atrás de mim em hipótese alguma, você tá ouvindo? Eu disse EM HIPÓTESE ALGUMA! Fala pra ela! Não sei se vou conseguir consertar todas as minhas cagadas, mas não quero que ela...”

Nesse instante Daniella ouviu pelo aparelho um estrondo, seguido de uma balbúrdia de vozes e ruídos abafados. Para seu desespero, por mais que tentasse, não conseguia distinguir nada do que se passava do outro lado do telefone.

Ficou tão exasperada com a própria impotência, que tomou da arma e descarregou munição nas paredes e mobília da casa deserta – até perceber que a barulheira dos tiros a impedia definitivamente de ouvir qualquer coisa que fosse.

Controlando-se a custo, concentrou toda sua capacidade auditiva no fone, e pôde finalmente entender mais uma frase de Dagmar:

“MERDA CARALHO VIADO FILHA-DA-PUTA”

E a ligação foi cortada.

Daniella caiu sentada na cama desfeita de Marisa, em total desalento. Quem seria aquela Dagmar? De onde teria telefonado? Que significavam aquela interrupção brusca do telefonema, aquele sinistro aviso?

Mas logo uma verdade superior assomou a mente da policial: Marisa corria perigo.

Marisa era ameaçada. As palavras da outra, quem quer que fosse, e toda aquela situação de violência e mistério, tudo deixava claro que alguém perseguia sua amada.

Sua amada, sim! Pois finalmente entrevia o real motivo para Marisa tê-la abandonado anos antes, depois de tê-la comido das maneiras mais sublimes, como nenhuma outra mulher jamais foi capaz:

Fora uma tentativa de protegê-la! Marisa tinha sumido para proteger a ela, Daniella, dos perigos que, já naquela época, deveriam rondá-la!

Com lágrimas de ódio nos olhos – pois só de ódio os mulherões se permitem chorar – ergueu-se da cama num salto. Como fora tola em duvidar de Marisa!

Sumira sem deixar rastro? Fora por devoção! Acusavam-na de assassinato? Mentiras! Reaparecia pelada no carro acidentado de um playboy? Bem, certamente haveria uma explicação para aquilo também.

Haveria explicação para tudo. Encontraria Marisa, jurou. Enfrentaria todos os inimigos, à bala se preciso fosse, para salvar sua querida de todo o mal.

E então o amor das duas dissiparia todas as dúvidas, lavaria a sordidez da violência, dos anos de desconfiança injusta – “oh, perdão, perdão meu amor!”, Daniella implorava em pensamento à sua pobre amada em perigo.

Sentindo renovada sua fé no amor, partiu em sua missão de resgate como que possuída: o coração em chamas, uma idéia fixa na cabeça e uma arma fumegante nas mãos.

---

A quilômetros dali, uma arma ainda fria impedia a arcada dentária superior de Dagmar de encontrar seu par na arcada inferior – e esta produzia pequenos estalidos, tlec-tlec-tlec-tlec, quicando involuntariamente de encontro ao cano da quarenta-e-cinco.

Na outra extremidade do cano, a mão do piloto Davi não tremia, sustentando a arma firme na boca de sua aterrorizada prisioneira.

E pensar que alguns minutos antes Dagmar temera apenas ser espancada pelo infame capanga. Depois de tirar sangue da boca de Davi com um tapa, cerrara os olhos a espera de um soco – que afinal não veio.

Não veio porque – como ela pôde descobrir ao abrir novamente os olhos – os músculos possantes do outro piloto, Antônio, haviam interrompido no último instante a trajetória do punho de Davi. Este, enlouquecido, voltara-se contra seu namorado, e agora os dois rolavam na vasta e fofa cama do hotel, embolados em intrincadas montadas e raspagens de jiu-jitsu.

“Tais toi, merde! Tais toi! Laisse la petite saloppe, Davi!”, dizia Antônio, entre sério e divertido, enquanto lutava para conter o furioso Davi.

Finalmente conseguiu dominá-lo, deixando Davi deitado de costas na cama, o joelho do outro pesadamente escorado em seu amplo tórax.

“Davi”, arfou Antônio, “Você quer que o chefe fique puto de novo? Não sabe que temos ordem pra não bater na moça?”

Davi debatia-se debalde. Antônio mantinha firme a montada, e ficou olhando o outro se contorcer sob sua pressão, admirando os músculos que se retesavam e distendiam inutilmente.

“Davi, por favor, fica quietinho, vai”, insistiu, mais suavemente, o suor de seu rosto gotejando sobre o namorado subjugado.

“Se ficar bonitinho eu solto você.”, disse. Notando que um mamilo do outro despontava pela camisa rasgada na luta, não resistiu e apertou-o, provocando: “Seu louquinho!”

Mas aquela pilhéria deixou Davi ensandecido; ele conseguiu se soltar e arremeteu selvagem contra o desnorteado Antônio.

“Pára! Ai, Davi, Pára, porra, me larga! Aii!” – gritou Antônio, momentaneamente convertido em bichinha assustada.

“GRRRRR”, rosnou Davi em resposta.

Acompanhando a cena, Dagmar de súbito deu-se conta de que tinha sido esquecida. Com o coração aos pulos, pensou que era sua chance de fugir – mas logo lembrou que não havia maneira de abrir a porta do quarto de hotel que era sua prisão.

A adrenalina lhe jorrava aos borbotões enquanto as duas bibas se enroscavam belamente. Como aproveitar aquela oportunidade? Num átimo, repassou e descartou opções de contato com o exterior – a janela fosca, a telefonista cúmplice ou conivente – foi quando deparou-se com uma visão de sonho:

O celular de Davi se desprendera na briga, e jazia ignorado no tapete, a poucos passos dela!

Sem nem mesmo refletir sobre o que faria a seguir, Dagmar agarrou o objeto e lançou-se no banheiro da suíte, freneticamente tentando trancar a porta antes de ser alcançada pelos dois pilotos.

Conseguiu!

Permaneceu por um instante sentada como idiota no chão do banheiro, encarando o aparelho mudo.

Sabia que só teria tempo para um único telefonema – mas, para quem ligar?

Para a polícia? E o que dizer a eles? Que os capangas do homem para quem ela mesma trabalhava a mantinham presa? Que ela traíra, seduzira e enganara a inocente Marisa por dinheiro, sem mesmo saber que perversidades lhe eram reservadas?

Foi então que Dagmar - a egoísta, ambiciosa, Dagmar - tomou a primeira decisão altruísta de sua vida:

Sacudiu o torpor e discou resoluta o interurbano para Marisa.

...No entanto a ligação, como é sabido, foi recebida não por Marisa, mas por Daniella.

Dagmar desesperou-se. Arriscara sua última chance para proteger Marisa – e uma desconhecida atendera ao seu telefonema! Uma amiga de sua namorada!

Como fora otária! Pensou que era a malandra, a gostosa, que ia ficar rica só por seduzir a coitadinha da Marisa – e agora, ali estava ela, na merda mais completa. No fim da linha.

E a sonsa da Marisinha?

Já estava em outra! Já a tinha trocado por uma fancha brega qualquer, que logo topara ir ao seu apartamento, que aceitara sem relutar as carícias daquela morenaça tesuda e insaciável, e na certa ainda agradecera aos céus por ter tanta sorte!

Em seu delírio de medo e humilhação, Dagmar sentia que fora usada e descartada por Marisa – e amaldiçoou-se por ter sido ingênua, fraca, mulher.

Como pudera fraquejar daquele jeito? Arrepender-se, preocupar-se com Marisa? Despertar a ira de seus captores, apenas para descobrir que tinha sido trocada por outra – chifrada por sua meiga vítima?!

Um novo pensamento fez Dagmar gelar de medo: agora que Marisa lhe abandonara, ela se tornava dispensável também para seu cruel empregador.

Nesse instante a porta do banheiro foi arrombada pelo casal de jagunços. E as tardias boas intenções de Dagmar corriam sério risco de fazer coro àquelas tantas que, diz-se, contribuem para povoar as profundezas incandescentes do Inferno.

Com uma arma prestes a disparar enfiada na boca, Dagmar não via sua vida passar num segundo. O dedo rijo de Davi pressionando mais e mais o gatilho, o rosto contraído e o olhar injetado de ódio do piloto eram tudo que ela podia ver.

“Perdeu, sua puta.”, Dagmar ouviu seu executor dizer.

Um último pensamento ainda lhe perpassou a mente embotada pelo terror:

“Ah, se eu fosse homem!”

E depois não pensou mais nada.

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