jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Novembro 17, 2003

Capítulo Seis - "Champanhe, senhora?"



“Marisa, Marisa!” – repetia, embasbacada, a tesuda policial loura.

Seu uniforme justo quase rompia sob a pressão do violento arfar de seu peito, que evidenciava à sua parceira Michele o quanto Daniella estava transtornada pelo reconhecimento daquela vítima seminua de um acidente insólito – um carro que atingira a toda potência, em plena avenida e sem razão aparente, a traseira da viatura em que as duas faziam a ronda.

“Marisa, é mesmo você? Deus do céu, o que te aconteceu? Fala!” – demandou a loura, acercando-se de Marisa.

“Nada.” – interveio uma voz masculina – “O nome dela é Dagmar. E não aconteceu NADA.”

Marisa e as policiais se voltaram em busca dono da voz e depararam com o jovem Matias Ameiro. Aparte algumas leves escoriações, ele parecia até em melhor estado que Marisa.

A soldado Michele fulminou-o com toda a força de seus dois olhos negros:

“Eu sempre digo que nunca vi um airbag salvar nada que prestasse; é o puto que estava dirigindo o carro! Bateu na gente e saiu correndo! Como assim, não aconteceu nada, seu merdinha?”

Mas as preocupações que aquela intromissão trouxeram à soldado Daniella eram de outra ordem:

“Como assim, o nome dela é Dagmar? Esta aqui é a Marisa! E você...”

“...Se o meu filho diz que é Dagmar, então é Dagmar.” – interrompeu uma outra voz, de um grave tonitruante.

Um homem alto e sólido postava-se, imponente, diante das três mulheres e do rapaz.

Sua ascendência sobre os demais se fez evidente desde o primeiro instante. Havia algo naquele homem de fala profunda e pausada que não admitia réplica. Sentia-se nele a autoridade que emana daquelas vontades que têm a certeza da obediência imediata.

Com um gesto, dispersou os poucos curiosos que se reuniam ali àquela hora da noite.

“Isso mesmo, ela é a Dagmar” – sabendo-se sob a proteção de uma tal potência, Matias desafiou as policiais com redobrada empáfia – “Minha noiva Dagmar. E agora que está tudo esclarecido, eu e meu pai vamos levá-la a um hospital, e então, para casa.”

“Ah, isso é que não! Como, ‘tudo esclarecido’, seu moleque...” – protestou Daniella. Porém Michele num átimo pressionou a mão sobre a boca da parceira, indicando que se calasse.

“Desculpe minha colega, senhor. Está tudo certo.” – disse e, ante a perplexa Daniella, transferiu uma ainda mais desnorteada Marisa para os braços ávidos de Matias – que, numa impressionante demonstração de pujança juvenil, mantinha ainda sob aquelas condições a tremenda ereção que Marisa lhe provocara antes da colisão.

“Assim é melhor.” – disse o pai de Matias, sem no entanto apresentar qualquer alteração em sua dura fisionomia. – “Isso aqui é para compensá-las pelo eventual transtorno. O guincho já foi providenciado. Vocês esperem-no junto ao carro. Depois, sigam suas vidas.”

Entregou um maço de notas a Michele e afastou-se, conduzindo o filho e Marisa a uma robusta picape parada no acostamento.

Daniella, contida a custo pela enorme morena Michele, ainda gritou: “Voltem aqui! Como vocês acham que vamos explicar isso?!” – apontava para a viatura semidestruída.

O pai de Matias estacou e, sem se voltar, disse:

“Explicar a quem? Ao Medeiros?” – Daniella gelou: era o nome de seu superior. – “Diga que vocês bateram num poste quando davam ré.”, prosseguiu o homem que, voltando a andar, ainda acrescentou: “Eu sempre digo a ele que mulher guia muito mal.”

Disse isso, todavia, sem nenhum humor. O que não impediu que o filho desatasse numa risada louca, exagerada, até entrar na picape.

Logo, Daniella assistiu, impotente, o luxuoso veículo distanciar-se até sumir na noite paulistana, deixando apenas a imagem indelével do olhar de escárnio que Matias lhe destinava pelo vidro traseiro da picape, enquanto aninhava protetora e gulosamente a sua Dagmar.

Finalmente a pressão da portentosa morena se atenuou, e Daniella pôde soltar-se.

“Droga, Michele, por que você fez isso? Por que deixou eles irem?!”

“Eu estava protegendo a nossa pele, tá? Não enche. Toma, pega metade pra você.” - e estendeu o bolo de dinheiro.

Mas Daniella afastou a mão da outra com um safanão que espalhou várias cédulas graúdas pelo asfalto da avenida, à mercê do vento.

“Porra, Daniella!” – exasperou-se a soldado Michele, tentando freneticamente recuperar algumas das notas.

“Porra digo eu, Michele! Que merda é essa? Eu nunca pensei...”

A morena interrompeu a catação do dinheiro e encarou Daniella de tão perto, que sua respiração espalhava os finos cabelos dourados na testa da outra.

“Escuta aqui, sua doida. Eu sempre fui legal com você, não é? Então presta atenção. Você faz idéia de quem era aquele cara?”

A loura não respondeu. Mas Michele não estava mesmo para esperar resposta:

“Aquele filha-da-puta é o doutor Ameiro. O doutor Ameiro é dono de metade dos bingos de São Paulo. E das vendas de pó, anfetaminas e sei lá o que mais, pra toda a playboyzada mais fodida de rica de São Paulo. E de sei lá quantos políticos, milicos, delegados, de São Paulo. Deu pra entender?”

Abanou novamente as notas amarrotadas na direção da colega.

“Se não quer pegar essa merda, não pega. Agora, eu vou pegar, porque já fui bastante humilhada pra uma noite, e não posso recusar uma grana que é mais do que nosso salário de merda de vários meses. Se você acha que eu gosto disso, então foda-se. Mas eu estava tentando nos proteger, te proteger. Não tinha outro jeito.”

Daniella sentiu lágrimas se formarem em seus olhos e desviou o rosto. Ao seu redor tudo era desolação. No asfalto marcado de pneus e coberto de vidro quebrado, algumas centenas de reais redemoinhavam tristemente.

Vendo que ela chorava, Michele abraçou-a protetoramente.

“Não fica assim, menina. Aqueles bastardos não merecem. Nem aquela vadiazinha Dagmar. Não sei o que você tinha com ela, mas esquece. Esquece todos eles.”, consolava, alternando palavras doces com suaves beijos nos cabelos e na testa da loura. “Foi horrível, mas já acabou, já acabou...”

Daniella deixou-se ficar entre os seios volumosos da colega, e chorou um choro rígido, sem soluços, as lágrimas escorrendo diretas de seus enormes olhos azul-escuros.

Fixava o olhar embaçado numa mancha no uniforme de Michele, bem próxima ao seu rosto.

Uma mancha de sangue.

Sangue de Marisa.

De MARISA!

“Não acabou. Ah, mas não acabou mesmo.” – jurou.

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“Alô? Alô!” – repetia Dagmar ao telefone, que devolvia apenas a sua voz trêmula.

“Nervosa, senhorita?” – disse enfim, uma voz possante.

“N-Não.”, gaguejou Dagmar, embora sentisse que era inútil qualquer tentativa de encobrir seu pavor. “Quem está falando?”

“Por que não se sentou, senhorita? Sente-se.”

“Mas eu...”

“Sente-se.”

Dagmar obedeceu.

“Agora, abra a gaveta da mesinha.”

Mal Dagmar o fizera, a voz continuou: “Isso, muito bem.”

Dagmar perscrutou a sala em busca de câmeras.

“Você está me vendo?”

“Silêncio, senhorita. Preste atenção: nesse envelope que a senhorita tem em mãos, está o pagamento acertado pelos seus serviços. Peço que me desculpe pela recepção um tanto brusca, mas nem sempre temos os empregados que desejamos, não é mesmo?”

Dagmar nada disse. Apertou contra si o pacote; era volumoso. Mais relaxada, atentou à voz que vinha do telefone branco. Era uma voz muito estranha, incomum. Teve a impressão de que poderia ser até mesmo uma voz adulterada eletronicamente, como naqueles depoimentos de testemunhas anônimas na televisão.

“Agora, senhorita”, prosseguiu a voz, “Peço que tenha a gentileza de deixar esta sala, e entregar-se novamente aos cuidados de sua escolta. Eles a conduzirão ao hotel especialmente reservado para a sua estada no Rio de Janeiro. A senhorita aguardará lá suas próximas instruções.”

Hotel! O alívio de Dagmar crescia ainda mais. Como fora boba de ter medo. Então não estava tudo saindo como ela desejava? Apertou mais o pacotão de dinheiro contra si, e sentiu uma dormência quase sexual subir-lhe pelas coxas.

Olhou de novo em volta e os pôsteres desbotados lhe pareceram ridículos. Reconheceu, além do velho reclame da companhia aérea, alguns outros cartazes de natureza diversa dos religiosos que imperavam no ambiente. Súbito, suas paranóias conspiratórias lhe pareceram pueris, ridículas.

“Está certo”, respondeu, quase com alegria. E resolveu dirimir de uma vez suas dúvidas quanto às intenções de seu misterioso contratante: “Mas me diga, por que Marisa? Por que me paga para seduzi-la, fazê-la se apaixonar desesperadamente por mim? Quero dizer, ela não é ninguém, e...”

“...A senhorita receberá mais detalhes quando for oportuno. Trabalhou bem - mas suas incumbências ainda não terminaram.” – cortou a voz no aparelho.

“Mas...”, ainda disse Dagmar, inutilmente; a voz inumana se fora. Do outro lado vinha apenas o som marcado do isolamento.

Ainda hesitou por um instante. Depois, sacudindo seus últimos receios, levantou-se de uma vez e seguiu para a mesma portinha por onde entrara ainda há pouco cheia de medo e receio – e que agora cruzou com um olhar mais altivo do que nunca.

O olhar vencedor de quem leva um pacote repleto de dólares.

Lá fora os pilotos a aguardavam. Não pareciam mais tão assustadores assim. Não passavam de lacaios.

“Podemos ir.”, disse-lhes, como imaginou que diria a seu motorista. A seu jardineiro. Às suas criadas...

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Marisa despertou como se regressasse da morte, tão profunda era a inconsciência que se abatera sobre ela, após os terríveis e múltiplos eventos do dia anterior.

No entanto ela não se lembrou deles de imediato. De início, permaneceu deitada, semi-adormecida, roçando prazerosamente os lençóis macios, o travesseiro fofo, espalhando-se por uma cama vasta e confortável... Até percebê-la mais vasta e confortável que a sua própria. Ainda sem abrir os olhos, tateou a sua volta, tentando reconhecer o ambiente.

Até que tateou a si própria. Sentiu-se nua, exceto por um short estranho – uma cueca?! – e apalpou por fim sobre o seio direito um grande curativo. Nesse instante tudo voltou à sua mente de uma só vez. E ela preferiu que estivesse de fato morta.

Sentou-se na cama e arregalou os olhos. Viu-se num grande quarto decorado com ostensiva riqueza – mas não pôde se deter muito em avaliar o mobiliário à sua volta: sentado em uma poltrona ao seu lado viu um rapaz jovem, que a olhava com mal-disfarçada malícia. Decerto estivera a observá-la já havia bastante tempo.

“Acordou, meu anjinho? Que bom! estava começando a ficar preocupado. Mas fique tranqüila; o corte foi feio, mas os médicos cuidaram direitinho de você. Nós cuidamos. Eu e meu papai.”

Furiosa e ainda atordoada, Marisa disparou: “Onde estou? Você... Você me fez entrar no seu carro! Você nos jogou em cima de uma viatura, seu louco!”

“Alto lá, menina. Você entrou no meu carro porque quis. Eu te acolhi, quando você saía desarvorada de um prédio, seminua e ensangüentada, carregando um consolo gigante nas mãos, e fugindo sabe-se lá de quê!”

Enquanto falava, Matias não desfitava do colo generoso de Marisa, de sua barriga lisa, seus lábios espessos e convidativos...

Marisa teve a súbita percepção de que estava totalmente exposta a esse olhar infame e voluptuoso. Puxando as muitas cobertas sobre si, gritou:

“Saia daqui! Saia já daqui e me deixe em paz!”

Irritado, Mathias despertou de seu transe erótico.

“Quanta ingratidão!”, disse. Mas levantou e encaminhou-se para a porta.

Girou a chave no ferrolho e encarou Marisa.

“Eu te recolhi, te salvei, te amei, e é assim que você retribui?!”

“Saia!” - ganiu Marisa, à beira da histeria.

“Mas eu não saio mesmo.” – Tornou o garoto.

Aproximou-se da cama.

“Não saio mesmo, MARISA!”

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Dagmar despertou em uma cama de dossel, obscenamente grande e macia. Espreguiçou manhosamente seu corpo rijo e esbelto, e deixou-se ficar na cama por mais alguns instantes.

Quando achou que não tinha mais o que contemplar de sua suíte de sonho, assim deitada, ergueu-se e deslizou lânguida até o imenso banheiro, onde mirou-se no espelho por longos minutos.

Fazia poses vulgares para o espelho de parede inteira, iluminado ao redor como num camarim hollywodiano.

“Você me quer assim, Marisinha? E assim? Ou prefere assim?”, ria-se.

“Ai, Marisinha, você tá louca de tesão, né? Ah mas hoje não... Quem sabe amanhã?... Quem sabe depois...”

Parou, com as mãos na cintura, avaliando minuciosamente a imagem que o espelho lhe devolvia.

“Sabe, Marisinha, estou tão grata pelo que você me proporcionou, que eu acho que até transaria finalmente com você! hahahahahaha”, gargalhou.

Sempre sorrindo, caminhou até o jardim-de-inverno, onde deu com a estupenda visão do mar, e o café-da-manhã já servido. Pensou nos cafés que servira aos passageiros esnobes, aos ‘primeira-classe’ do mundo; agora ela também seria primeira-classe.

Estava tão eufórica, que nem mesmo o último contratempo da noite anterior afetava sua alegria: no caminho para o luxuoso hotel, não resistira e olhara dentro do embrulho de dólares.

“Ei, mas aqui só tem metade do que combinamos!” – exclamara, meio que para si mesma.

Recebera em resposta o sarcasmo do piloto-capanga Davi: “Vá se queixar ao sindicato das putinhas traíras, Dagmarzinha.”

Antônio, o outro piloto, pareceu irritado com o gracejo imbecil do primeiro, e atalhou, ríspido: “Fica quieto, Davi. Quer levar outro esporro do chefe?”

Voltando-se para Dagmar, ajuntara: “Seus serviços ainda não estão encerrados. Receberá o resto quando fizer por merecer.”

...Mas nada disso passava pela mente de Dagmar naquele momento. Em meio ao luxo senhoril que sempre almejara, ela se sentia radiante, plena, até generosa.

“Quer saber? Vou telefonar para a Marisa, tadinha.”

Mordendo um kiwi, saltitou de volta ao quarto e pegou o telefone. Estava mudo.

Ficou intrigada, mas logo notou que era vítima da falta do hábito do luxo:

“Ah, mas que distração a minha! Aqui está: ‘para falar com a telefonista, disque zero’”

Pressionou o botão. Sem que tivesse de esperar nem meio segundo, uma voz solícita veio do outro lado da linha:

“Pois não, madame, o que deseja?”

“Assim é que eu gosto!”, pensou Dagmar. Com a boca cheia de kiwi, ordenou: “Quero uma linha para São Paulo. O número é...”

“Sinto muito, senhora”, a atendente interrompeu, sempre gentil. “Não estamos autorizados a completar ligações da suíte.”

“Como?” - irritou-se Dagmar. “Que palhaçada é essa? Eu exijo que complete a ligação agora!”

“Lamento, senhora”, tornou a voz, “Mas não é possível. A madame desejaria alguma outra coisa? O café não está a seu gosto? Eu posso estar lhe enviando nêsperas, ou tâmaras frescas, quem sabe um prosecco...?”

Dagmar esteve prestes a xingar a funcionária, mas deu-se conta de que novamente passaria ridículo: na certa, não faziam ligações interurbanas do quarto. Teria de ligar das cabines no saguão.

“Maldição! Por que eu tive de nascer pobre? Agora tenho que aprender tudo?”, praguejou.

“Oh sim, por favor, mande todas essas coisas, sim?”, solicitou à atendente, com toda a doçura que uma patroa pode demonstrar.

Terminou de comer o kiwi e, vestindo um robe-de-chambre de seda com o monograma do hotel, atravessou a sala-de-estar em direção à porta da suíte.

Estava trancada. Aliás, não abria, e não havia sinal de fechadura ou chave.

“Ah mas que coisa!”, pensou Dagmar, puxando a maçaneta brilhante em várias direções, empurrando a porta, enquanto olhava em volta à procura de instruções, ou um daqueles cartões magnéticos que lembrava de ter visto em hotéis chiques.

Nada.

Respirando fundo, decidiu submeter-se à humilhação de pedir informação àquela recepcionista irritantemente prestimosa.

Discou zero e armou seu tom açucarado-esnobe.

“Pois não, madame, o que deseja?”

“Alô querida. Oh, nada, na verdade; gostaria apenas de saber como funciona a porta da suíte, quer dizer-me, sim?”

A despeito do tom fleumático, a resposta da atendente foi como um soco no útero:

“Lamento, senhora, mas não temos autorização para deixá-la sair da suíte.”

Quando a mentira é doce, a verdade é um coice.

A realidade de sua situação abateu-se de uma só porrada sobre a ambiciosa Dagmar.

Estava presa! Era uma prisioneira, iludida e estúpida, numa jaula dourada com vista para o mar.

Pensou em gritar, em bater nas paredes, gesticular das vidraças do jardim-de-inverno – mas não se moveu.

Não fez nada disso, porque sabia, em seu íntimo, que de nada adiantaria.

O quarto seria à prova de som. Ou todo o hotel pertenceria a seu algoz. As janelas seriam foscas do lado de fora. A porta era maciça. Sem precisar conferir, ela o sabia.

Uma lágrima muda escorreu por seu rosto. Derrotada, vazia, deixou cair das mãos o aparelho de telefone, de onde ainda vinha a voz monocórdia da atendente:

“Posso estar lhe servindo em mais alguma coisa? Senhora? Champanhe, senhora?”