jamais sentirei fome novamente

folhetim lésbico, a quatro mãos e à moda antiga

Novembro 25, 2003

Capítulo Sete - Eu também quero ser mulher

“Não saio mesmo, Marisa! Marisa, Marisa, Marisa!” repetia Matias Ameiro acusadoramente. “O seu nome é Marisa!”, e aproximava-se da cama.

Marisa, que recém tinha acabado de acordar (sonhara que estava presa por assassinato e Dagmar era sua carcereira), demorou a entender a irritação do garoto. Já ia dizer “É sim, e daí?”, quando lhe veio à mente a mentira da noite anterior: dissera a ele que se chamava Dagmar. Matias provavelmente ouvira Daniella (Daniella, meu Deus! e Marisa achava que nunca mais veria Daniella...) chamá-la do verdadeiro nome, e agora a provocava com aquela informação que ele talvez nem soubesse ser verdade, jogando muito verde.

Mas o garoto sabia, e parecia saber muito mais. Nem bem ela tentou retrucar, dizendo “não... meu nome é Dagmar...”, e ele prontamente a desmentiu:

“Por que você mentiu pra mim? Você nunca mais minta pra mim!”, dizia o garoto, num tom que era de ameaça e de súplica. “Eu já estou sabendo tudo de você, Marisa, eu sei quem você é e entendo por que você mentiu. Eu entendo...”

“Entende?!”, murmurou Marisa num calafrio de espanto. “Você...”

“Eu sei quem você é! Olha só, Marisa: você não sabe quem é o meu pai. O meu pai sabe muito bem das coisas, fica sabendo de tudo antes de os outros falarem, não é à toa que ele é dono de tantos bingos...”

Marisa recuou na cama com a surpresa, agudamente angustiada, prestes a chorar. E ainda assim, irresolutamente, tentou dar uma última de joão-sem-braço:

“Fica sabendo de quê?... eu não estou entendendo...”

“Que você é prostituta, Marisa! Eu sei que você é uma prostituta, meu pai me contou isso ontem...”

Aquela acusação esdrúxula — uma mentira ofensiva e improcedente quando ela esperava que a acusassem de seu verdadeiro crime — surpreendeu e desnorteou a moça. Não sabia mais o que negar, o que afirmar. Aquela estranha mentira era areia nos seus olhos, e ela perdeu o pé. Estava confusa quando disse “Eu não sou prostituta...”, realmente parecia mentir...

“É sim, eu sei que você é! Pare de mentir pra mim!”, e irritação de Matias parecia subir. “Foi o meu pai que disse que sim, ele disse que conhece uma puta de longe, pelo cheiro! Você está querendo duvidar do meu pai? Sabe o que aconteceu com a última pessoa que duvidou do meu pai? Ele nunca mais jogou bingo na vida! Na vida! Porque não tinha mão pra marcar a cartelinha.”

“Mas eu não sou!”, protestou Marisa, e não teve remédio senão romper em lágrimas. “O seu pai está mentido! Eu trabalho na Escola de Aeromoças, em Pinheiros...”

Já não podia mais falar: chorava apenas. A idéia de que nunca mais voltaria à Escola desfilava por sua visão. Que nunca mais veria as aeromoçandas, a lanchonete, o simulador de vôo...

“Escola de Aeromoças? Tenha dó! Sinceramente, Marisa... Eu não entendo! Eu não entendo por que você não confia em mim!”

E nem a isso Marisa conseguiu responder. A angústia acumulada dos últimos dias, a espera infértil pelo amor de Dagmar, o estúpido desencontro, a violência em Osasco, tudo aquilo jorrava agora em lágrimas quentes, geradas na foz de seu âmago de mulher. Matias fervia por dentro, de compaixão e de amor: queria abraçá-la, cuidá-la, envolvê-la do carinho mais doce que uma mulher já recebeu. Queria que ela entendesse que ele a amaria para sempre, e que assim os dois se salvavam da brutalidade do mundo... Mas ela recusava o abraço. Recuava-se mais e mais contra a cabeceira da cama. Quanto mais ele se aprochegava, mais pranto derramava Marisa.

Pois ela lhe sentia repulsa: aquele moleque peludo só fazia aumentar seu sofrimento. No estado em que estava agora, uma única criatura de Deus poderia consolá-la: Dagmar, a presença imediata de Dagmar, tão desejada. Marisa nunca deixaria que tocassem nela, ainda mais um homem... “Se ele encostar em mim eu...” e lembrou-se subitamente que não tinha mais o pinto de borracha. Redesdobrou-se em choro, sua coragem esvaída.

E no entanto, Marisa não precisava temer. Matias nunca levantaria a mão para ela, nunca a tocaria sem que ela consentisse, ele a amava em sua pureza de puta e ela era o anjo de seu amor. “Se apenas ela pudesse entender, confiaria em mim...”, pensava, angustiado de não conseguir expressar suas tão sinceras intenções. E tanto angustiou-se que rompeu, também, em dolorosos prantos, vertendo sobre Marisa o seio de sua alma masculina. “Eu só queria que você confiasse em mim...”

A moça, vendo aquilo, surpreendeu-se. Até passou a chorar menos, tamanho era o inesperado de ver um homem chorando. Por menos que o confessasse a si mesma, Marisa no fundo acreditava que os homens não sabiam chorar nem amar, só sabiam passar o pinto deles em você. Mas ali na sua frente um garoto lhe parecia tão frágil, chorando cada vez mais e mostrando que também tinha alma... De modo que agora foi Marisa quem sentiu por ele um inaudito afeto, algo que nunca sentira por homem nenhum.

E era compaixão o que a moça sentia. O sentimento do humano quando vê que o humano sofre. Agora era ela que tinha impulsos de abraçá-lo, de receber suas lágrimas e amortecer seus sofrimentos. E, tendo nojo de realmente envolvê-lo, pegou levemente em suas grandes mãos. Ao que ele, espantado, parou de chorar e olhou-a nos olhos.

“Eu vou te contar tudo...” dizia Marisa, sincera, finalmente descobrindo que podia se abrir com aquele ser que agora parecia tão sensível. Tinha encontrado ali uma alma companheira, que entenderia seu amor por Dagmar e sua angústia de não poder vê-la, alguém que saberia bem como é verdadeiro o sofrer. “No primeiro dia em que eu vi Dagmar, ela tinha chegado atrasada, me disseram que era a nova secretária...”

Marisa então narrou-lhe tudo. O conhecer Dagmar, o início do seu amor, as incertezas e desilusões. Contou de seus encontrou molhados no banheiro da Escola de Aeromoças, de suas doces carícias... e o inocente Matias, enquanto ouvia tudo aquilo, intimamente se transformava.

Pois nunca ouvira falar de prazeres tão delicados e puros. Até então, imaginara o amor entre mulheres com perversão e vibradores, não poderia conceber que tais doçura e beleza — como as do romance que Marisa lhe contava — pudessem existir no mundo. E assim as palavras da moça, naquela manhã de sábado, desvelaram a Matias o real encanto da vida: o amor entre anjos celestes, o arfar conjunto de quatro seios.

Uma flor lésbica nascera no peito do menino. Ele subitamente viu vergonha, viu ódio em sua condição de homem, em seus pêlos e seu pênis, que o impediriam, para sempre, de ter a verdadeira experiência de uma mulher. Pois só o amor entre mulheres é a feminilidade pura; é só com outra mulher que uma mulher realmente se dá, entregando-se sem medo a prazeres sublimes que a natureza desconhece.

O menino não esperou que a outra terminasse o relato. Olhando-a bem nos olhos, disse profundamente:

“Eu também! Eu também quero ser mulher!”

E ele realmente queria. Ou nunca seria feliz.

xxxx

“Quero champanhe sim, por favor, muito obrigada. Feliz ano novo...”, disse a moça abundando em gentilezas, e estendendo a taça para que a outra enchesse. Daniella nunca tinha andado de avião, ainda lhe pareciam um sonho as janelinhas quadradas mostrando o desdobrar do céu. O veludo azul das poltronas, a cortesia sincera da aeromoça... era como nascer de novo, numa realidade melhor. Aquele era o primeiro dia do seu brilhante futuro: Daniella era jovem e bonita, e a década de 90 estava apenas no comecinho. Diante de seus olhos verdes insinuava-se uma era de calmas e ordenadas alegrias, de um progresso constante rumo ao infinito. Um mundo completamente novo, povoado de fornos microondas e peitos menores que os da década anterior.

“Feliz 90 pra você também!” respondeu a bela aeromoça, se desdobrando em sorriso. Sorria um sorriso aéreo, embriagante, perfeitamente em harmonia com a deliciosa higiene do avião. Daniella mandava ver no champanhe, “eu estou nas nuvens...”, pensava, com seu pequeno senso de humor. Saíra — quase fugida de casa — da asfixiante Blumenau, e agora destinava-se aos mistérios promissores de São Paulo. Enchia-lhe o coração imaginar os dias na cidade grande, as luzes da moda, os trombadinhas, a luta incessante pela vida... Nunca mais ela teria tédio. Nunca mais ela seria privada de descobrir o que é o verdadeiro viver.

Ouvindo o delicioso alto-falante anunciar o sucesso do pouso, Daniella livrou-se do cinto e de sua vida anterior. Agora, ela era uma outra mulher. Desceu no saguão do aeroporto, tudo era tão estonteante... Não tinha dinheiro nem mesmo pra pegar um táxi, mas isso não tinha a mínima importância. Estava disposta a andar, a pé e de salto, até o lugar onde morasse sua felicidade futura.

E eis que a felicidade presentemente lhe apareceu, e sem que Daniella precisasse se mexer:

“Oi!”, uma mulher lhe tocava o ombro. “Eu vi você dentro do avião...”

Daniella virou-se: era a bela aeromoça que lhe sorrira tão celestialmente. Seus cabelos amarravam-se num coque, e seus olhos eram da cor da noite de São Paulo.

“Meu nome é Marisa...”, a moça disse. “É Marisa, isa, isa....”

A frase reverberou no coração de Daniella. E reverberava ainda, até hoje. Aquele dia feliz estava longe. Existia ainda, em algum lugar: escondia-se fundo na memória, etéreo como se fosse um sonho, e no entanto vivamente presente. Quando a soldado Daniella hoje pensava naquele feliz ano novo, na primeira visão de Marisa, seu coração solitário retorcia-se de dor. Preferia não lembrar, tentava limpar de sua mente os dias felizes, para que a tristeza de hoje não lhe parecesse tão cruel. Mas ninguém pode negar, principalmente em retrospecto, o momento em que conheceu a verdadeira felicidade.

Marisa fora a primeira mulher de Daniella, a que a iniciara nos aveludados prazeres. Lhe servira morangos na boca, lhe fizera acreditar que uma mulher pode ser feliz... e agora uma visão muito rápida, um encontro fortuito e desconfortável (por que ela tinha dito que se chamava Dagmar?) revelava a Daniella que seu amor ainda estava vivo. Que aquela aeromoça — que desaparecera inexplicavelmente, depois de uma semana de intenso amor — ainda estava bela e viva, e que vivia em São Paulo. Daniella achara que ela estava morta, queria acreditar que Marisa ainda a amava e esperava por ela até o dia de hoje. Mas a patife parecia estar muito bem, andando de Mitsubishi com o namoradinho bêbado dela, que ódio! Tomara tivesse morrido na batida!

Foi por isso que, na noite depois do acidente, Daniella não conseguiu dormir. Durante toda a noite olhou as rachaduras em seu quarto, comparando a realidade mofada de seus dias com as promessas de felicidade que, dez anos atrás, a vida lhe apresentara. E toda a sua tristeza atual, a morte de seus sonhos (como odiava aquela delegacia!) parecia (sempre parecera) ser culpa de Marisa, daquela que lhe dera na boca e depois tirara.

“Isso não acabou, não acabou...” repetia, para si mesma e para o Sol que despontava por trás do edifício Copan. Jurou para si mesma que Marisa pagaria sofridamente por cada um dos dez anos em que não dera notícia. Ou então, que seria feliz ao lado dela. Vestiu rigorosamente seu uniforme, apanhou a pistola e seguiu, confiante, a caminho da delegacia.

xxxx

As ondas de Copacabana embalavam a aflição de outra mulher que, se dormira muito bem à noite, no curso de alguns minutos se transformara num bagaço. Depois de sua manhã indolente de hóspede gringa, achando uma sincera gentileza que lhe servissem toalhas limpas e kiwi, a hipocrisia educada e cruel da telefonista revelava a Dagmar a realidade de sua situação. Contemplando o calçadão alegre que seguia o mar, Dagmar via os passantes que corriam tranqüilos em seu cooper, conduzindo cachorros que podiam cheirar a bunda de quem quisessem, e esta constatação da liberdade alheia num sábado de sol fortalecia, amargurava as paredes de sua prisão. Dagmar estava presa, incomunicável, e esperava por algo que ela nem sabia o que era, que poderia ser pior do que simplesmente estar presa. E se tentassem matá-la? Ninguém ficaria sabendo, ninguém sentiria sua falta.

Nesse momento, pensou em Marisa. Por irônico que fosse, Marisa era a única pessoa que realmente se importava com ela, e Dagmar sabia muito bem disso. Se houvesse um modo de falar com ela, de lhe avisar que estava presa... e Dagmar teve um instante de esperança, pensando na telepatia que dizem existir entre os amantes.

Mas não podia haver telepatia, pois Dagmar nunca a amara. Se fosse Marisa que estivesse presa, Dagmar estaria cagando e andando com seus dólares na mão. E então tentou reconfortar-se pensando justamente nos dólares, na Estátua da Liberdade sorrindo feliz para ela, já vista do avião, pensava em Céline Dion cantando a plenos pulmões...

Assim, sofreria menos. Com o pensamento no dia em que estivesse completamente livre, no país do direito à liberdade. Fechou os olhos e, em seu colchão macio, relaxou nas antigas canções que embalavam seus sonhos.... “didn’t we almost have it all.... when love was all we had worth giving...”
E foi interrompida pela brusca porta que se abria. Entrou sem nenhum respeito o casal de pilotos, rindo e falando francês um com o outro, como se não percebessem que ela estava ali (e seminua).

“...tu as été sauvage! Je suis vraiment rôti, ce matin je n’ai pu même chier...”

E o outro ria gostoso, como se só pra dar raiva em Dagmar. Os dois andavam juntinhos, quase se agarrando, e vinham vindo devagar em direção a ela. Foi Davi que sentou-se na cama e primeiro lhe dirigiu a palavra:

“Dormiu bem, meu anjo?”

Dagmar recusou-se a responder.

“Dormiu, né? Eu sei...”, e os dois deram risada. “Eu sei que você é uma piranha e não sente culpa pelas sacanagens que faz. Nem pensa na coitadinha da Marisa lá em São Paulo, achando que você gosta dela, ela sem conseguir falar com você... Então acho que você não vai se importar de saber o que você fez com a vida dessa mulher, essa inocente que foi se apaixonar logo por uma piranha desalmada que nem você. Será que eu conto pra ela, Antônio?”

O outro nada respondeu, apenas prolongou um risinho.

Dagmar continha sua raiva para não responder ao piloto como ele merecia. Fez um esforço para parecer impassível, fingir que realmente não se importava com o que acontecesse a Marisa. E deixou o piloto continuar, aflita pelo pensamento, agora presente, de que uma grande merda tinha acontecido.

“Eu acho que eu vou contar...", Davi prosseguiu. "Pois você sabe de que eu e o Antônio ficamos sabendo, Dagmar? Sabe? Você sabe o que a Marisa fez por sua causa?...”

O filho-da-puta fazia suspense. Dagmar o desprezava profundamente, queria que ele dissesse logo, tinha ódio daquelas viadagens.

“Será que eu conto, Antônio...”

“Que ódio!”, irrompeu Dagmar em voz alta, não conseguindo se conter. “Diz! Diz!”

“Uuuuu..... a putinha tá ficando iraaada....”, dizia Davi, sorrindo do prazer que lhe dava humilhar aquela mulher.

“Ninguém comeu a putinha, ela acordou nervosa....”, completou Antônio, muito tranqüilamente.

Dagmar sentia que ia explodir, que poderia matar aqueles dois.

“Acho melhor a gente dizer... sabe o que aconteceu com a Marisa?”

Davi fez uma longa pausa. O coração de Dagmar também.

“Ela se matou! A Marisa se matou, Dagmar, se matou por você. Se jogou da janela de um prédio. Tá feliz, agora? Tá sorrindo por dentro?”

E, atrevidamente, passou a mão pelos cabelos da moça. Mas Dagmar nem reagiu: estava petrificada, talvez já estivesse morta de susto. Não conseguia chorar, internamente ouvia o eco da fala do piloto, como se através de um túnel que separasse a vida da morte. O fantasma da culpa apresentava-se-lhe monstruoso, do tamanho daquele hotel.

Foi com muito custo que Dagmar conseguiu se mexer. Olhou suplicantemente os olhos do piloto, e suplicava o impossível: pedia a ele que fizesse o tempo voltar, que anulasse o pacto, o dinheiro, tudo... e que a levasse de volta ao tempo da ingênua infância, o tempo em que só queria ser feliz e andar tranqüilamente na favela da Rocinha, onde nascera.

O piloto olhou para ela, profundamente também. Por um momento pareceu que ele lhe tinha pena, que ele também não queria que aquilo tivesse acontecido...

Mas Davi não conseguiu se conter, e logo explodiu em gargalhada. Antônio quase não conseguia respirar de tanto rir.

“Tu es terrible, Davi!... hahahaha, tu vas non-stop en enfer...”

Com que alívio — e imediatamente com que ódio — Dagmar entendeu que o piloto estava mentindo, e derramou uma torrente de esfrangalhadas lágrimas. Dobrava os dedos de tensão, tinha tanta raiva! E o puto ainda continuou:

“Assustou, né? Uuufa.... já pensou? Já pensou se a Marisa se mata mesmo? Que merda que ia ser, né?...”

E então Dagmar, sem poder controlar o seu ódio, transformou-se em muitos metros de mulher. Virou na cara de Davi um clássico tabefe, um tapa tão forte que fez sair sangue.

Uma gaivota piou. O vendedor de coco na praia gritou: “Cooco!”.

O piloto, petrificado, demorou alguns segundos antes de voltar o rosto para Dagmar. E quando o fez, estava vermelho e (ela o sentia) quente. Davi tinha aprendido que, se algum dia ele apanhasse de mulher, ela não ia viver para contar pra ninguém.

xxxx

“Você sabe o que você fez com a minha vida?”, Daniella dizia dramaticamente a Marisa. “Os meus melhores anos...”

Mas dizia-o em pensamento. À força de imaginar o que diria a Marisa quando a encontrasse, Daniella quase atirou no impertinente que, tendo sido assaltado e espancado, vinha correndo e pedindo socorro em direção à viatura que ela pilotava. “Eu não estou em serviço, aprenda a se defender sozinho, seu porra!”

Daniella tinha raiva de homem que não sabia dar porrada, e não queria que a importunassem. Estava na missão mais importante de sua vida, a única que realmente tivera vontade de cumprir: o acerto de contas com a mulher que, com uma semana de felicidade conjunta, delineara o vazio do resto de seus anos. No computador da polícia descobrira o endereço, e invadia finalmente o município de Osasco, lugar onde sua malfeitora rira dela durante anos a fio. “Rua Cajueiro Neves! É aqui.”, e Daniella desceu da viatura.

Na frente do edifício Irene, duas meninas de uns seis, sete anos de idade, vestindo provocativos tops, brincavam com um balde vazio, e olharam fixamente Daniella quando esta se aproximou, mostrando pro porteiro o distintivo da polícia.

Subiu rapidamente os dois lances de escada do predinho. Não podia acreditar que, depois de todos os anos, estava finalmente na porta do lar de Marisa. Tinha vontade de entrar logo arregaçando, matando quem estivesse com ela, mas tocou a campainha uma vez, sem que houvesse resposta. E então olhou pelo olho mágico: viu a luz apagada, e nenhum ruído atravessava a porta.

“É a polícia, sua vadia!”, Daniella gritou dramaticamente antes de dar um chutão na porta, que se abriu sem resistência. E a moça assim penetrou o silêncio do apartamento, que parecia vazio. Ouviam-se, abafados pelo vidro da janela, os pulos e os gritos das meninas que brincavam inocentemente em frente ao prédio. Daniella olhou ao redor, viu as coisas de Marisa, seus pratos, não conseguia se conter de emoção. E gelou ao sentir o cheiro forte de carniça que dominava o ambiente. Um cheiro adocicado e inconfundível, conhecido íntimo de qualquer policial.

De um quarto entreaberto vinha o cheiro de morte, um quarto que era o único iluminado na casa. Daniella fremia ao pensar que Marisa estava morta. “Justamente agora, justamente hoje!”, e não conseguia acreditar na mão boba do Destino, naquele cruel arranjo das coisas que fizera Marisa morrer justamente no dia seguinte ao tão esperado reencontro. Daniella foi se aproximando devagar do quarto, fruindo na alma aquele instante de suspense, seu coração pulsando forte por baixo do uniforme enquanto ela pisava o carpete do apartamento da mulher.

Mas antes que chegasse à soleira do dormitório, Daniella foi bruscamente interrompida por algo que a tocara. Algo que se mexia junto a sua coxa esquerda.

Era o seu celular, que vibrava, e vibrava e vibrava sem parar. Era a soldado Michele, a tagarela e afetada soldado Michele. Cheia de raiva Daniella parou onde estava, e ergueu prontamente o aparelho:

“Alô, Michele, que foi?! Porra!”, queria demonstrar que estava irritada.

“Você tá em casa? Eu tentei te ligar, você saiu?”

“Que foi, Michele? Caralho, eu tô muito ocupada!”

“Vai ser grossa com o traveco do teu pai! Eu tô te ligando, querida, pra contar uma coisa que você não vai acreditar... sabe aquela sua conhecida Marisa, a que dizia que chamava Dagmar? Aquela do acidente, de ontem à noite...”

“Sei, Michele, sei! Que foi, que aconteceu com ela?”, e temia já saber o que tinha acontecido. O cheiro de pessoa morta era agora inegável. Não queria entrar no dormitório, e ao mesmo tempo queria-o irresistivelmente. “Diz o que aconteceu, diz!”

“Você acredita que ela tá sendo procurada? Pois é, meu amor... procuradíssima. Você nem acredita o que a sua amiguinha fez.”

Daniella achou que não precisava perguntar: “Procurada pelo quê?”. Mas a outra estava esperando que ela perguntasse, pra que o momento ficasse mais dramático.

Daniella perguntou rispidamente, e foi com todas as letras que Michele respondeu:

“Tentativa de assassinato.”

Daniella pulou de espanto, e correu para dentro do dormitório. As manchas de sangue no chão, o sangue no telefone... e num canto, ao lado do armário, uma imensa ratazana preta e morta.

A moça assustou-se tanto que, frenética, puxou a arma da cintura e deu uns três pipocos no corpo do bicho, que então respingou de sangue as paredes do quarto. Estava nervosa, perturbada, teria chorado se não fosse um mulherão. Michele se esgoelava do outro lado da linha:

“Daniella, meu Deus, o que foi?! Que tiros são esses?!”

Daniella se recompôs. “Não foi nada, Michele, esquece. Foram uns peidos fortes que eu soltei. O que você estava falando sobre a Marisa, conta mais, me conta!”, queria saber de tudo, não suportava mais a tensão.

“Pois você não acredita o que ela fez, a própria chefe dela, ela abriu a cabeça da velha!”

“Como assim...?”, Daniella não podia acreditar...

“Pois foi isso mesmo, Daniella. Ela porrou a coitada até cair, quase morta, a velha mal conseguiu ligar pra 911... A velha não conseguiu falar nada, tá no hospital, vegetando totalmente... o pessoal tava esperando ela abrir a boca pra acusar a sua amiguinha, mas parece que ela não tem muita chance de sobreviver, não, o coco dela tá fudido... eu sinceramente tô torcendo pra essa velha morrer logo, assim a sua querida vai...”

Mas Daniella não ouviu o resto da perversidade de Michele, pois desligou o aparelho. Diante daquela revelação, que lhe desvelava a natureza selvagem de Marisa, Daniella não conseguiu se controlar. Seu coração batia forte, mais do que nunca ela estava apaixonada por aquela mulher poderosa, selvagem, assassina! Meu Deus, que gostosa! Daniella ficou com os peitos duros ao pensar no que Marisa havia feito, e novamente a felicidade lhe pareceu possível. Agora via um sentido em todos os anos de espera: “Essa mulher vai ser minha, eu juro por Deus que vai!”

Envolta em sua emoção, mal percebeu que, ao fundo, o telefone de Marisa tocava.

Daniella encaminhou-se até ele, devagar e dramaticamente. O aparelho vermelho, sujo de sangue escuro, parecia anunciar a descoberta de um segredo. Foi com muita calma que a moça atendeu, pronta para entrar em contato com o mundo misterioso de Marisa.

“Alô! Marisa!”, dizia a voz de mulher do outro lado da linha. “Marisa, meu Deus, é você?”.

Daniella não sabia o que dizer. Quem seria aquela mulher? Como abordá-la para que não desligasse na cara dela? Decidiu ser muito educada:

“Bom dia, Marisa não está. Quem gostaria de falar com ela, por favor?”

Logo depois se arrependeu do tom. Aquela educação toda parecia coisa de telemarketing, a outra suspeitaria.

E, de fato, a moça do outro lado da linha parecia hesitar. Mas finalmente — e para o espanto de Daniella — a outra se identificou:

“É a Dagmar”.