Capítulo Dez - Anjo maldito
Dagmar não tinha como escapar.
Aliás, nem tinha como pensar.
Dizem que a vida inteira da pessoa passa por seu pensamento num rápido retrospecto, no último e ínfimo átimo de segundo antes da morte.
Pois com Dagmar ocorria o contrário: embora aquele segundo final parecesse durar horas, dias - estaria há meses com a pistola de Davi enfiada em sua boca? - ainda assim sua mente era povoada pelo mais completo vazio.
Não se recordava de ter seduzido a ingênua Marisa, de ter cozinhado aquela voluptuosa ruiva num cruel banho-maria de tesão, obedecendo às ordens que um misterioso chefe lhe ditava por telefone, do Rio de Janeiro para a São Paulo onde elas moravam.
Não se lembrava da Escola de Aeromoças, onde conhecera sua incauta vítima e devota amante. Não se lembrava de tê-la abandonado sem explicação – tudo de acordo com as ordens que recebera – e partido para o Rio, onde agora era prisioneira numa suíte de luxo com vista para o mar.
Não se lembrava de nada. Mal podia perceber sua situação desesperadora, a pistola dura em sua boca, empunhada pelo colérico piloto bicha Davi, observado por seu namorado Antônio - também piloto e capanga, mas não irado e sim, imóvel, mesmerizado pela brutalidade insana do ato que seu querido estava prestes a cometer.
Dagmar mal se apercebia do mundo que deixava, embrutecida pelo pavor.
O dedo do piloto retesou-se contra o gatilho da arma.
Ouviu-se um estampido úmido e o carpete fofo da suíte ficou coberto de sangue e fragmentos de massa cinzenta.
-----
Os estilhaços do grande globo de espelhos que a policial Daniella derrubara com um disparo certeiro sobre as aeromoçandas ainda se espalhavam pelo chão do palco, causando tanto terror quanto ferimentos entre os presentes à cerimônia de formatura. Muitas daquelas moças teriam cicatrizes e mutilações terríveis como diploma – mas Daniella sequer hesitara em causar tanto sofrimento.
Porque fora para salvar Marisa. E Daniella amava Marisa acima de toda a racionalidade, de todo o respeito pela vida de quem quer que fosse. Derrubara o globo para causar confusão e agora conduzia Marisa em uma vertiginosa fuga.
Sim, fuga – pois Marisa era acusada de tentativa de assassinato. Um crime do qual provavelmente era culpada, Daniella o sabia bem. Daniella o sabia, e era policial; mas ao invés de prender a criminosa, ajudava-a a despistar seus próprios colegas policiais. Porque a amava.
E no entanto, toda a dor e pânico que Daniella causara talvez fossem inúteis, talvez não fossem suficientes para garantir a evasão das duas: ao alcançarem a saída lateral do teatro, deram com a figura imponente da enfurecida soldado Michele.
“Parem já!” – ordenou a enorme mulata, apontando o revólver para a parceira de tantas rondas. “Paradas aí, as duas! Daniella, sempre tolerei seus impulsos, mas porra, dessa vez você foi longe demais!”
---------
Na garganta do piloto Antônio começou a formar-se um grito, que não se concretizou porque foi engolfado por uma torrente de vômito antes de sair pela boca.
A sua frente Dagmar jazia caída, a arma de Davi ainda encaixada entre os dentes. A mão do piloto ainda envolvia o punho da pistola, mas já não fazia menção de apertar o gatilho.
Isso porque aquela mão fazia agora parte de um braço inerte, inútil apêndice de um corpo atlético e sem cabeça.
Sangue e dejetos humanos inidentificáveis espalhavam-se ao redor dos dois. O rosto de Dagmar estava recoberto de matéria quente e viscosa.
Súbito, um atávico impulso de preservação sacudiu-a de alto a baixo, parecendo comunicar a seus membros entorpecidos que a morte ainda não se abatera sobre eles. Num frêmito de repulsa e horror, ela cuspiu o cano da arma e afastou com violência o cadáver ainda pulsante de seu quase executor.
Ato contínuo, o piloto sobrevivente terminou de vomitar, e conseguiu enfim liberar o urro de indescritível horror que lhe fora abortado na garganta.
“Cale-se.” – ordenou uma voz indiscutível, imperiosa, vinda da porta aberta da suíte.
Dagmar limpou a vista coberta de sangue e viu um homem baixo entrar no quarto e fechar a porta atrás de si. Em sua mão esquerda, o pequeno revólver que poupara sua vida – oferecendo ao diabo, em troca, a morte do piloto-capanga cujos restos irreconhecíveis agora emporcalhavam o carpete branco.
“Cale-se, Antônio” – tornou o homem – “Ou muito simplesmente lhe envio ao encontro do seu namorado.”
Imediatamente, mas a muito custo, os gritos de Antônio foram comutados em ligeiros soluços, apenas perceptíveis quando um espasmo mais forte sacudia seus lábios cerrados – apenas para que ele os comprimisse com redobrada veemência.
“Isso. Quieto.” – aprovou o homem, sem elevar a voz.
Dagmar não fazia idéia de quem fosse o novo e terrível personagem do pesadelo de sua vida. Estava claro que a obediência cega que aquele homem inspirava não vinha de respeito ou posição. Fosse quem fosse, a autoridade de que se investia devia-se unicamente ao terror que inspirava, ao medo. Ao medo imediato, avassalador que sua figura vulgar emanava.
Pela maneira como surgira no último segundo, pela precisão de seu tiro e pela frieza de sua intervenção, Dagmar só pôde concluir que estava diante de um demônio.
Como que lendo seus pensamentos, o homem adiantou-se em sua direção.
“Dagmar. Enfim, nosso encontro não se deu como esperado.”
Ajudou a moça a erguer-se. Ela mal podia manter-se sobre as pernas, e era-lhe quase intolerável encarar o rosto banal de seu protetor. Este levantou-a e a pôs na cama sem esforço algum, embora nada em sua constituição evidenciasse tanta força física. Limpou o rosto da moça com um lenço, e acrescentou:
“Eu sou seu contratante. Me chame de Bispo.”
Aliás, nem tinha como pensar.
Dizem que a vida inteira da pessoa passa por seu pensamento num rápido retrospecto, no último e ínfimo átimo de segundo antes da morte.
Pois com Dagmar ocorria o contrário: embora aquele segundo final parecesse durar horas, dias - estaria há meses com a pistola de Davi enfiada em sua boca? - ainda assim sua mente era povoada pelo mais completo vazio.
Não se recordava de ter seduzido a ingênua Marisa, de ter cozinhado aquela voluptuosa ruiva num cruel banho-maria de tesão, obedecendo às ordens que um misterioso chefe lhe ditava por telefone, do Rio de Janeiro para a São Paulo onde elas moravam.
Não se lembrava da Escola de Aeromoças, onde conhecera sua incauta vítima e devota amante. Não se lembrava de tê-la abandonado sem explicação – tudo de acordo com as ordens que recebera – e partido para o Rio, onde agora era prisioneira numa suíte de luxo com vista para o mar.
Não se lembrava de nada. Mal podia perceber sua situação desesperadora, a pistola dura em sua boca, empunhada pelo colérico piloto bicha Davi, observado por seu namorado Antônio - também piloto e capanga, mas não irado e sim, imóvel, mesmerizado pela brutalidade insana do ato que seu querido estava prestes a cometer.
Dagmar mal se apercebia do mundo que deixava, embrutecida pelo pavor.
O dedo do piloto retesou-se contra o gatilho da arma.
Ouviu-se um estampido úmido e o carpete fofo da suíte ficou coberto de sangue e fragmentos de massa cinzenta.
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Os estilhaços do grande globo de espelhos que a policial Daniella derrubara com um disparo certeiro sobre as aeromoçandas ainda se espalhavam pelo chão do palco, causando tanto terror quanto ferimentos entre os presentes à cerimônia de formatura. Muitas daquelas moças teriam cicatrizes e mutilações terríveis como diploma – mas Daniella sequer hesitara em causar tanto sofrimento.
Porque fora para salvar Marisa. E Daniella amava Marisa acima de toda a racionalidade, de todo o respeito pela vida de quem quer que fosse. Derrubara o globo para causar confusão e agora conduzia Marisa em uma vertiginosa fuga.
Sim, fuga – pois Marisa era acusada de tentativa de assassinato. Um crime do qual provavelmente era culpada, Daniella o sabia bem. Daniella o sabia, e era policial; mas ao invés de prender a criminosa, ajudava-a a despistar seus próprios colegas policiais. Porque a amava.
E no entanto, toda a dor e pânico que Daniella causara talvez fossem inúteis, talvez não fossem suficientes para garantir a evasão das duas: ao alcançarem a saída lateral do teatro, deram com a figura imponente da enfurecida soldado Michele.
“Parem já!” – ordenou a enorme mulata, apontando o revólver para a parceira de tantas rondas. “Paradas aí, as duas! Daniella, sempre tolerei seus impulsos, mas porra, dessa vez você foi longe demais!”
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Na garganta do piloto Antônio começou a formar-se um grito, que não se concretizou porque foi engolfado por uma torrente de vômito antes de sair pela boca.
A sua frente Dagmar jazia caída, a arma de Davi ainda encaixada entre os dentes. A mão do piloto ainda envolvia o punho da pistola, mas já não fazia menção de apertar o gatilho.
Isso porque aquela mão fazia agora parte de um braço inerte, inútil apêndice de um corpo atlético e sem cabeça.
Sangue e dejetos humanos inidentificáveis espalhavam-se ao redor dos dois. O rosto de Dagmar estava recoberto de matéria quente e viscosa.
Súbito, um atávico impulso de preservação sacudiu-a de alto a baixo, parecendo comunicar a seus membros entorpecidos que a morte ainda não se abatera sobre eles. Num frêmito de repulsa e horror, ela cuspiu o cano da arma e afastou com violência o cadáver ainda pulsante de seu quase executor.
Ato contínuo, o piloto sobrevivente terminou de vomitar, e conseguiu enfim liberar o urro de indescritível horror que lhe fora abortado na garganta.
“Cale-se.” – ordenou uma voz indiscutível, imperiosa, vinda da porta aberta da suíte.
Dagmar limpou a vista coberta de sangue e viu um homem baixo entrar no quarto e fechar a porta atrás de si. Em sua mão esquerda, o pequeno revólver que poupara sua vida – oferecendo ao diabo, em troca, a morte do piloto-capanga cujos restos irreconhecíveis agora emporcalhavam o carpete branco.
“Cale-se, Antônio” – tornou o homem – “Ou muito simplesmente lhe envio ao encontro do seu namorado.”
Imediatamente, mas a muito custo, os gritos de Antônio foram comutados em ligeiros soluços, apenas perceptíveis quando um espasmo mais forte sacudia seus lábios cerrados – apenas para que ele os comprimisse com redobrada veemência.
“Isso. Quieto.” – aprovou o homem, sem elevar a voz.
Dagmar não fazia idéia de quem fosse o novo e terrível personagem do pesadelo de sua vida. Estava claro que a obediência cega que aquele homem inspirava não vinha de respeito ou posição. Fosse quem fosse, a autoridade de que se investia devia-se unicamente ao terror que inspirava, ao medo. Ao medo imediato, avassalador que sua figura vulgar emanava.
Pela maneira como surgira no último segundo, pela precisão de seu tiro e pela frieza de sua intervenção, Dagmar só pôde concluir que estava diante de um demônio.
Como que lendo seus pensamentos, o homem adiantou-se em sua direção.
“Dagmar. Enfim, nosso encontro não se deu como esperado.”
Ajudou a moça a erguer-se. Ela mal podia manter-se sobre as pernas, e era-lhe quase intolerável encarar o rosto banal de seu protetor. Este levantou-a e a pôs na cama sem esforço algum, embora nada em sua constituição evidenciasse tanta força física. Limpou o rosto da moça com um lenço, e acrescentou:
“Eu sou seu contratante. Me chame de Bispo.”

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