Capítulo Nove - Batizadas em sangue
Diante de uma vasta janela-varanda — que abria tarde adentro a ampla vista até a favela do Morumbi — as lágrimas de Matias Ameiro fundiam-se agora às de Marisa, no colo de um compadecido abraço.
A moça, que há minutos acabara o relato de seu amor e seu crime, olhara firmemente os olhos de Matias. Impressionada com a súbita declaração do menino, Marisa o compreendia tão bem!: como devia ser torturante, para uma alma sutil e delicada, ver-se aprisionada num horrendo corpo peludo e cuspidor de esperma! Quantos homens, meu Deus, não existiriam como ele, de barba crescendo todo dia, forçados a arrotar e coçar o saco porque assim queria um cruel ambiente, enquanto dentro de seus eus reinava a pura flor do lesbianismo, a única flor da verdadeira beleza? Tomada de uma terna compaixão, Marisa agora estreitava o garoto num verdadeiro abraço de amigas, na fusão que une duas mulheres quando são tocadas pela idéia intensa do martírio e sofrimento, a idéia inerente a toda existência feminina. Enquanto acolhia o garoto em seus braços, Marisa não sentia nenhuma repulsa: pois em verdade era a alma de Matias que abraçava, e sentia em si o toque quente de uma outra alma de mulher.
“Ai, que gostoso... É tão bom!... agora vai tirando o sutiã bem devagarzinho, piranha...”
Os abraçantes viraram-se de súbito, assustados com a voz grossa que falara e com a grossitude do que ouviram, e sobretudo surpresos com a presença de outra pessoa no quarto. Virando, viram a figura assombrosa do doutor Ameiro, que apontava para Marisa a lente afiada de uma câmera de vídeo.
“Papai!”, dizia o menino, pasmado, pulando da cama e arremetendo-se contra o aparelho do pai. “O que que...”
“É isso sim senhor!”, retrucou o pai enquanto salvava a câmera, num sorriso de sincero prazer. “Ninguém vai me impedir de filmar a primeira foda do meu filhinho, não... É um dos poucos orgulhos que eu vou ter na vida.”, e deu dois tapinhas camaradas nas costas de Matias, indicando ao garoto que voltasse à cama e rasgasse em duas aquela vadia.
“Mas PAPAI!’, gritava Matias vermelho, quase perdendo o pé. “Você... Você é um MONSTRO, papai, um monstro!”, e chorava copiosamente. Marisa apenas olhava, perplexa e puta, retomando seu antigo asco pelos homens.
O garoto, sem mais conseguir falar, apenas levantava a mão aos olhos, para acolher um choro profundamente ofendido.
“Puta que o pariu, moleque, como você é pentelho!”, soltou o doutor Ameiro, quase levantando a mão em posição de tapa. Sempre soubera que o garoto era meio boiola, mas aquilo era demais! “Tá bom, eu não vou filmar então!”
E baixou a câmera, contrariado. Já ia saindo do quarto quando acrescentou, com pouco caso:
“Me avisa quando você terminar. Eu também vou querer comer essa piranha.”
Nisso o garoto finalmente se emputeceu de verdade, escalando verbalmente sobre o pai. “A Marisa não é piranha! E você nunca mais diga isso de nenhuma outra mulher. A Marisa é uma amiga minha que teve um problema, e somos nós que vamos ajudar. Eu preciso ter uma conversa séria com você”, e matronamente conduziu o pai para fora do quarto, saindo ele também para que Marisa ficasse a sós.
Ao ouvir o fechar da porta, Marisa estava confusa. Tinha repulsa ao mafioso, mas acreditava sinceramente no garoto lésbico. E acreditou ainda mais ao ouvir a conversa que rolava no corredor, logo do outro lado da porta: Matias contava ao pai — exceto pelas muitas coisas que só uma mulher compreenderia — tudo o que Marisa fizera no dia anterior. E pedia, com firmeza, a ajuda dele para limpar a situação.
“Ajudar o quê?!”, retrucava o velho com voz indignada. Mas Matias continuou insistindo, continuou habilmente insistindo. Depois de relutar bastante, e demonstrando desprezo por Marisa (que ele ainda cria ser uma micheteira de cinqüenta mangos), o mafioso aquiesceu:
“Tá bom! Puta que o pariu, mas tá bom! Olha só, Matias, presta bem atenção no que a gente vai fazer... mas vai ser só dessa vez! Se eu fosse resolver todas as merdas entre as suas ‘amigas’ e a polícia... Olha só: o delegado Passetti me disse que estão procurando ela como suspeita de ter espancado a velha. Só que a velha está inconsciente, ela não disse nada ainda, ainda não fez acusação, entendeu? Era bom ela morrer antes de acusar, senão não vai ter jeito de eu livrar a cara de ninguém...”
Marisa dentro do quarto pulou ao som dessas palavras.
“Morrer?”, retrucou o menino espantado.
“É, Matias, morrer. São duas coisas: primeiro eu vou mandar o Passetti dizer que já achou a menina, eles vão parar de procurar... Depois, a gente mesmo vai no hospital e termina o serviço da sua amiga. Com a velha morta, com calma, a gente monta um jeito de esclarecer tudo. O Passetti pode dizer que foi ele mesmo que matou, isso se arranja...”
E então Marisa abriu a porta, com as mãos e a alma trêmulas de estarrecimento.
“Vocês vão matar a dona Jimena?”, projetou-se e exclamou, escandindo a palavra “matar”.
“... e o importante agora é você agir naturalmente, minha filha.”, o doutor Ameiro lhe dizia com calma e autoridade. “Vai trabalhar na segunda-feira, faz de conta que não aconteceu nada, que você nem ficou sabendo...”
“Mas foi no meu apartamento!”, protestou Marisa, desacreditando no que ouvia.
“Mas ninguém do seu trabalho precisa saber que foi no seu apartamento, anjinha. Quando o Passetti tiver assumido a morte do presunto, ninguém mais vai perguntar nada, entendeu? O Passetti é delegado, muitos anos que ele é meu companheiro. Vai tranqüila, minha filha. Se alguém perguntar alguma coisa eu vou lá e bato o pau na mesa, pode confiar. Você não imagina o tipo de merda que eu já resolvi. O importante é você não fazer besteira, entendeu? É a única coisa que você precisa fazer.” Virou-se de vez, e foi embora.
Matias olhou para a moça, que via confusa e descompassada.
“É verdade, Marisa... Meu pai é um monstro mas essas coisas ele sabe fazer. Fica aqui em casa o fim-de-semana, na segunda-feira você vai trabalhar...”
“Mas não tem aula na segunda-feira. O curso acabou, entrou em férias.”
“Melhor ainda, então!” e Matias parecia realmente aliviado. “Vai começar o ano que vem, tem tanto tempo ainda... quando as pessoas souberem da morte da velha o caso já vai estar no lixo do Passetti... você não tem idéia do meu pai, Marisa...”
E então, docemente embalada pela facilidade das palavras de Matias, Marisa entreviu com certo alívio uma possível solução rápida e feliz ao seu problema, a solução em que acredita intimamente toda alma angustiada e sofredora.
Mas mal começava a amansar o convulso semblante da moça, quando uma sinistra lembrança saltou-lhe selvagemente à consciência presente, como se tivesse estado entocada em suas entranhas e só agora encontrado o momento de dar o bote:
“Mas tem um problema, Matias! É que nem tudo acabou. Não foi tudo que acabou...” O transtornou lhe voltava à tona, percorrendo-lhe rampante o espírito. “Ainda tem o batismo. O batismo das aeromoças!”
“Batismo das aeromoças?”, ecoou de chofre o garoto, não conseguindo não pensar num ensaio fotográfico muito sensual.
“É a formatura das aeromoças, Matias. É hoje, é o encerramento do curso, e ficou atribuído que eu ia apresentar um prêmio, meu Deus! Eu preciso avisar que eu não vou, senão as pessoas vão suspeitar de mim, eu preciso...”
“Você vai sim, Marisa! Vai sim!”, interrompeu o garoto, sinceramente preocupado. “Você não é louca de não ir, você não ouviu o que meu pai falou? Ia ser muita bandeira você avisar que não vai, todo mundo já vai naturalmente suspeitar de você, você pelo menos tem que ir nesse baile e fingir que está tudo bem...”
“Tudo bem? TUDO BEM?!! Olha pra minha cara e diz se eu tenho condição de fingir que está tudo bem!”, Marisa elevou a voz meio indignada, apontando para a própria figura. E de fato era uma figura deplorável — considerando o esparadrapo no peito, o aspecto geral de bagaço e o fato de que estava vestindo um enorme moletom velho de Matias. “Você não entende que eu não posso ir?...”
“Eu entendo, meu amor, eu entendo...”
E entendia realmente. A partir de agora, entenderia tudo o que entende uma mulher. Mas agora também entendia que, na natureza feminina, é natural o dissimular e o fingir. Imbuído de uma coragem mulherona, e em função de apoiar a amiga, Matias falou firme a Marisa, como que de um ponto forte e superior:
“Eu entendo mas você precisa ir. A mulher que não sabe fingir nunca vai sobreviver. Você volta pra cama, dorme mais um pouco, depois você vai tomar um banho, a gente vai comprar um vestido bem bonito e você vai aparecer linda, soberana no batismo, vai apresentar o seu prêmio de cara mais limpa do que qualquer outra mulher.”
Marisa absurdou-se.
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Didn’t we almost have it all
When love was all we had worth giving...
A voz de Whitney Houston brotava forte do rádio e preenchia a viatura, numa canção que tocava o coração de Daniella. A descoberta de que Marisa a abandonara para protegê-la enchia de força e resolução o seu já gasto, sofrido amor. Alguma coisa em Daniella sempre dissera, sempre soubera que valia a pena esperar, que valia a pena confiar em Marisa, na única mulher que ela havia amado na vida...
Daniella queria agora encontrá-la, protegê-la para sempre de quem quer que pudesse a estar ameaçando. Se tivesse que lutar contra gângsters de bingo, mataria um por um com a sua pujante pistola, e depois fugiriam pra Argentina, Daniella tinha um irmão que morava lá.
Agora só precisava encontrar Marisa, o mais rápido possível, se sua vida corria perigo Daniella não podia se atrasar. Subitamente tremeu: teve a idéia de que pudesse ser tarde demais.
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Agudo e cortando a noite, um burburinho feminino atrapalhava o tráfego na rua Teodoro Sampaio. Entre parentes, peruas e manobristas, os alegres convidados do batismo faziam uma pequena multidão diante da Escola de Aeromoças. Sob uma delicada nuvem de perfume, exalado ao ar pelas aeromoçandas em flor, o brilho semeado de colares, anéis e diademas anunciava as delícias da festa batizante. Diante do imenso portão, solteiras e casais se amontoavam, saboreando ainda de longe o momento glorioso de penetrar naquela privilegiada comemoração.
Marisa, do meio de um vestido pomposo e espelhado, embasbacava-se vendo aquilo tudo. Realmente, comparecer ao batismo das aeromoças era uma idéia muito ruim, não acreditava que tinha sido burra a ponto de aceitar o ‘conselho de amiga’ de Matias. Mas o tom persuasivo do garoto, a impressão de quem sabe o que está falando, a falta de melhor opção tinham feito Marisa tomar aquela idéia imbecil de moleque por uma solução corajosa e original. É assim que, aos amedrontados e irresolutos, tão freqüentemente uma franca facécia se faz passar por salvação criativa, sussurrando heróicas promessas ao soar na alma dos vencidos e desesperados. Caindo agora em si, com um estranho instinto de sobrevivência que a repelia para longe daquele lugar, tinha já a certeza de que não devia entrar. Prontamente decidiu fugir. Nem bem o carro do garoto se afastou em direção à Pompéia — presumivelmente, rumo ao hospital onde a Jumenta vegetava — e Marisa pôs se em obra de furtar-se rua Mourato Coelho adentro, sem ser avistada pela selva venenosa de colegas e alunas.
E, de fato, a peruada na porta da escola era tal, que muito facilitava um sumiço de Marisa. Escondendo o rosto com a mão, como se quisesse remover um cisco, Marisa conseguiu se esgueirar entre uma banca e um velho Monza, avançando assim junto aos faróis dos carros que preenchiam a rua. Como uma aparição, abria um tímido caminho entre grupos de manos e minas que, em seu adolescente xavecar Vila afora, olhavam jocosos para ela, como que imbecilmente divertidos por aquela assombração galante de vestido e penteado.
A moça, ainda meio torta de confusa e de nervosa, parecia não reparar nos olhares que atraía. Desde a fuga frenética de Osasco, agia mais ou menos como uma sonâmbula, numa névoa confusa de fatos e atos em que se fundiam seu transtorno, sua palerma aventura assassina, e a intensidade dos seus sonhos de amor, a aspiração do amor de Dagmar — que se desdobrava como vasta paisagem no horizonte geral de Marisa, e não menos vasta do que vaga. Assim, cambaleando perdida na noite madalena, nossa heroína esbarrava contra a sarjeta o seu sapato muito alto. Para que não lhe fugisse do pé, Marisa apoiou-se distraída a um carro estacionado na rua. E já levava a mão ao sapato, quando a porta do carro se abriu.
“Não vai tirando o sapato ainda não, sua piranha! ... aaaaaAI!... como você está CHIque!”
Tomada de susto e em posição de saci, Marisa quase foi ao chão com aquela repentina abordagem. Demorou a reconhecer o sorrisão brilhante de Soraia, a professora de Etiqueta Aérea que vinha toda toda para abraçá-la. Com o sapato na mão, recebeu passiva o abraço peitudo e quente da amiga.
“Uuúi, querida, agora o que é que você me diz disso aqui, ó...”, e Soraia mostrava a Marisa os seus peitos enormes, oferecidos num benevolente decote. “O Luís me deu de Natal antecipado, olha só! Um litro em cada um!”
Orgulhosa e sorridente, Soraia apalpava por baixo o seu presentão de Natal. Marisa conseguiu comentar, ainda aturdida:
“Ah... muito bom...”
Mas Soraia, dispersa, nem ouvia mais. Já puxava-a pela mão, ao longo da rua e para dentro da Escola, evitando a multidão por uma pequena porta lateral de funcionárias. Marisa, como que entorpecida, deixava-se puxar, sentia como se caminhasse docilmente para a prisão. E finalmente entraram.
Tapetes de lantejoulas e flores, compondo bem com os perfumes e jóias das convivas, cobriam as vastas paredes do salão de festas da escola. Sob um palco montado ao fundo um microfone se postava, junto a um pequeno palanque e um balde de gelo com uma garrafa de champanhe. Com aquele champanhe as moças seriam batizadas, sob as aclamações da platéia. Vendo aquele luxo todo, Marisa pensava na alegria de todos os batismos que já havia visto, o que ressaltava a tristeza de sua presente situação. Lembrava das vezes em que se embriagara, em que bebera champanhe com as colegas até o sol raiar, conversando feliz, livre de espírito. Mas agora só havia medo e a solidão, e o batismo lhe parecia uma ocasião sinistra.
Aproveitando que Soraia a deixara para ir peruar em outra pessoa, Marisa abriu caminho entre as gentes e postou-se junto à parede, queria ficar ali sem ter que falar muito com ninguém, por receio de que notassem seu nervosismo suspeito. Encostada ali, tentava ensaiar uma tranqüilidade que não tinha, preparando-se para a hora de anunciar o seu prêmio. A idéia de que iria subir no palanque, exposta aos olhares perfurantes de tantas colegas invejosas e aluninhas víboras, quase lhe tirava o sustento das pernas. Marisa tinha medo de que, na hora, fraquejaria. De que romperia em prantos ou desmaio, ou que por nervosismo extremo acabaria, enlouquecida, confessando o seu crime em pleno microfone aberto.
E se chegasse a polícia? E se a levassem presa? Com a imaginação à solta, Marisa não descansava o olhar, temerosa do momento em que veria um uniforme de polícia. Permanecia colada à parede, as pessoas a viam, cumprimentavam-na simpaticamente de longe... será que ninguém sabia de nada? Marisa duvidava que ninguém soubesse de nada. A dona Neusa saberia, meu Deus!, a dona Neusa! Ela era amiga pessoal da Jumenta, é claro que já saberia do espancamento, Marisa sentia escoarem-se, conforme os minutos passavam, suas últimas horas de liberdade.
Onde estaria a dona Neusa? Marisa vasculhava a multidão procurando a faxineira, mas não a encontrava jamais. “Deve estar junto com a polícia, esperando a hora...”, Marisa suava ao pensar. Pensou que ainda dava tempo de fugir, mediu a distância que a separava da porta, mas prontamente as luzes todas se apagaram, mergulhando no escuro o salão de festas.
“Aaaaaaaah!!!!”, ouviu-se o frisson histérico das convidadas. Em cima do palco uma luz estonteante se acendia, e iluminava a entrada de Amarílis Conceição, fundadora e proprietária da Escola de Aeromoças, amada pelas alunas como grande rainha das gueixas do céu. Mal subiu no palanque, foi aplaudida a doer as mãos, num estrondo de palmas e gritos que durou mais de um minuto. Amarílis, exalando o seu carisma, esperou que as aclamações cessassem até começar a falar:
“Minhas batizandas, pais e mães, meus amigos, meus amores! Esse é o dia mais feliz das nossas vidas. É o dia em que uma menina vira mulher. É o dia em que as garotas ficam prontas para voar, pra voar rumo a um futuro de amor, prosperidade e paz. Um futuro em que, em meio a tantas guerras e miséria, em meio à luta sangrenta do homem contra o próprio irmão, a aeromoça leva a simpatia para o mundo, espalhando pelos ares a certeza de uma vida melhor...”
A platéia se emocionava. Amarílis era conhecida, em meio a tantas turmas de formandas, pela beleza poética de seus discursos. Enquanto Amarílis falava, e falava longamente com um imenso fôlego, um telão projetava atrás do palco a imagem de um avião em vôo, depois a de um pombo branco voando livre no céu...
“... levando no bico o ramo da fraternidade... fazendo com que cada aeroporto, cada aeronave seja um manancial do mais puro amor, pelos caminhos onde a perseverança...”
Marisa, que geralmente se emocionava com os discursos da patroa, hoje se irritava com a demora, queria que a mulher terminasse logo, pra sair logo dali. As palavras de Amarílis, cheias de sabedoria e lirismo, pra Marisa eram apenas um ruído, um ruído marcando a demora e carregando sua tensão.
“... em que a esperança luta, contra os grilhões da morte, pedindo pela salvação eterna, erguendo as mãos rumo aos céus onde paira a nuvem do arrependimento. Um mundo em que a pureza é aviltada e degradada, onde apenas uma flor de pureza...”
E assim prosseguia e prosseguia. Aquelas palavras se confundiam na cabeça de Marisa, impedindo-a de se acalmar.
“... viajam pelo céu aos caminhos de Jesus! Por isso é com colossal orgulho que eu chamo ao palco a primeira batizanda, Adriana Jaqueline Pastorelli!”, e soaram aplausos. “Sobe aqui, Adriana Jaqueline!”
Adriana Jaqueline subiu, sob urros da multidão e flashes de máquina fotográfica.
“Você, Adriana Jaqueline”, dizia Amarílis, emocionada e chorando. “Você é a menininha mais bonitinha que eu já vi! É por isso que eu anuncio que você será batizada... ‘a Cerejinha dos Ares!’”
A menina, sorrindo com o estranho apelido, fazia referências enquanto a platéia a saudava.
“Cerejinha dos Ares, meu amor... eu nem acredito que você já está virando mulher...”, Amarílis dizia, enquanto maternalmente afagava as costas e o rabo de Adriana Jaqueline. “O que você vai fazer agora, minha querida Cerejinha?...”
A Cerejinha assumiu ares de cocota ao responder no microfone: “Agora eu quero voar, voar e voar!”
“Êeeeeeeee!”, empolgou-se a platéia.
“Vamos dar milhões de palmas pra nossa Cerejinha dos Ares! Espere ali atrás, querida”, dizia Amarílis indicando-lhe o fundo do palco, onde Adriana Jaqueline esperaria que todas as suas colegas tivessem sido chamadas. Quando a turma estivesse reunida teria lugar o verdadeiro batismo, e uma professora as banharia no champanhe que aguardava no balde de gelo. Depois, a entrega dos prêmios.
Marisa, invariavelmente nervosa, ainda tentava acalmar-se enquanto as batizandas subiam ao palco, uma a uma. Quanto tempo teria até que tivesse que apresentar seu prêmio? Uma hora? Menos? Mas tudo passava tão rápido! Nem bem Marisa notou, Amarílis já dispensava a última batizanda...
“Wanessa, a Petecota, espere ali com as suas colegas, porque finalmente chegou a hora.... Meus amigos, meus amores... é hora de champanhe!”
A platéia vibrava, enquanto o alto-falante tocava aquela música brega italiana:
“Champagne...”
E o telão mostrava uma imagem de champanhe. Amarílis deixou a canção tocar um pouco, antes de retomar a palavra: “Este ano, meus amigos, a professora escolhida pra batizar as aeromoças foi a nossa querida MARISA!!!”
Não! Não podia ser! Ninguém tinha falado a ela de batizar ninguém, Marisa deveria apresentar o prêmio de “melhor comportamento” e escafeder-se dali, não era possível! Nesse momento tremeu. Aquela alteração desavisada gerou em Marisa uma intensa suspeita, a quase certeza de que, tendo sido descoberta... sim!: preparavam para ela uma armadilha! Olhando para a multidão, percebeu que estavam todos de conluio contra ela, e que o batizado era uma cruel ratoeira em que a tinham conseguido prender.
Mas não tinha mais como fugir. Soraia e outra professora lhe seguravam os braços cada uma de um lado, conduzindo-a (forçavam-na?) para o palco e o palanque, sob aplausos da multidão. Marisa tentava se soltar, desesperada e ofegante, porém o aperto das colegas era forte, ela não fugiria nunca. Em cima do palco Amarílis a recebeu, oferecendo-lhe a garrafa de champanhe com que deveria ensopar as batizandas, assim preparando-as ritualmente para a vida nos ares.
Marisa, petrificada de medo, não tomou a garrafa das mãos de Amarílis. Ficou parada ao seu lado, sob a atenção da platéia que esperava em silêncio. Amarílis ainda falou no microfone:
“Meu Deus, a professora está tão emocionada que nem vai conseguir batizar! Vamos pedir um ‘batiza’ pra ela, pessoal!”
E prontamente a platéia acedeu:
“BA-TI-ZA! BA-TI-ZA!”
Marisa tentava se acalmar, tentava pegar o champanhe das mãos de Amarílis, mas sentia que suas mãos iam desfalecer...
“Gente... olhem como ela chora, olha que comoção, gente... mas a Marisa tem mesmo um motivo pra chorar! Afinal, VEJAM SÓ O QUE ELA FEZ!”
E o telão mostrou uma imensa foto de dona Jimena morta.
Caída no chão do apartamento de Marisa, a velha aparecia na foto, com um ângulo enfático na sangrenta e mortal porrada no lado da cabeça. À vista daquela imagem tenebrosa a platéia entrou em delírio mórbido, rompendo em gritos e choros de espanto. Uma batizanda desmaiou com a visão, as outras demoraram a acudi-la, tão aturdidas estavam.
Mas mais alto que a comoção da platéia — sem parecer atentar ao desespero geral e ao pânico de Marisa, que se debatia nos braços fortes de Soraia — Amarílis continuava a falar, com crueldade fria em sua voz.
“Pois é, amigos, quem diria que essa ruivinha sapeca poderia derramar tanto sangue, né? Que tal a gente pedir pra ela um imenso coro de ‘ASSASSINA!’? ... agora, meus amigos... se vocês se assustaram com o que ela fez com a dona Jimena, vocês vão se assustar muito mais com ISTO!”
E então Marisa viu. Ao ver o que o telão agora mostrava, Marisa não era mais si: achou que já tivesse morrido. Num chão acarpetado deitava-se um suntuoso corpo feminino, vestido de robe verde, revelando um par de deliciosas coxas morenas. E acima dos fartos seios, onde devia haver a cabeça, uma explosão de vermelho marcava o chão, salpicada de pedaços de crânio e miolos. Mas Marisa não precisava ver o rosto: sabia que aquele corpo, que via morto no telão, era o belo corpo de Dagmar.
A platéia triplicou em pânico ao ver a foto de Dagmar sem a cabeça. Os gritos femininos ecoavam nas paredes e se amplificavam no salão, instalando o caos generalizado. Mas Marisa, esta não gritava. A imagem da amada morta tomava-lhe agora todo o espírito, paralisando-a, envolvendo-a num medo desconhecido... Sua respiração era difícil, como a de uma parturiente. Aterrada e ofegante, a moça não atentava ao tumulto que se criava em seu entorno. Havia apenas ela ali, ela e a morte de Dagmar, únicos elementos da vida daquela mulher. Marisa não mais enxergava — como se o salão tivesse mergulhado em infindáveis trevas — o que acontecia ao seu redor, não ouvia os gritos do público nem a voz firme de Amarílis, que ainda falava ao microfone...
"Já sei, agora vamos pedir pra Marisa um grande coro de ASSASSINA!"
E as provocações da patroa não chegavam aos ouvidos da moça. Esta apenas notava hipnotizada a chuva de pétalas de rosa, intensamente vermelhas, que começava a cair sobre o palco e sobre ela. Não entendia aquilo, e via as rosas pairarem devagar do teto até o chão.
Mas não eram pétalas de rosa! Era sangue!! Era sangue o que caía do teto, o sangue de Dagmar. Marisa, petrificada, recebia no rosto transtornado aquele sangue mistificante, o sangue de sua amada morta, no contato físico mais íntimo que jamais tivera com o corpo de Dagmar. Ainda sem poder agir (seus músculos não lhe respondiam), deixou que o sangue lhe banhasse os cabelos e o vestido, de pé em meio à profusão de gritos, desmaios e desesperos que assolava o salão de festas. O sangue penetrava-lhe a alma, fazia a moça preencher a amplidão com um único grito:
“DAGMAR!!!”
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Gritando, Marisa despertou do sonho. Abrindo os olhos viu o teto da salinha de café, viu a figura de Soraia, que a pegava nos braços e dizia “Calma...”, enxugando com a mão dela sua testa suada de pesadelo.
Demorou segundos para ela entender que tinha sonhado. E esse despertar suado foi talvez a constatação mais feliz da vida de sua vida. Dagmar não estava morta! Era como se Marisa renascesse, seu coração ainda batia aceleradíssimo do susto.
“Querida, você desmaiou...”
“Eu?...”, Marisa lutava para recobrar a respiração.
“Você desmaiou mal a Amarílis subiu no palco! Ela já batizou as aeromoças e tudo, nós deixamos o seu prêmio por último. Vem logo, querida, ainda dá tempo de você apresentar!”
“Olha... Soraia...”, dizia Marisa, falando mole como uma delirante, “apresenta o prêmio você pra mim, eu ainda não estou muito bem...”
“Você está louca, menina?! Você vai se arrepender disso o ano inteiro! Imagine, não apresentar o prêmio! Nós deixamos ele por último justamente porque você tinha desmaiado, agora você vai lá e dá a volta por cima! E além do mais eu já apresentei os prêmios de ‘melhor postura’ e de ‘cinturinha de pilão’...”
E Soraia já lhe pregava no busto um microfone de lapela, encaminhando-a para fora da salinha e para cima do palco.
Marisa, ainda de pernas bambas e assustada com o pesadelo (que mais lhe parecia uma terrível premonição), subia devagar a escadinha que levava ao palco, e recebia os aplausos da galera. Amarílis a apresentava em grande estilo:
“Para o nosso último prêmio, o de melhor comportamento, a mais fabulosa osasquense de todos os céus. A querida professora Marisa!!”
Marisa, em cima do palanque, ainda tremia enquanto recebia das mãos de Amarílis, o troféu a entregar e o envelope com o nome da premiada. Olhava a platéia em silêncio, lembrando de seu terrível sonho, seria possível que eles não soubessem de nada? Falando baixo no microfone de lapela, tentava parecer calma:
“Boa noite... é com prazer e honra que eu vou apresentar o prêmio de... de melhor comportamento...”
Enquanto falava, a moça vasculhava a platéia com temor. Não havia sinal de polícia, o que não a deixava aliviada. Puxou o cartão do envelope e leu em voz alta o conteúdo:
“O prêmio de melhor comportamento deste ano vai pra... Francielly Giovanna Camargo, batizada ‘a Curtidinha’...”
A platéia irrompeu em aplausos. A Curtidinha, ainda cheirando a champanhe, veio ao palco receber o trofeuzinho das mãos de Marisa, cumprimentando-a com um beijo tímido. Enquanto Francielly fazia reverências para a platéia, que exigia “Discurso!”, Marisa notava algo de estranho no envelope. Um segundo papel havia ali dentro. Um papel dobrado e escrito, a lápis, “Marisa”.
A moça tremeu enquanto desdobrava e lia:
MARISA, A POLÍCIA ESTÁ LÁ FORA.
FOGE PELA SAÍDA DE LIMPEZA. EU ESTOU TE ESPERANDO LÁ COM A CHAVE.
Ass. NEUSA.
“O que você vai dizer pra Francielly, Marisa?”, Amarílis conclamava a professora a pronunciar-se para o público. Marisa tentava dizer algo, era tão difícil, as palavras do bilhete ocupavam sua mente...
“Ah... muito... parabéns, Francielly, e que seja muita felicidade.”
Foi só isso o que ela disse, e virou rapidamente para ir embora do palco. Amarílis não escondeu sua decepção:
“Mas é só isso que você tem a dizer pra Francielly?”
Porém Marisa nem respondeu. Já tinha ralado o peito dali, por trás de uma cortina encaminhava-se para a saída de limpeza, obedecendo temerosamente à instrução de dona Neusa. Pela janelinha que dava para a rua, entrava no corredor a luz vermelha e girante de uma viatura.
Marisa ofegava, tirou os sapatos altos para melhor andar, talvez tivesse que correr. Por que a dona Neusa estava fazendo aquilo, por que a dona Neusa queria protegê-la? Seria esta a armação que vaticinara em sonho? Com esses pensamentos hesitava, estendia a mão para abrir a porta, quando outra mão por trás lhe segurou o braço.
“Peraí, onde você vai?”
Virou-se, e viu Daniella. Pulando para trás com o susto, Marisa bambeava as pernas enquanto via aquilo que parecia ser uma assombração, fugida dos anos 90 e vestida de policial. Falou, gaguejando:
“Daniella?...”
A gaúcha olhou-a nos olhos, disse com ternura, mas firme:
“A gente tem muito o que conversar, mas precisa ser longe daqui. Tem dois filhos-da-puta da polícia lá fora, esperando pra te prender. A tal da Jimena acordou, acordou e falou o seu nome. Vai ser difícil sair daqui com você sem os filhos-da-puta verem, eu vou fazer um negócio, você fica quieta e vem comigo, tá bom?”
“...tá bom...”, aceitava Marisa sem firmeza, sem saber se devia confiar na outra.
E não acreditou quando viu o que Daniella fez.
Levantando a cortina que dava pro salão de festas, Daniella sacou a pistola do bolso, parecia fazer pontaria em algo ou em alguém...
“Meu Deus, o que ela vai fazer?!”, Marisa já pensava no pior.
A outra, mirando com muita perícia, disparou um pipoco contra o enorme globo de espelhos que pairava acima do espaço ao lado do palco, onde as batizandas, todas juntas, ouviam o discurso final de Amarílis.
Um estrondo soou no salão, e uma chuva de estilhaços de espelho já caía sobre as batizandas, rasgando-lhes agudamente a pele. O pânico fez-se senhor, proliferando gritos. Correndo sem saber pra onde, tentando abrir caminho no choque de umas com as outras, as batizandas debatiam-se, chocavam-se, roçavam-se, assustadas pela visão do próprio sangue que escorria de rostos e braços cortados. As que não cortavam a face nem o ombro, estas rasgavam suas meias e pezinhos nos finos estilhaços do chão, tendo perdido o sapato. E o sangue seguia sujando meias, maculando cabelos e vestidos.
Os convidados da festa, as professoras, todos corriam pra acudir as batizandas, que se jogavam aos gritos nos braços dos noivos ou de parentes, ainda com a pele crivada de estilhaços, traumatizadas para sempre no que deveria ser o momento mais sublime de suas vidas.
Marisa tremeu ao ver aquilo. Já ia desabar no chão, mas Daniella a segurava com força, demonstrando senhora frieza frente ao terror geral que causara.
“Agora a gente foge daqui!”, Daniella disse à outra, e puxou-a pela mão rumo à saída de limpeza.
A moça, que há minutos acabara o relato de seu amor e seu crime, olhara firmemente os olhos de Matias. Impressionada com a súbita declaração do menino, Marisa o compreendia tão bem!: como devia ser torturante, para uma alma sutil e delicada, ver-se aprisionada num horrendo corpo peludo e cuspidor de esperma! Quantos homens, meu Deus, não existiriam como ele, de barba crescendo todo dia, forçados a arrotar e coçar o saco porque assim queria um cruel ambiente, enquanto dentro de seus eus reinava a pura flor do lesbianismo, a única flor da verdadeira beleza? Tomada de uma terna compaixão, Marisa agora estreitava o garoto num verdadeiro abraço de amigas, na fusão que une duas mulheres quando são tocadas pela idéia intensa do martírio e sofrimento, a idéia inerente a toda existência feminina. Enquanto acolhia o garoto em seus braços, Marisa não sentia nenhuma repulsa: pois em verdade era a alma de Matias que abraçava, e sentia em si o toque quente de uma outra alma de mulher.
“Ai, que gostoso... É tão bom!... agora vai tirando o sutiã bem devagarzinho, piranha...”
Os abraçantes viraram-se de súbito, assustados com a voz grossa que falara e com a grossitude do que ouviram, e sobretudo surpresos com a presença de outra pessoa no quarto. Virando, viram a figura assombrosa do doutor Ameiro, que apontava para Marisa a lente afiada de uma câmera de vídeo.
“Papai!”, dizia o menino, pasmado, pulando da cama e arremetendo-se contra o aparelho do pai. “O que que...”
“É isso sim senhor!”, retrucou o pai enquanto salvava a câmera, num sorriso de sincero prazer. “Ninguém vai me impedir de filmar a primeira foda do meu filhinho, não... É um dos poucos orgulhos que eu vou ter na vida.”, e deu dois tapinhas camaradas nas costas de Matias, indicando ao garoto que voltasse à cama e rasgasse em duas aquela vadia.
“Mas PAPAI!’, gritava Matias vermelho, quase perdendo o pé. “Você... Você é um MONSTRO, papai, um monstro!”, e chorava copiosamente. Marisa apenas olhava, perplexa e puta, retomando seu antigo asco pelos homens.
O garoto, sem mais conseguir falar, apenas levantava a mão aos olhos, para acolher um choro profundamente ofendido.
“Puta que o pariu, moleque, como você é pentelho!”, soltou o doutor Ameiro, quase levantando a mão em posição de tapa. Sempre soubera que o garoto era meio boiola, mas aquilo era demais! “Tá bom, eu não vou filmar então!”
E baixou a câmera, contrariado. Já ia saindo do quarto quando acrescentou, com pouco caso:
“Me avisa quando você terminar. Eu também vou querer comer essa piranha.”
Nisso o garoto finalmente se emputeceu de verdade, escalando verbalmente sobre o pai. “A Marisa não é piranha! E você nunca mais diga isso de nenhuma outra mulher. A Marisa é uma amiga minha que teve um problema, e somos nós que vamos ajudar. Eu preciso ter uma conversa séria com você”, e matronamente conduziu o pai para fora do quarto, saindo ele também para que Marisa ficasse a sós.
Ao ouvir o fechar da porta, Marisa estava confusa. Tinha repulsa ao mafioso, mas acreditava sinceramente no garoto lésbico. E acreditou ainda mais ao ouvir a conversa que rolava no corredor, logo do outro lado da porta: Matias contava ao pai — exceto pelas muitas coisas que só uma mulher compreenderia — tudo o que Marisa fizera no dia anterior. E pedia, com firmeza, a ajuda dele para limpar a situação.
“Ajudar o quê?!”, retrucava o velho com voz indignada. Mas Matias continuou insistindo, continuou habilmente insistindo. Depois de relutar bastante, e demonstrando desprezo por Marisa (que ele ainda cria ser uma micheteira de cinqüenta mangos), o mafioso aquiesceu:
“Tá bom! Puta que o pariu, mas tá bom! Olha só, Matias, presta bem atenção no que a gente vai fazer... mas vai ser só dessa vez! Se eu fosse resolver todas as merdas entre as suas ‘amigas’ e a polícia... Olha só: o delegado Passetti me disse que estão procurando ela como suspeita de ter espancado a velha. Só que a velha está inconsciente, ela não disse nada ainda, ainda não fez acusação, entendeu? Era bom ela morrer antes de acusar, senão não vai ter jeito de eu livrar a cara de ninguém...”
Marisa dentro do quarto pulou ao som dessas palavras.
“Morrer?”, retrucou o menino espantado.
“É, Matias, morrer. São duas coisas: primeiro eu vou mandar o Passetti dizer que já achou a menina, eles vão parar de procurar... Depois, a gente mesmo vai no hospital e termina o serviço da sua amiga. Com a velha morta, com calma, a gente monta um jeito de esclarecer tudo. O Passetti pode dizer que foi ele mesmo que matou, isso se arranja...”
E então Marisa abriu a porta, com as mãos e a alma trêmulas de estarrecimento.
“Vocês vão matar a dona Jimena?”, projetou-se e exclamou, escandindo a palavra “matar”.
“... e o importante agora é você agir naturalmente, minha filha.”, o doutor Ameiro lhe dizia com calma e autoridade. “Vai trabalhar na segunda-feira, faz de conta que não aconteceu nada, que você nem ficou sabendo...”
“Mas foi no meu apartamento!”, protestou Marisa, desacreditando no que ouvia.
“Mas ninguém do seu trabalho precisa saber que foi no seu apartamento, anjinha. Quando o Passetti tiver assumido a morte do presunto, ninguém mais vai perguntar nada, entendeu? O Passetti é delegado, muitos anos que ele é meu companheiro. Vai tranqüila, minha filha. Se alguém perguntar alguma coisa eu vou lá e bato o pau na mesa, pode confiar. Você não imagina o tipo de merda que eu já resolvi. O importante é você não fazer besteira, entendeu? É a única coisa que você precisa fazer.” Virou-se de vez, e foi embora.
Matias olhou para a moça, que via confusa e descompassada.
“É verdade, Marisa... Meu pai é um monstro mas essas coisas ele sabe fazer. Fica aqui em casa o fim-de-semana, na segunda-feira você vai trabalhar...”
“Mas não tem aula na segunda-feira. O curso acabou, entrou em férias.”
“Melhor ainda, então!” e Matias parecia realmente aliviado. “Vai começar o ano que vem, tem tanto tempo ainda... quando as pessoas souberem da morte da velha o caso já vai estar no lixo do Passetti... você não tem idéia do meu pai, Marisa...”
E então, docemente embalada pela facilidade das palavras de Matias, Marisa entreviu com certo alívio uma possível solução rápida e feliz ao seu problema, a solução em que acredita intimamente toda alma angustiada e sofredora.
Mas mal começava a amansar o convulso semblante da moça, quando uma sinistra lembrança saltou-lhe selvagemente à consciência presente, como se tivesse estado entocada em suas entranhas e só agora encontrado o momento de dar o bote:
“Mas tem um problema, Matias! É que nem tudo acabou. Não foi tudo que acabou...” O transtornou lhe voltava à tona, percorrendo-lhe rampante o espírito. “Ainda tem o batismo. O batismo das aeromoças!”
“Batismo das aeromoças?”, ecoou de chofre o garoto, não conseguindo não pensar num ensaio fotográfico muito sensual.
“É a formatura das aeromoças, Matias. É hoje, é o encerramento do curso, e ficou atribuído que eu ia apresentar um prêmio, meu Deus! Eu preciso avisar que eu não vou, senão as pessoas vão suspeitar de mim, eu preciso...”
“Você vai sim, Marisa! Vai sim!”, interrompeu o garoto, sinceramente preocupado. “Você não é louca de não ir, você não ouviu o que meu pai falou? Ia ser muita bandeira você avisar que não vai, todo mundo já vai naturalmente suspeitar de você, você pelo menos tem que ir nesse baile e fingir que está tudo bem...”
“Tudo bem? TUDO BEM?!! Olha pra minha cara e diz se eu tenho condição de fingir que está tudo bem!”, Marisa elevou a voz meio indignada, apontando para a própria figura. E de fato era uma figura deplorável — considerando o esparadrapo no peito, o aspecto geral de bagaço e o fato de que estava vestindo um enorme moletom velho de Matias. “Você não entende que eu não posso ir?...”
“Eu entendo, meu amor, eu entendo...”
E entendia realmente. A partir de agora, entenderia tudo o que entende uma mulher. Mas agora também entendia que, na natureza feminina, é natural o dissimular e o fingir. Imbuído de uma coragem mulherona, e em função de apoiar a amiga, Matias falou firme a Marisa, como que de um ponto forte e superior:
“Eu entendo mas você precisa ir. A mulher que não sabe fingir nunca vai sobreviver. Você volta pra cama, dorme mais um pouco, depois você vai tomar um banho, a gente vai comprar um vestido bem bonito e você vai aparecer linda, soberana no batismo, vai apresentar o seu prêmio de cara mais limpa do que qualquer outra mulher.”
Marisa absurdou-se.
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Didn’t we almost have it all
When love was all we had worth giving...
A voz de Whitney Houston brotava forte do rádio e preenchia a viatura, numa canção que tocava o coração de Daniella. A descoberta de que Marisa a abandonara para protegê-la enchia de força e resolução o seu já gasto, sofrido amor. Alguma coisa em Daniella sempre dissera, sempre soubera que valia a pena esperar, que valia a pena confiar em Marisa, na única mulher que ela havia amado na vida...
Daniella queria agora encontrá-la, protegê-la para sempre de quem quer que pudesse a estar ameaçando. Se tivesse que lutar contra gângsters de bingo, mataria um por um com a sua pujante pistola, e depois fugiriam pra Argentina, Daniella tinha um irmão que morava lá.
Agora só precisava encontrar Marisa, o mais rápido possível, se sua vida corria perigo Daniella não podia se atrasar. Subitamente tremeu: teve a idéia de que pudesse ser tarde demais.
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Agudo e cortando a noite, um burburinho feminino atrapalhava o tráfego na rua Teodoro Sampaio. Entre parentes, peruas e manobristas, os alegres convidados do batismo faziam uma pequena multidão diante da Escola de Aeromoças. Sob uma delicada nuvem de perfume, exalado ao ar pelas aeromoçandas em flor, o brilho semeado de colares, anéis e diademas anunciava as delícias da festa batizante. Diante do imenso portão, solteiras e casais se amontoavam, saboreando ainda de longe o momento glorioso de penetrar naquela privilegiada comemoração.
Marisa, do meio de um vestido pomposo e espelhado, embasbacava-se vendo aquilo tudo. Realmente, comparecer ao batismo das aeromoças era uma idéia muito ruim, não acreditava que tinha sido burra a ponto de aceitar o ‘conselho de amiga’ de Matias. Mas o tom persuasivo do garoto, a impressão de quem sabe o que está falando, a falta de melhor opção tinham feito Marisa tomar aquela idéia imbecil de moleque por uma solução corajosa e original. É assim que, aos amedrontados e irresolutos, tão freqüentemente uma franca facécia se faz passar por salvação criativa, sussurrando heróicas promessas ao soar na alma dos vencidos e desesperados. Caindo agora em si, com um estranho instinto de sobrevivência que a repelia para longe daquele lugar, tinha já a certeza de que não devia entrar. Prontamente decidiu fugir. Nem bem o carro do garoto se afastou em direção à Pompéia — presumivelmente, rumo ao hospital onde a Jumenta vegetava — e Marisa pôs se em obra de furtar-se rua Mourato Coelho adentro, sem ser avistada pela selva venenosa de colegas e alunas.
E, de fato, a peruada na porta da escola era tal, que muito facilitava um sumiço de Marisa. Escondendo o rosto com a mão, como se quisesse remover um cisco, Marisa conseguiu se esgueirar entre uma banca e um velho Monza, avançando assim junto aos faróis dos carros que preenchiam a rua. Como uma aparição, abria um tímido caminho entre grupos de manos e minas que, em seu adolescente xavecar Vila afora, olhavam jocosos para ela, como que imbecilmente divertidos por aquela assombração galante de vestido e penteado.
A moça, ainda meio torta de confusa e de nervosa, parecia não reparar nos olhares que atraía. Desde a fuga frenética de Osasco, agia mais ou menos como uma sonâmbula, numa névoa confusa de fatos e atos em que se fundiam seu transtorno, sua palerma aventura assassina, e a intensidade dos seus sonhos de amor, a aspiração do amor de Dagmar — que se desdobrava como vasta paisagem no horizonte geral de Marisa, e não menos vasta do que vaga. Assim, cambaleando perdida na noite madalena, nossa heroína esbarrava contra a sarjeta o seu sapato muito alto. Para que não lhe fugisse do pé, Marisa apoiou-se distraída a um carro estacionado na rua. E já levava a mão ao sapato, quando a porta do carro se abriu.
“Não vai tirando o sapato ainda não, sua piranha! ... aaaaaAI!... como você está CHIque!”
Tomada de susto e em posição de saci, Marisa quase foi ao chão com aquela repentina abordagem. Demorou a reconhecer o sorrisão brilhante de Soraia, a professora de Etiqueta Aérea que vinha toda toda para abraçá-la. Com o sapato na mão, recebeu passiva o abraço peitudo e quente da amiga.
“Uuúi, querida, agora o que é que você me diz disso aqui, ó...”, e Soraia mostrava a Marisa os seus peitos enormes, oferecidos num benevolente decote. “O Luís me deu de Natal antecipado, olha só! Um litro em cada um!”
Orgulhosa e sorridente, Soraia apalpava por baixo o seu presentão de Natal. Marisa conseguiu comentar, ainda aturdida:
“Ah... muito bom...”
Mas Soraia, dispersa, nem ouvia mais. Já puxava-a pela mão, ao longo da rua e para dentro da Escola, evitando a multidão por uma pequena porta lateral de funcionárias. Marisa, como que entorpecida, deixava-se puxar, sentia como se caminhasse docilmente para a prisão. E finalmente entraram.
Tapetes de lantejoulas e flores, compondo bem com os perfumes e jóias das convivas, cobriam as vastas paredes do salão de festas da escola. Sob um palco montado ao fundo um microfone se postava, junto a um pequeno palanque e um balde de gelo com uma garrafa de champanhe. Com aquele champanhe as moças seriam batizadas, sob as aclamações da platéia. Vendo aquele luxo todo, Marisa pensava na alegria de todos os batismos que já havia visto, o que ressaltava a tristeza de sua presente situação. Lembrava das vezes em que se embriagara, em que bebera champanhe com as colegas até o sol raiar, conversando feliz, livre de espírito. Mas agora só havia medo e a solidão, e o batismo lhe parecia uma ocasião sinistra.
Aproveitando que Soraia a deixara para ir peruar em outra pessoa, Marisa abriu caminho entre as gentes e postou-se junto à parede, queria ficar ali sem ter que falar muito com ninguém, por receio de que notassem seu nervosismo suspeito. Encostada ali, tentava ensaiar uma tranqüilidade que não tinha, preparando-se para a hora de anunciar o seu prêmio. A idéia de que iria subir no palanque, exposta aos olhares perfurantes de tantas colegas invejosas e aluninhas víboras, quase lhe tirava o sustento das pernas. Marisa tinha medo de que, na hora, fraquejaria. De que romperia em prantos ou desmaio, ou que por nervosismo extremo acabaria, enlouquecida, confessando o seu crime em pleno microfone aberto.
E se chegasse a polícia? E se a levassem presa? Com a imaginação à solta, Marisa não descansava o olhar, temerosa do momento em que veria um uniforme de polícia. Permanecia colada à parede, as pessoas a viam, cumprimentavam-na simpaticamente de longe... será que ninguém sabia de nada? Marisa duvidava que ninguém soubesse de nada. A dona Neusa saberia, meu Deus!, a dona Neusa! Ela era amiga pessoal da Jumenta, é claro que já saberia do espancamento, Marisa sentia escoarem-se, conforme os minutos passavam, suas últimas horas de liberdade.
Onde estaria a dona Neusa? Marisa vasculhava a multidão procurando a faxineira, mas não a encontrava jamais. “Deve estar junto com a polícia, esperando a hora...”, Marisa suava ao pensar. Pensou que ainda dava tempo de fugir, mediu a distância que a separava da porta, mas prontamente as luzes todas se apagaram, mergulhando no escuro o salão de festas.
“Aaaaaaaah!!!!”, ouviu-se o frisson histérico das convidadas. Em cima do palco uma luz estonteante se acendia, e iluminava a entrada de Amarílis Conceição, fundadora e proprietária da Escola de Aeromoças, amada pelas alunas como grande rainha das gueixas do céu. Mal subiu no palanque, foi aplaudida a doer as mãos, num estrondo de palmas e gritos que durou mais de um minuto. Amarílis, exalando o seu carisma, esperou que as aclamações cessassem até começar a falar:
“Minhas batizandas, pais e mães, meus amigos, meus amores! Esse é o dia mais feliz das nossas vidas. É o dia em que uma menina vira mulher. É o dia em que as garotas ficam prontas para voar, pra voar rumo a um futuro de amor, prosperidade e paz. Um futuro em que, em meio a tantas guerras e miséria, em meio à luta sangrenta do homem contra o próprio irmão, a aeromoça leva a simpatia para o mundo, espalhando pelos ares a certeza de uma vida melhor...”
A platéia se emocionava. Amarílis era conhecida, em meio a tantas turmas de formandas, pela beleza poética de seus discursos. Enquanto Amarílis falava, e falava longamente com um imenso fôlego, um telão projetava atrás do palco a imagem de um avião em vôo, depois a de um pombo branco voando livre no céu...
“... levando no bico o ramo da fraternidade... fazendo com que cada aeroporto, cada aeronave seja um manancial do mais puro amor, pelos caminhos onde a perseverança...”
Marisa, que geralmente se emocionava com os discursos da patroa, hoje se irritava com a demora, queria que a mulher terminasse logo, pra sair logo dali. As palavras de Amarílis, cheias de sabedoria e lirismo, pra Marisa eram apenas um ruído, um ruído marcando a demora e carregando sua tensão.
“... em que a esperança luta, contra os grilhões da morte, pedindo pela salvação eterna, erguendo as mãos rumo aos céus onde paira a nuvem do arrependimento. Um mundo em que a pureza é aviltada e degradada, onde apenas uma flor de pureza...”
E assim prosseguia e prosseguia. Aquelas palavras se confundiam na cabeça de Marisa, impedindo-a de se acalmar.
“... viajam pelo céu aos caminhos de Jesus! Por isso é com colossal orgulho que eu chamo ao palco a primeira batizanda, Adriana Jaqueline Pastorelli!”, e soaram aplausos. “Sobe aqui, Adriana Jaqueline!”
Adriana Jaqueline subiu, sob urros da multidão e flashes de máquina fotográfica.
“Você, Adriana Jaqueline”, dizia Amarílis, emocionada e chorando. “Você é a menininha mais bonitinha que eu já vi! É por isso que eu anuncio que você será batizada... ‘a Cerejinha dos Ares!’”
A menina, sorrindo com o estranho apelido, fazia referências enquanto a platéia a saudava.
“Cerejinha dos Ares, meu amor... eu nem acredito que você já está virando mulher...”, Amarílis dizia, enquanto maternalmente afagava as costas e o rabo de Adriana Jaqueline. “O que você vai fazer agora, minha querida Cerejinha?...”
A Cerejinha assumiu ares de cocota ao responder no microfone: “Agora eu quero voar, voar e voar!”
“Êeeeeeeee!”, empolgou-se a platéia.
“Vamos dar milhões de palmas pra nossa Cerejinha dos Ares! Espere ali atrás, querida”, dizia Amarílis indicando-lhe o fundo do palco, onde Adriana Jaqueline esperaria que todas as suas colegas tivessem sido chamadas. Quando a turma estivesse reunida teria lugar o verdadeiro batismo, e uma professora as banharia no champanhe que aguardava no balde de gelo. Depois, a entrega dos prêmios.
Marisa, invariavelmente nervosa, ainda tentava acalmar-se enquanto as batizandas subiam ao palco, uma a uma. Quanto tempo teria até que tivesse que apresentar seu prêmio? Uma hora? Menos? Mas tudo passava tão rápido! Nem bem Marisa notou, Amarílis já dispensava a última batizanda...
“Wanessa, a Petecota, espere ali com as suas colegas, porque finalmente chegou a hora.... Meus amigos, meus amores... é hora de champanhe!”
A platéia vibrava, enquanto o alto-falante tocava aquela música brega italiana:
“Champagne...”
E o telão mostrava uma imagem de champanhe. Amarílis deixou a canção tocar um pouco, antes de retomar a palavra: “Este ano, meus amigos, a professora escolhida pra batizar as aeromoças foi a nossa querida MARISA!!!”
Não! Não podia ser! Ninguém tinha falado a ela de batizar ninguém, Marisa deveria apresentar o prêmio de “melhor comportamento” e escafeder-se dali, não era possível! Nesse momento tremeu. Aquela alteração desavisada gerou em Marisa uma intensa suspeita, a quase certeza de que, tendo sido descoberta... sim!: preparavam para ela uma armadilha! Olhando para a multidão, percebeu que estavam todos de conluio contra ela, e que o batizado era uma cruel ratoeira em que a tinham conseguido prender.
Mas não tinha mais como fugir. Soraia e outra professora lhe seguravam os braços cada uma de um lado, conduzindo-a (forçavam-na?) para o palco e o palanque, sob aplausos da multidão. Marisa tentava se soltar, desesperada e ofegante, porém o aperto das colegas era forte, ela não fugiria nunca. Em cima do palco Amarílis a recebeu, oferecendo-lhe a garrafa de champanhe com que deveria ensopar as batizandas, assim preparando-as ritualmente para a vida nos ares.
Marisa, petrificada de medo, não tomou a garrafa das mãos de Amarílis. Ficou parada ao seu lado, sob a atenção da platéia que esperava em silêncio. Amarílis ainda falou no microfone:
“Meu Deus, a professora está tão emocionada que nem vai conseguir batizar! Vamos pedir um ‘batiza’ pra ela, pessoal!”
E prontamente a platéia acedeu:
“BA-TI-ZA! BA-TI-ZA!”
Marisa tentava se acalmar, tentava pegar o champanhe das mãos de Amarílis, mas sentia que suas mãos iam desfalecer...
“Gente... olhem como ela chora, olha que comoção, gente... mas a Marisa tem mesmo um motivo pra chorar! Afinal, VEJAM SÓ O QUE ELA FEZ!”
E o telão mostrou uma imensa foto de dona Jimena morta.
Caída no chão do apartamento de Marisa, a velha aparecia na foto, com um ângulo enfático na sangrenta e mortal porrada no lado da cabeça. À vista daquela imagem tenebrosa a platéia entrou em delírio mórbido, rompendo em gritos e choros de espanto. Uma batizanda desmaiou com a visão, as outras demoraram a acudi-la, tão aturdidas estavam.
Mas mais alto que a comoção da platéia — sem parecer atentar ao desespero geral e ao pânico de Marisa, que se debatia nos braços fortes de Soraia — Amarílis continuava a falar, com crueldade fria em sua voz.
“Pois é, amigos, quem diria que essa ruivinha sapeca poderia derramar tanto sangue, né? Que tal a gente pedir pra ela um imenso coro de ‘ASSASSINA!’? ... agora, meus amigos... se vocês se assustaram com o que ela fez com a dona Jimena, vocês vão se assustar muito mais com ISTO!”
E então Marisa viu. Ao ver o que o telão agora mostrava, Marisa não era mais si: achou que já tivesse morrido. Num chão acarpetado deitava-se um suntuoso corpo feminino, vestido de robe verde, revelando um par de deliciosas coxas morenas. E acima dos fartos seios, onde devia haver a cabeça, uma explosão de vermelho marcava o chão, salpicada de pedaços de crânio e miolos. Mas Marisa não precisava ver o rosto: sabia que aquele corpo, que via morto no telão, era o belo corpo de Dagmar.
A platéia triplicou em pânico ao ver a foto de Dagmar sem a cabeça. Os gritos femininos ecoavam nas paredes e se amplificavam no salão, instalando o caos generalizado. Mas Marisa, esta não gritava. A imagem da amada morta tomava-lhe agora todo o espírito, paralisando-a, envolvendo-a num medo desconhecido... Sua respiração era difícil, como a de uma parturiente. Aterrada e ofegante, a moça não atentava ao tumulto que se criava em seu entorno. Havia apenas ela ali, ela e a morte de Dagmar, únicos elementos da vida daquela mulher. Marisa não mais enxergava — como se o salão tivesse mergulhado em infindáveis trevas — o que acontecia ao seu redor, não ouvia os gritos do público nem a voz firme de Amarílis, que ainda falava ao microfone...
"Já sei, agora vamos pedir pra Marisa um grande coro de ASSASSINA!"
E as provocações da patroa não chegavam aos ouvidos da moça. Esta apenas notava hipnotizada a chuva de pétalas de rosa, intensamente vermelhas, que começava a cair sobre o palco e sobre ela. Não entendia aquilo, e via as rosas pairarem devagar do teto até o chão.
Mas não eram pétalas de rosa! Era sangue!! Era sangue o que caía do teto, o sangue de Dagmar. Marisa, petrificada, recebia no rosto transtornado aquele sangue mistificante, o sangue de sua amada morta, no contato físico mais íntimo que jamais tivera com o corpo de Dagmar. Ainda sem poder agir (seus músculos não lhe respondiam), deixou que o sangue lhe banhasse os cabelos e o vestido, de pé em meio à profusão de gritos, desmaios e desesperos que assolava o salão de festas. O sangue penetrava-lhe a alma, fazia a moça preencher a amplidão com um único grito:
“DAGMAR!!!”
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Gritando, Marisa despertou do sonho. Abrindo os olhos viu o teto da salinha de café, viu a figura de Soraia, que a pegava nos braços e dizia “Calma...”, enxugando com a mão dela sua testa suada de pesadelo.
Demorou segundos para ela entender que tinha sonhado. E esse despertar suado foi talvez a constatação mais feliz da vida de sua vida. Dagmar não estava morta! Era como se Marisa renascesse, seu coração ainda batia aceleradíssimo do susto.
“Querida, você desmaiou...”
“Eu?...”, Marisa lutava para recobrar a respiração.
“Você desmaiou mal a Amarílis subiu no palco! Ela já batizou as aeromoças e tudo, nós deixamos o seu prêmio por último. Vem logo, querida, ainda dá tempo de você apresentar!”
“Olha... Soraia...”, dizia Marisa, falando mole como uma delirante, “apresenta o prêmio você pra mim, eu ainda não estou muito bem...”
“Você está louca, menina?! Você vai se arrepender disso o ano inteiro! Imagine, não apresentar o prêmio! Nós deixamos ele por último justamente porque você tinha desmaiado, agora você vai lá e dá a volta por cima! E além do mais eu já apresentei os prêmios de ‘melhor postura’ e de ‘cinturinha de pilão’...”
E Soraia já lhe pregava no busto um microfone de lapela, encaminhando-a para fora da salinha e para cima do palco.
Marisa, ainda de pernas bambas e assustada com o pesadelo (que mais lhe parecia uma terrível premonição), subia devagar a escadinha que levava ao palco, e recebia os aplausos da galera. Amarílis a apresentava em grande estilo:
“Para o nosso último prêmio, o de melhor comportamento, a mais fabulosa osasquense de todos os céus. A querida professora Marisa!!”
Marisa, em cima do palanque, ainda tremia enquanto recebia das mãos de Amarílis, o troféu a entregar e o envelope com o nome da premiada. Olhava a platéia em silêncio, lembrando de seu terrível sonho, seria possível que eles não soubessem de nada? Falando baixo no microfone de lapela, tentava parecer calma:
“Boa noite... é com prazer e honra que eu vou apresentar o prêmio de... de melhor comportamento...”
Enquanto falava, a moça vasculhava a platéia com temor. Não havia sinal de polícia, o que não a deixava aliviada. Puxou o cartão do envelope e leu em voz alta o conteúdo:
“O prêmio de melhor comportamento deste ano vai pra... Francielly Giovanna Camargo, batizada ‘a Curtidinha’...”
A platéia irrompeu em aplausos. A Curtidinha, ainda cheirando a champanhe, veio ao palco receber o trofeuzinho das mãos de Marisa, cumprimentando-a com um beijo tímido. Enquanto Francielly fazia reverências para a platéia, que exigia “Discurso!”, Marisa notava algo de estranho no envelope. Um segundo papel havia ali dentro. Um papel dobrado e escrito, a lápis, “Marisa”.
A moça tremeu enquanto desdobrava e lia:
MARISA, A POLÍCIA ESTÁ LÁ FORA.
FOGE PELA SAÍDA DE LIMPEZA. EU ESTOU TE ESPERANDO LÁ COM A CHAVE.
Ass. NEUSA.
“O que você vai dizer pra Francielly, Marisa?”, Amarílis conclamava a professora a pronunciar-se para o público. Marisa tentava dizer algo, era tão difícil, as palavras do bilhete ocupavam sua mente...
“Ah... muito... parabéns, Francielly, e que seja muita felicidade.”
Foi só isso o que ela disse, e virou rapidamente para ir embora do palco. Amarílis não escondeu sua decepção:
“Mas é só isso que você tem a dizer pra Francielly?”
Porém Marisa nem respondeu. Já tinha ralado o peito dali, por trás de uma cortina encaminhava-se para a saída de limpeza, obedecendo temerosamente à instrução de dona Neusa. Pela janelinha que dava para a rua, entrava no corredor a luz vermelha e girante de uma viatura.
Marisa ofegava, tirou os sapatos altos para melhor andar, talvez tivesse que correr. Por que a dona Neusa estava fazendo aquilo, por que a dona Neusa queria protegê-la? Seria esta a armação que vaticinara em sonho? Com esses pensamentos hesitava, estendia a mão para abrir a porta, quando outra mão por trás lhe segurou o braço.
“Peraí, onde você vai?”
Virou-se, e viu Daniella. Pulando para trás com o susto, Marisa bambeava as pernas enquanto via aquilo que parecia ser uma assombração, fugida dos anos 90 e vestida de policial. Falou, gaguejando:
“Daniella?...”
A gaúcha olhou-a nos olhos, disse com ternura, mas firme:
“A gente tem muito o que conversar, mas precisa ser longe daqui. Tem dois filhos-da-puta da polícia lá fora, esperando pra te prender. A tal da Jimena acordou, acordou e falou o seu nome. Vai ser difícil sair daqui com você sem os filhos-da-puta verem, eu vou fazer um negócio, você fica quieta e vem comigo, tá bom?”
“...tá bom...”, aceitava Marisa sem firmeza, sem saber se devia confiar na outra.
E não acreditou quando viu o que Daniella fez.
Levantando a cortina que dava pro salão de festas, Daniella sacou a pistola do bolso, parecia fazer pontaria em algo ou em alguém...
“Meu Deus, o que ela vai fazer?!”, Marisa já pensava no pior.
A outra, mirando com muita perícia, disparou um pipoco contra o enorme globo de espelhos que pairava acima do espaço ao lado do palco, onde as batizandas, todas juntas, ouviam o discurso final de Amarílis.
Um estrondo soou no salão, e uma chuva de estilhaços de espelho já caía sobre as batizandas, rasgando-lhes agudamente a pele. O pânico fez-se senhor, proliferando gritos. Correndo sem saber pra onde, tentando abrir caminho no choque de umas com as outras, as batizandas debatiam-se, chocavam-se, roçavam-se, assustadas pela visão do próprio sangue que escorria de rostos e braços cortados. As que não cortavam a face nem o ombro, estas rasgavam suas meias e pezinhos nos finos estilhaços do chão, tendo perdido o sapato. E o sangue seguia sujando meias, maculando cabelos e vestidos.
Os convidados da festa, as professoras, todos corriam pra acudir as batizandas, que se jogavam aos gritos nos braços dos noivos ou de parentes, ainda com a pele crivada de estilhaços, traumatizadas para sempre no que deveria ser o momento mais sublime de suas vidas.
Marisa tremeu ao ver aquilo. Já ia desabar no chão, mas Daniella a segurava com força, demonstrando senhora frieza frente ao terror geral que causara.
“Agora a gente foge daqui!”, Daniella disse à outra, e puxou-a pela mão rumo à saída de limpeza.
